Após a decisão do Copom de reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, nesta quarta-feira (18), o choque do petróleo e o cenário de guerra no Oriente Médio devem reduzir a margem de manobra nas próximas decisões do Banco Central (BC), segundo análise da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
A instituição destaca que pressões relevantes sobre a inflação, como o recente choque nos preços do petróleo e a persistência da inflação de serviços não impediram o início do ciclo de queda dos juros, mas foram determinantes para que o Copom limitasse o tamanho do corte.
Na avaliação da FecomercioSP, esse contexto deve continuar restringindo movimentos mais intensos nas próximas reuniões de política monetária.
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Inflação de serviços segue pressionada
Entre os fatores domésticos de atenção a FecomercioSP destaca a dinâmica dos preços no setor de serviços, que continua registrando pressões inflacionárias.
Esse comportamento, segundo a instituição, está associado a um mercado de trabalho ainda aquecido, ao crescimento da renda real da população e à manutenção de uma demanda interna resiliente.
A análise aponta que mesmo com o IPCA acumulado em 12 meses em 3,8%, abaixo do teto da meta de inflação, de 4,5%, os preços de serviços tendem a reagir de forma mais lenta às mudanças na política monetária.
Isso ocorre porque esse tipo de inflação apresenta maior inércia, ou seja, demora mais tempo para desacelerar mesmo após alterações na taxa de juros.
Outro ponto de atenção destacado pela federação é a retomada da alta dos núcleos de inflação, que sugere maior dificuldade para que a inflação converja para o centro da meta estabelecida pelo Banco Central.
Preço do petróleo amplia incertezas
No cenário internacional, a escalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel abriu um novo foco de incerteza para a economia global.
Na leitura da FecomercioSP, esse episódio representa uma das maiores fontes de risco da última década no cenário internacional.
O impacto foi imediato no mercado de energia. Em apenas duas semanas, o preço do barril de petróleo registrou forte elevação, movimento que tende a pressionar a inflação em diversos países.
Esse tipo de choque costuma ter efeitos mais intensos em economias que operam acima do chamado nível potencial de produção — situação na qual a atividade econômica está aquecida e a demanda permanece forte.
Segundo a FecomercioSP, esse ponto é particularmente crítico para o Brasil. Com a economia doméstica em ritmo elevado, o aumento do preço do petróleo pode se transformar em uma pressão inflacionária mais persistente.
Copom busca previsibilidade para o mercado
Outro fator destacado pela federação é a estratégia de comunicação adotada pelo Banco Central após o anúncio sobre os juros nesta quarta-feira.
O Copom tem procurado transmitir sinais claros e consistentes ao mercado financeiro, evitando movimentos inesperados que possam gerar volatilidade ou crises de confiança.
Embora o ciclo de redução da Selic tenha sido iniciado, ainda há elevada incerteza sobre quanto tempo ele irá durar e qual será o ritmo das próximas quedas, especialmente diante do ambiente doméstico e internacional.
Revisão da projeção de inflação chama atenção do mercado
O economista Maykon Douglas destaca que um dos pontos mais relevantes do comunicado foi a revisão da projeção de inflação para o horizonte considerado relevante pelo Banco Central.
A estimativa passou de 3,2% para 3,3%, enquanto o consenso entre analistas apontava para uma projeção próxima de 3,5%, dependendo das premissas adotadas nos modelos, especialmente em relação ao salto recente do preço do petróleo.
Douglas também avalia que, independentemente da guerra, o Copom já indicava uma postura mais cautelosa em relação aos próximos passos da política monetária.
Entre os fatores que justificariam essa postura estão o aperto no mercado de trabalho, a persistência da inflação no núcleo de serviços e a perspectiva de um possível impulso fiscal positivo em 2026.
Ainda assim, o economista pondera que, no curto prazo, os desdobramentos do conflito e seus efeitos sobre os preços das commodities devem se tornar o principal foco de atenção.
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Ata deve detalhar impacto do petróleo nas projeções do BC
Para o economista, a ata da reunião do Copom, com divulgação prevista para a próxima semana, deverá trazer informações adicionais sobre como o Banco Central incorporou a recente alta do petróleo em suas projeções de inflação.
Segundo Douglas, há elevada incerteza em torno dessa variável, especialmente diante da possibilidade de o conflito internacional se prolongar além do esperado.
Essa preocupação ajuda a explicar por que o Copom evitou apresentar guidance. Mesmo assim, o economista afirma que o cenário pode mudar dependendo da evolução do conflito.
“Se o conflito não se estender tanto e/ou não trouxer disrupções de oferta ainda maiores, o Copom não verá grandes obstáculos para continuar o ciclo de calibração da política monetária. Então, o mercado terá uma leitura dovish da decisão de hoje”, conclui o especialista.


