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Ligando os pontos

Textos de Marcos de Vasconcellos, jornalista, CEO do Monitor do Mercado, colunista da Folha de S.Paulo e assessor de investimentos.

Para elogiar o próprio trabalho, Guedes fantasia que Covid foi vencida

“A doença foi vencida”, diz o ministro Paulo Guedes, abatido e reticente, em frente a um computador que exibe últimas notícias e cotações de ativos do mercado financeiro (terminal Bloomberg), em seu gabinete.

A fala aparece em um vídeo feito pelo Ministério da Economia para mostrar o “Balanço das Ações” da pasta em 2021, publicado nos canais oficiais do governo em 22 de dezembro, mas assistido por menos de 650 pessoas até agora (veja abaixo).

Já ali, antes do Natal, bastava uma rápida pesquisa para notar o aumento do número de casos de Covid em todo o mundo, com sua variante ômicron, e entender o estrago que estava por vir. A fantasia otimista foi a escolha típica de quem entra em ano eleitoral.

Em seu balanço anual, o ministro da Economia garante que “a economia voltou em V”, mas o Brasil ficou mais pobre. É que “o mundo inteiro ficou mais pobre”, justifica, com a alta da inflação global, refletindo os impactos da pandemia de coronavírus.

Com muitas pausas em sua fala, Guedes traz poucos traços do economista que dizia, enfaticamente, em 2018, que a governabilidade a ser construída por Bolsonaro teria novas bases. “Ela não é o toma lá, dá cá no Congresso”, afirmava o então energético “Posto Ipiranga”, que parecia ter resposta para tudo.

Essas e outras previsões do Guedes da época das eleições passadas envelheceram mal. A liberação de verbas através de emendas parlamentares às vésperas de eleições no Congresso e da votação da PEC dos Precatórios, mostram a imposição da realidade ao discurso.

O presidente Jair Bolsonaro, inclusive, mereceu apenas uma rápida citação no balanço do ministro Guedes. Teria sido graças ao trabalho dele e da equipe de ministros que a economia teria voltado em “V”, com a geração de mais de 3 milhões de empregos.

O vídeo de Guedes é parte de uma série de balanços feitos por diversos agentes do Ministério da Economia, onde os secretários das diversas áreas elogiam o próprio trabalho.

Algumas autoavaliações beiram a fantasia. Em meio ao caos fiscal que tem afundado o valor do real e a Bolsa, com as incertezas sobre o compromisso do governo ao teto de gastos e a liberação de verbas a força, o secretário especial do Tesouro e Orçamento, Esteves Colnago, diz que “2021 está se encerrando de uma forma muito boa em termos fiscais”.

Diante das taxas de juros mais alta desde 2017, com perspectiva de subir ainda mais no próximo ano, encarecendo o dinheiro e dificultando o empreendedorismo, o secretário especial de Produtividade e Competitividade, Carlos Da Costa, afirma: “O Brasil hoje é um país muito melhor para se empreender, o que nós chamamos de melhor ambiente de negócios”.

O secretário de desestatização, Diogo Mac Cord, por sua vez, “o ano de 2021 foi excepcional”, com “entregas fantásticas”.

Entre as “entregas fantásticas” listadas por Mac Cord está a Medida Provisória para privatização da Eletrobras. A venda da estatal vem se arrastando desde o início do governo e especialistas avaliam que as chances de dar em água são tremendas, já que levar um projeto desses adiante em ano de eleições presidenciais exige um esforço e negociações hercúleas.

Anos eleitorais já não são fáceis para investidores, como mostrei aqui semana passada. Se a equipe econômica preferir autocongratulações eleitoreiras em vez de encarar a realidade que assola nosso mercado, investir na Bolsa neste ano será como dirigir na neblina.

Veja aqui os vídeos de Guedes, Colnago, Costa e Mac Cord.

*Marcos de Vasconcellos é jornalista e assessor de investimentos. CEO do Monitor do Mercado, escreve às sextas-feiras na Folha de S.Paulo, sobre investimentos.

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