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Guerra no Oriente Médio impulsiona commodities agrícolas em março, com destaque para a soja

Por Gabriela Santos
02/abr/2026
Em Mercados, Notícias
Esta imagem foi editada por Inteligência Artificial

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A escalada das tensões no Oriente Médio teve papel central na formação dos preços das commodities agrícolas em março, ao alterar o comportamento de mercados ligados à energia e aumentar a volatilidade global.

A alta do petróleo ao longo do mês elevou os preços de produtos agrícolas sensíveis ao custo energético, como o óleo de soja, que teve valorização superior a 13% na bolsa de Chicago, puxando também os preços na negociação do grão.

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Esse efeito ocorre com o aumento da competitividade de alternativas renováveis, como o biodiesel. Com isso, cresce a demanda por óleo de soja, insumo essencial na produção desse combustível.

O impacto do petróleo não se limitou à soja; açúcar, milho e algodão também avançaram na bolsa de Nova York, refletindo a influência do custo da energia sobre diferentes cadeias produtivas.

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Guilherme Heiden, gerente de Inteligência de Mercado da SLC Agrícola, destaca que a sazonalidade também beneficia as commodities brasileiras, uma vez que temos um horizonte de compras distinto do Hemisfério Norte, que estaria sofrendo nesse primeiro momento com a escalada de preços de fertilizantes e ainda está plantando sua safra, enquanto no Brasil a safra já foi finalizada em algumas regiões.

“Eles vão, nessas próximas semanas e meses, sofrer primeiro com as altas dos custos. E aqui no Brasil, apesar de os preços terem subido, o produtor ainda tem muita coisa para comprar. Muita coisa ainda pode acontecer; precisamos acompanhar de perto para ver se os preços de insumos seguirão em alta”, afirma.

Conflito no Oriente Médio e alta do petróleo favorecem mercado de soja

Apesar de um cenário global que indicava possível queda nas cotações, cálculos do Valor Data revelam que a soja terminou março em alta de 4,2%. Os contratos mais negociados custaram em média US$ 11,85 o bushel.

Desde dezembro, os preços acumulam valorização de 10% em Chicago. Parte desse movimento está associada à sinalização do governo dos Estados Unidos de que o país poderá exportar 20 milhões de toneladas para a China na safra 2025/26.

Além da demanda, o ambiente geopolítico também contribuiu para sustentar os preços, com aumento das tensões no Oriente Médio e consequente alta do petróleo fortalecendo o mercado internacional de óleo de soja.

Haiden explica que agora é uma questão de monitorar e fazer a criação de risco da maneira mais eficiente possível, ou seja, “comprar quanto tiver oportunidade e vender quanto tiver oportunidade”.

O especialista esclarece que, uma vez que a atual safra de soja brasileira já foi negociada e está sendo entregue, dada a sazonalidade da safra em relação a outros países, os impactos sobre os custos do frete e seguros, entre outros efeitos de precificação aos exportadores, devem ser projetados em negociações futuras.

Ele acrescenta ainda que cuidados com a lavoura e gestão de longo prazo devem proteger mais as commodities de efeitos dos choques externos, que sempre vão acontecer, por ser algo inerente ao mercado.

“Quanto maior a produtividade, com custos menores e a capacidade que ele [o produtor] tem de prever os cenários externos, não ficando exposto às vendas, é possível mitigar os impactos com uma boa gestão de risco. Quem gere o risco tem capacidade de navegar por essas crises”, conclui.

Expectativa para fim do conflito pode derrubar os preços

Apesar da alta recente, há fatores que podem inverter a trajetória no curto prazo. Dados do relatório do Rabobank divulgados pelo Globo Rural apontam que os preços da soja tendem a recuar caso os embarques dos Estados Unidos para a China não atinjam o volume projetado ou se houver redução das tensões no Oriente Médio.

“A relação entre Estados Unidos e China segue como fator determinante para o comportamento da CBOT [bolsa de Chicago], especialmente pelo efeito direto sobre os estoques norte-americanos”, afirmou o banco.

Os fundamentos globais também indicam pressão. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta o quarto ano consecutivo de crescimento dos estoques mundiais de soja. Ao mesmo tempo, a expectativa de aumento da área plantada nos EUA tende a ampliar a oferta e pesar sobre as cotações.

“Ainda assim, o ambiente geopolítico envolvendo Estados Unidos, China e Irã tem aumentado a volatilidade, alterando temporariamente a dinâmica tradicional de formação de preços. Esse contexto amplia a possibilidade de que quebras de safra, restrições de oferta ou episódios de tensão internacional exerçam influência significativa ao longo do período, gerando oscilações adicionais”, destacou o Rabobank no relatório.

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Brasil amplia pressão com safra recorde

No mercado brasileiro, a projeção de uma colheita recorde de 181 milhões de toneladas reforça o viés de preços mais baixos. Ao mesmo tempo, o aumento do diesel eleva os custos de transporte, o que reduz o valor efetivamente recebido pelos produtores.

Esse cenário tende a pressionar as margens na safra 2025/26, exigindo maior atenção à estrutura de custos e à logística.

Por outro lado, Heiden ressalta que, cada vez mais, as commodities agrícolas deixam de ser utilizadas apenas para a alimentação, mas passam a atender a uma demanda também de energia.

“Todo o movimento de transição energética que tem acontecido nos países, assim como o aumento da utilização de soja para produção de biodiesel e de descarbonização da matriz de transporte global com a alta do petróleo, acaba transferindo esse aumento de preços para as manufaturas, beneficiando os preços das commodities”, explica.

Milho também sobe com a forte demanda

O milho também apresentou valorização em Chicago nos últimos dias. Os contratos futuros avançaram 5,7% em março, com média de US$ 4,64.

O movimento foi impulsionado pela demanda aquecida nos Estados Unidos, com embarques elevados e aumento do consumo na produção de biocombustíveis.

Para o Brasil, o cenário é mais desafiador. O custo logístico elevado, somado às longas distâncias entre as regiões produtoras e os portos, pode limitar o ritmo das exportações em 2026, segundo projeção do Rabobank, que estima embarques de 41 milhões de toneladas.

Conflito no Oriente Médio pode redirecionar exportações

O Irã teve participação relevante nas exportações brasileiras de milho, respondendo por 20% do total no ano passado.

Segundo o Rabobank, caso o conflito se estenda até o segundo semestre, uma possível redução nas compras iranianas pode levar exportadores a buscar mercados alternativos.

Nesse contexto, o mercado interno tende a ganhar competitividade relativa, já que é menos impactado pelo custo do transporte.

De acordo com o relatório do banco, a demanda por milho destinado à produção de etanol deve atingir 27 milhões de toneladas, 4 milhões acima do registrado na safra 2024/25, configurando um novo recorde.

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Algodão tem a maior alta em três anos

Guilherme Heiden salienta que, além do peso sobre os preços da soja e do milho, o algodão também foi influenciado pelo avanço do petróleo. Os contratos subiram 6% em março, com média de 68,29 centavos de dólar por libra-peso.

Nesta terça-feira (31/3), o indicador Cepea/Esalq fechou o mês com a cotação em R$ 3,91 a libra-peso, acumulando uma valorização de 11,20%, a maior alta mensal desde agosto de 2022.

De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a alta dos preços foi impulsionada pela resistência dos vendedores, além do aquecimento da demanda e do suporte do mercado externo.

Heiden explica que este último fator está relacionado ao aumento do custo das fibras sintéticas, derivadas do petróleo, o que pode estimular a demanda por fibras naturais, como o algodão.

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