O anúncio de uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, feito nesta quarta-feira (9) pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump, gerou forte repercussão em Brasília e no mercado financeiro.
Os analistas do BTG Pactual afirmam que o impacto direto sobre a economia brasileira tende a ser limitado, mas, em relatório, destacam as empresas e setores estratégicos que mais devem sofrer (veja abaixo). As consequências políticas podem ser ainda mais profundas, avaliam.
A nova tarifa entra em vigor em 1º de agosto e, segundo a Casa Branca, visa “responder à perseguição política a Jair Bolsonaro e à censura a empresas americanas de tecnologia no Brasil”. Apesar do tom político da medida, os analistas do BTG preferiram focar nos dados: “as exportações brasileiras para os EUA representam apenas 12% do total enviado ao exterior, ou cerca de 1,7% do PIB”, escrevem.
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Superávit menor e efeitos concentrados
Segundo o relatório assinado por Carlos Sequeira, Leonardo Correa e outros analistas sêniores do banco, caso as tarifas não sejam revertidas, o superávit comercial brasileiro pode cair US$ 7 bilhões em 2025 e US$ 13 bilhões em 2026, mesmo com parte das exportações sendo redirecionadas a outros mercados.
Mas os impactos não serão uniformes. O BTG alerta que setores com forte dependência do mercado norte-americano, como aviação, papel e celulose, materiais de construção e madeira, devem sentir os efeitos mais fortes.
Embraer, por exemplo, tem aproximadamente 60% de suas vendas voltadas aos EUA, sendo que os jatos executivos Praetor — montados no Brasil — podem ser diretamente afetados. Já os jatos Phenom, fabricados na Flórida, teriam impacto menor. O BTG estima que uma tarifa de 50% pode reduzir as margens da empresa, tornando mais provável a revisão de seu guidance financeiro.
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Na WEG, gigante industrial brasileira, a preocupação é com os transformadores e motores exportados aos EUA, que representam cerca de 30% das vendas no país. A empresa pode considerar alternativas como ampliar a produção local ou transferir parte das operações ao México.
A Suzano, por sua vez, tem cerca de 19% de sua receita exposta ao mercado norte-americano. Com a demanda global por celulose ainda fraca, redirecionar o volume exportado pode ser um desafio — ainda que os preços atuais estejam próximos de um piso.
Setores pouco afetados pela tarifa
Outros setores devem passar praticamente ilesos. Petróleo e derivados, por exemplo, seguem isentos segundo ordens executivas anteriores, e a Petrobras destina apenas 4% de seu petróleo bruto aos EUA — facilmente redirecionável para outros destinos, segundo o banco.
O setor siderúrgico também não deve ser impactado, já que produtos como placas de aço já enfrentam tarifas acima de 50% desde 2018. Empresas como Gerdau e Usiminas têm exposição limitada ou já atuam nos EUA por meio de produção local.
No agronegócio, apesar da tarifa tornar inviável a exportação de carne bovina aos EUA, a maioria das empresas do setor tem baixa dependência do mercado americano, com destaque para Marfrig (2% da receita) e Minerva (5%). Já a Jalles Machado, que exporta açúcar orgânico para os EUA, pode sentir o baque, embora isso represente apenas 5% de sua receita.
Efeito político da tarifa pode ser maior que o econômico
Para o BTG, as implicações políticas da medida podem ser mais duradouras que os impactos econômicos imediatos. O banco avalia que a postura de Trump fortalece o presidente Lula internamente, permitindo que ele se posicione como defensor da soberania brasileira contra uma tentativa de intervenção estrangeira.
“O governo Lula pode ganhar tração política ao explorar esse conflito em um contexto de polarização com seu principal adversário, Jair Bolsonaro”, escrevem os analistas, que destacam ainda que o PT reagiu com entusiasmo, chamando a medida de “arbitrária e antidemocrática”.
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Contexto global e cenário incerto
A decisão de Trump ocorre em um momento de aumento das tensões comerciais globais e recrudescimento do discurso protecionista nos EUA. O ex-presidente já havia anunciado tarifas adicionais sobre produtos da China, México e até da União Europeia — mas, no caso brasileiro, o viés político ficou evidente, tornando a situação mais sensível.
Apesar da retórica inflamada, os analistas do BTG ressaltam que o Brasil ainda possui capacidade logística e comercial para redirecionar parte das exportações e que, até o momento, produtos essenciais como petróleo bruto e alguns insumos industriais seguem isentos da nova taxa.
Ainda assim, a mensagem enviada por Trump é clara: o ambiente de negócios com os EUA pode ficar mais hostil nos próximos anos, especialmente em um eventual segundo mandato. E isso exigirá agilidade e diplomacia do governo brasileiro — e resiliência das empresas nacionais.











