Na primeira sessão após o feriado de Corpus Christi e reuniões dos bancos centrais dos Estados Unidos e do Brasil que definiram a política monetária dos dois países nos próximos meses, a Bolsa opera em forte queda, derrubada pelas commodities. O movimento negativo indica a forte aversão a ativos de risco já sinalizada anteriormente, agora com um cenário de uma possível recessão mais definido diante dos anúncios de aperto fiscal.
Por aqui, o mercado também reage negativamente aos novos sinais de aumento da inflação, com o anúncio de aumento de preços dos combustíveis pela Petrobras, e de possível risco fiscal com a perda de arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Depois de abrir em queda de mais de 2%, a bolsa passou a cair ainda mais após o anúncio de aumento de preço dos combustíveis pela estatal. A ação tem forte peso no índice e o combustível eleva a projeção de aumento da inflação.
O movimento da bolsa brasileira também vai na contramão do exterior, com a maioria das bolsas mostrando recuperação nesta manhã após uma semana de fortes perdas. Ontem, os mercados globais operaram em baixa e registraram quedas dos principais ativos de risco, em reflexo às decisões de aperto monetário em economias avançadas, e ao receio de recessão nos EUA em 2023.
Às 13h20 (horário de Brasília), o principal índice da B3 caía 3,90%, aos 98.796,24 pontos. O Ibovespa futuro com vencimento em junho recua 4,28%, aos 100.650 pontos. O giro financeiro era de R$ 12,8 bilhões. Em Nova York, os índices operavam mistos.
Com apenas cinco ações em alta (Eneva, Assaí, CVC, Hapvida e Taesa), o Ibovespa registra queda geral dos ativos, com as ações de maior peso do índice Vale (VALE3) e Petrobras (PETR3 PETR4) caindo mais de 6% e 8%, respectivamente, e as maiores quedas vistas nos papéis da petrolífera, CSN, Gerdau e 3R Petroleum.
Na quarta-feira (15/6), o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) elevou as taxas básicas de juros dos Estados Unidos em 0,75 ponto percentual (pp) para a faixa de intervalo entre 1,50% e 1,75% e seu presidente, Jerome Powell, afirmou que o próximo aumento nas taxas básicas de juros dos Estados Unidos pode ficar entre 0,5 e 0,75 pp.
Na quarta-feira, após o fechamento dos mercados, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil também elevou a taxa Selic em 0,5 pp, passando de 12,75% para 13,25% ao ano, o que já era amplamente esperado. Além disso, autoridade monetária também divulgou comunicado que poderá fazer outro ajuste de igual ou menor magnitude no encontro de agosto, o que deixou o mercado em dúvida se haverá aperto ou relaxamento dos juros.
A sessão de hoje já prometia ser volátil devido ao vencimento de opções de ações e com o mercado reagindo ao aumento de preços dos combustíveis pela Petrobras, mesmo após o governo federal, que é acionista controlador da empresa, tentar evitar o reajuste antes de testar o efeito do projeto que limita a taxação dos Estados sobre os combustíveis.
Os aumentos de 5,18% nos preços de gasolina e de 14,26% em diesel nas refinarias, anunciados essa manhã pela Petrobras, devem levar o Indice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a uma taxa de 9,2%, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre). Sem os ajustes anunciados hoje, a projeção para a taxa anual do indicador era menor, de 9%. Até maio desse ano, o preço da gasolina junto ao consumidor acumula alta de 28,73% em 12 meses pelo IPCA. Já o preço do óleo diesel acumula aumento de 52,27%. Segundo o FGV Ibre, o peso da gasolina no total do indicador é de 6,8% do total. Já o peso atualizado de diesel no IPCA é de 0,3%. Em 12 meses, o IPCA acumula até maio alta de 11,73%.
Para o analista da Ouro Preto Investimentos, Bruno Komura, o mercado está bastante negativo hoje em reação ao Fed e Copom. O mercado aceitou e considerou os anúncios feitos pelo Fed bons indicativos, mas ele ainda continua atrás da curva e há bastante desconfiança em relação ao que foi sinalizado. O mercado acha que será necessário endurecer ainda mais a política monetária e aumentar ainda mais do que os 50 pontos-base anunciados pelo Fed, mas em 75 pb. Na quarta-feira, a reação foi positiva, mas ontem e hoje continuam negativas, por que o risco de recessão está aumentando, o que será inevitável num cenário de redução da inflação nessa magnitude.
Em relação ao Brasil, o analista avalia que o Copom já incorporou o risco fiscal de 2023 e 2024 nas próximas elevações da Selic em seu último anúncio, o que também impacta negativamente a sessão de hoje. “O Copom aumentou a taxa de juros e sinalizou mais uma alta na próxima reunião, provavelmente por que os riscos fiscais estão começando a entrar no preço. O projeto de limite do teto do ICMS deve dar um alívio, mas deve piorar o cenário fiscal para 2023 e 2024. As commodities, especialmente mineração, petróleo e siderúrgicas, estão puxando bastante o índice para baixo hoje”, disse Komura.
Para Idean Alves, sócio e chefe da mesa de operações de renda variável da Ação Brasil, o principal fator é o risco de uma recessão global estar se tornando cada vez mais real e que, apesar dos bancos centrais estarem buscando um “pouso suave” da economia face aos juros subindo e inflação elevada, o mercado começa a fazer conta de que esse será o cenário mais provável, e já começa a antecipar esse movimento.
“O movimento de alta de juros nos EUA, Brasil e Europa aumenta também a taxa de desconto do valuation das empresas, que na prática faz elas “valerem” menos, o que também vai se refletindo nos preços.
Por último, a queda das bolsas também influencia positivamente para o controle da inflação, pois reduz a confiança do consumidor, e a percepção de riqueza. São esses os principais fatores que estão colaborando para a forte queda hoje no Brasil, e que aconteceu ontem lá fora. Por conta do feriado, a correção está vindo hoje no Brasil”, opinou.
Cynara Escobar / Agência CMA
Copyright 2022 – Grupo CMA
Imagem: Unsplash

