Mesmo enxergando uma “guerra civil” nos mercados globais, a Kinea Investimentos está apostando no Brasil, mantendo uma posição comprada em real. A gestora vê o câmbio sustentado pelo diferencial de juros, pelo carrego elevado e pelo bom momento das moedas emergentes, apesar do avanço do risco político e do ruído institucional no mundo.
De acordo com a última Carta do Gestor, publicada pela Kinea na última sexta-feira (30), 2026 começa sem vilões claros, mas com tensões crescentes entre política e mercado — um ambiente em que decisões rápidas ajudam hoje, mas cobram preço amanhã.
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A metáfora da “guerra civil” e o “dia seguinte” das intervenções
A carta usa Capitão América: Guerra Civil como analogia para um dilema que voltou ao centro do debate econômico: acelerar resultados no curto prazo ou preservar o arcabouço institucional que sustenta a previsibilidade. No filme, não há vilões óbvios — apenas boas intenções em choque. Para a Kinea, o risco não está no gesto inicial de intervir, mas no “dia seguinte”: administrar as consequências.
Essa é a chave da análise: o mercado não está diante de uma crise sistêmica, mas de uma erosão gradual de confiança, que se traduz em prêmios de risco mais altos e em maior sensibilidade a anúncios políticos.
Estados Unidos: poder, preços e erosão marginal de previsibilidade
Nos EUA, a gestora descreve um ambiente em que o sistema segue funcionando, mas sob estresse. A administração americana tem adotado intervenções pontuais e cada vez mais frequentes — na geopolítica e no plano doméstico — que já afetam preços de ativos. A leitura da Kinea não é de ruptura institucional, mas de perda marginal de previsibilidade, exatamente o tipo de mudança que costuma aparecer primeiro no mercado.
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No exterior, Venezuela e Irã aparecem como vetores de tensão por sua relevância no mercado de energia, elevando o prêmio de risco no petróleo no início do ano. Em paralelo, a sinalização de expansão do orçamento de defesa reforça a percepção de um mundo mais fragmentado e guiado por “poder duro”, com impacto direto sobre expectativas fiscais e o apetite por risco.
No plano doméstico, a carta cita iniciativas e sinalizações de intervenção em preços e condições de crédito — como juros de cartão, medicamentos, habitação e financiamento imobiliário — além de atritos recorrentes com o Federal Reserve e seu presidente, Jerome Powell. Para a gestora, esse movimento não derruba instituições de uma vez, mas torna o ambiente mais ruidoso e difícil de precificar.
Kinea vê fundamentos sólidos, mas juros longos no radar
Apesar do aumento do ruído, a Kinea avalia que a economia americana continua em terreno construtivo. A atividade segue resiliente, com expectativa de aceleração moderada do crescimento, apoiada por impulsos fiscais e condições financeiras ainda acomodatícias. Esse quadro, segundo a carta, favorece uma posição comprada em bolsa americana e uma aposta em juros longos mais altos.
A lógica é simples: crescimento nominal resiliente, gasto público maior e pressão estrutural sobre o fiscal tendem a exigir maior remuneração na ponta longa da curva. A gestora também aponta espaço para retomada de protagonismo de setores mais cíclicos — como financeiro, industrial e consumo — após um período em que tecnologia concentrou grande parte da liderança.
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Groenlândia e Japão: o fiscal testando o apetite do mercado
A carta amplia o foco para outros pontos de instabilidade. No tabuleiro geopolítico, a retórica sobre a Groenlândia é tratada como sinal de um mundo em que segurança nacional, energia e logística passam a ser vistos como extensões diretas da política de Estado. A Kinea ressalta que, ainda que tarifas tenham sido descartadas no curto prazo, o episódio reforça riscos como um eventual “Sell America” e um impulso europeu por maior coordenação fiscal e emissões para financiar defesa.
No Japão, o alerta é de natureza fiscal e de mercado de juros: com dívida acima de 200% do PIB e mudanças políticas que podem ampliar o espaço orçamentário, a questão é até que ponto o mercado seguirá financiando esse ritmo — especialmente num momento em que o banco central reduz seu balanço após anos de estímulos, deixando mais dívida para o mercado absorver.
Brasil: estabilidade na superfície, tensão no subsolo
No Brasil, a Kinea vê os mercados operando ao sabor de três vetores: fluxo para emergentes, expectativa de cortes de juros pelo Banco Central e crescente tensão eleitoral.
A inflação segue em convergência, enquanto a atividade desacelera gradualmente — um quadro que, na visão da gestora, abre espaço para um ciclo de cortes de até 250 pontos-base, com início potencial em março.
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Mas há ressalvas. Parte relevante da desinflação recente — no IPCA e nos núcleos — vem de industriais, refletindo tanto a apreciação cambial do ano passado quanto a deflação importada de produtos chineses. Já a inflação de serviços, especialmente a intensiva em mão de obra, permanece incômoda, em linha com um mercado de trabalho apertado e sinais de economia rodando além da capacidade de oferta.
A gestora também chama atenção para vulnerabilidades externas: o déficit em conta corrente, citado em 3,5% do PIB, aumenta a sensibilidade do país a mudanças no cenário internacional.
Por que a Kinea segue comprada em real
É nesse equilíbrio entre fluxo favorável e riscos latentes que a Kinea sustenta a posição comprada em real. O argumento passa pelo diferencial de juros elevado, pelo bom momento das moedas latino-americanas e pelo carrego ainda atrativo. A leitura é que, enquanto o ambiente externo continuar construtivo para emergentes, o câmbio brasileiro mantém suporte — ainda que a volatilidade possa aumentar conforme o calendário político avance.
Ao mesmo tempo, a carta sugere que, para um ciclo de cortes mais agressivo do que o precificado hoje, o Banco Central precisará ver sinais mais claros de desaceleração da atividade ou um real ainda mais apreciado para compensar um hiato de produto que, na visão da gestora, segue aberto.
Eleição no radar e o prêmio de risco pode subir
O ponto sensível, segundo a Kinea, é que a estabilidade recente “mascara parcialmente” a tensão política doméstica. À medida que a eleição se aproxima, o debate deixa de ser apenas econômico e passa a girar em torno de viabilidade, rejeição e governabilidade — variáveis que, na leitura da gestora, serão determinantes para antecipar movimentos de mercado.
Nesse contexto, a carta menciona a candidatura de Flávio Bolsonaro como fator de ruído, ao lado das alternativas percebidas como mais palatáveis ao eleitor de centro. A Kinea afirma que, em uma eleição potencialmente decidida por eleitores de centro e de classe média, especialmente no Sudeste, os mercados devem acompanhar de perto dois indicadores: taxa de rejeição dos candidatos e aprovação do governo.
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Estratégia no Brasil: menos apostas, mais proteção
Com esse pano de fundo, a postura da gestora é descrita como mais “enxuta e pragmática” no Brasil. Em juros, a Kinea segue explorando assimetrias táticas em momentos de abertura da curva. No câmbio, mantém atuação predominantemente tática, com viés comprado em real. Na bolsa, opera com um número reduzido de nomes, majoritariamente “hedgeada” em índice, e usa opções para capturar eventuais movimentos positivos sem assumir riscos binários ligados ao processo eleitoral.
A mensagem é de disciplina: participar do upside quando ele aparecer, mas com proteção suficiente para atravessar um período em que o prêmio de risco pode crescer.
Guerra civil sem vilões — e um mercado por regimes
Ao final, a Kinea reforça a ideia de que 2026 começa sem uma crise clássica, mas com o mundo dividido por “regimes concorrentes”: estímulos fiscais e monetários convivendo com intervenções pontuais, rotação entre setores e estilos na bolsa e maior sensibilidade geopolítica em commodities.
No Brasil, a fragmentação assume contornos políticos: o cenário eleitoral reduz visibilidade e comprime o espaço para apostas direcionais grandes. Em vez de escolher lados, a gestora prefere simplificar, proteger e manter convexidade.
Como no filme, a conclusão é que não existem soluções absolutas — nem heróis infalíveis. Em uma “guerra civil” de mercado, o erro não está em tomar posição. Está em ignorar que o campo de batalha mudou.



