O mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) encerrou 2025 com números expressivos e sinais claros de mudança estrutural no crédito privado brasileiro. A indústria de FIDCs alcançou a marca recorde de R$ 833,5 bilhões em patrimônio líquido, com avanço de 30,3% em relação aos R$ 639,7 bilhões registrados no ano anterior, aponta estudo da Uqbar.
O movimento reflete não apenas o crescimento do volume, mas também a evolução na forma como investidores avaliam risco e retorno.
Impulsionado por uma taxa Selic em 15% ao ano, o segmento manteve forte ritmo de expansão nas emissões, que somaram R$ 290,07 bilhões, e no mercado secundário, onde o volume negociado mais que dobrou, atingindo R$ 44,6 bilhões.
O ambiente de juros elevados favoreceu ativos pós-fixados atrelados ao CDI, ao mesmo tempo em que abriu espaço para estruturas mais sofisticadas e maior participação de investidores institucionais.
- Seu dinheiro pode render mais! Receba um plano de investimentos gratuito, criado sob medida para você. [Acesse agora!]
Segundo Richard Ionescu, CEO da IOX, o fator que explica o crescimento dessas estruturas é a mudança no comportamento do investidor. Ele avalia que o mercado ficou mais conservador, mas de forma sofisticada.
“O investidor aceita risco, desde que seja explicável, mensurável e mitigável. Há menos apetite por teses genéricas e mais interesse em estruturas com subordinação elevada, overcollateral, seguros e histórico operacional comprovado.”
Para Ionescu, esse novo perfil de demanda também ajuda a explicar a forte captação observada na categoria FIDC Outros, que passou a funcionar como um espaço para estruturas inovadoras dentro da indústria.
Estruturas mais complexas e inovadoras ganham espaço
Os FIDCs multiclasse e a categoria “FIDC Outros” se destacaram ao longo do ano, reunindo operações mais estruturadas, com diferentes níveis de risco dentro do mesmo fundo.
Essa categoria passou a concentrar operações com lastro em contratos B2B, crédito corporativo para empresas de middle market, recebíveis financeiros estruturados e modelos híbridos com garantias reais ou colaterais.
“Essa classificação virou um guarda-chuva de inovação. O investidor está buscando menos commodity de crédito e mais engenharia de risco”, afirma o CEO da IOX.
Mudança no perfil do investidor
Apesar do crescimento no número de fundos, a captação segue concentrada em estruturas com maior governança e histórico.
Ionescu avalia que entre 2021 e 2024 houve um crescimento muito acelerado, com a entrada de estruturas mais simples e teses pouco testadas, enquanto em 2025, o investidor passou a discriminar melhor risco, gestor e lastro. “O resultado é que mais fundos estão sendo criados, mas com captação concentrada em estruturas mais robustas”.
Esse movimento também explica o avanço dos FIDCs multiclasse, que permitem distribuir o risco entre diferentes perfis de investidores por meio de cotas com níveis distintos de subordinação.
Recebíveis comerciais seguiram como principal ativo-lastro em 2025
Os recebíveis comerciais seguiram como principal ativo-lastro das emissões, com 31,7% do PL (R$ 264,2 bilhões), seguidos por cotas de FIDC, que assumiram a segunda posição (totalizando R$ 121,5 bilhões -14,6%), e superaram o crédito pessoal, refletindo o crescimento de estratégias via fundos de fundos (FIC-FIDC) e estruturas diversificadas. No terceiro lugar, aparecem os FIDCs Multiclasse, que somam R$ 114,7 bilhões (13,8%).
Os três segmentos concentraram 67,4% das emissões em 2025, acima dos 61% registrados em 2024.
Os FIDCs padronizados dominaram o mercado, com 87% do volume emitido (R$ 251,93 bilhões), enquanto os não padronizados ficaram com 13%, refletindo maior cautela dos investidores diante de estruturas mais complexas e de cobrança inerente aos créditos NPs.
Mercado secundário cresce com menos operações
O mercado secundário apresentou aumento relevante no volume negociado, mas com redução no número de transações. Foram 177.325 operações em 2025, patamar próximo ao de 2022.
As cotas sênior concentraram 127.053 negócios, seguidas pelas de subclasse única (41.336) e pelas mezanino e subordinadas (8.936).
O movimento indica aumento do ticket médio e maior presença de investidores institucionais. Em termos mensais, setembro (R$ 7,45 bilhões) e junho (R$ 4,88 bilhões) registraram os maiores volumes, com destaque também para maio (R$ 4,49 bilhões).
Já o pico de número de transações ocorreu em janeiro, com 30.465 operações, seguido por desaceleração ao longo do ano.
Entre os fundos com maior volume negociado, destacaram-se o FIDC CloudWalk Bela Segmento Meios de Pagamento, com R$ 4,4 bilhões, e o FIDC PrincipiaPay Crédito Educação, com R$ 1,3 bilhão.
Mercado de balcão amplia dominância
A diferença entre os ambientes de negociação aumentou em 2025. O mercado de balcão movimentou R$ 44,54 bilhões, alta de 135%, enquanto o volume negociado em bolsa caiu 68,7%.
O histórico recente mostra alternância entre pulverização e concentração. Em 2024, houve recorde de número de operações (415.202) com volume de R$ 19,11 bilhões. Em 2025, o cenário se inverteu, com menor número de negócios e volume financeiro recorde de R$ 44,6 bilhões.
Liquidez e consolidação do mercado
Os condomínios fechados seguem dominando, com 74,55% do patrimônio líquido (R$ 621,38 bilhões), mas perderam participação em relação a 2024. Já os fundos abertos avançaram para 25,45% (R$ 212,17 bilhões), indicando maior busca por liquidez.
No segmento multicedente-multissacado (MM), o patrimônio chegou a R$ 69,63 bilhões, alta de 24,83% em 12 meses, enquanto o número de fundos caiu levemente, sinalizando consolidação e aumento do ticket médio. O FIDC Red Real LP se destacou como o maior da categoria, com R$ 3,48 bilhões.
Regulação e migração de recursos sustentam avanço dos FIDCs
Mudanças regulatórias da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), como o aprimoramento do informe mensal de FIDCs, aumentaram a transparência e facilitaram a entrada de investidores institucionais.
“Fundos de pensão, seguradoras e family offices precisam de dados recorrentes e comparáveis para alocar capital. O novo padrão de divulgação tornou o FIDC um produto muito mais investível do ponto de vista institucional”, afirma Ionescu.
Além disso, há migração de recursos da renda fixa tradicional para o crédito estruturado. FIDCs passam a ocupar espaço antes preenchido por instrumentos como CDBs, fundos DI e debêntures simples.
- A informação que os grandes investidores usam – no seu WhatsApp! Entre agora e receba análises, notícias e recomendações.
Perspectivas para o mercado de FIDCs
Ionescu prevê que a seletividade deve permanecer elevada, especialmente em segmentos com maior oferta de capital, onde já há compressão de spreads.
Uma eventual queda da Selic em 2026 pode reduzir a atratividade da renda fixa tradicional e ampliar a busca por ativos com maior prêmio de crédito.
Segundo Ionescu, “o produto deixou de ser um instrumento oportunístico e passou a ocupar espaço permanente nas carteiras. Em sua leitura, o crescimento deve continuar, mas de forma mais seletiva e profissional”.
Ele avalia que o próximo ciclo da indústria será menos marcado pela quantidade de fundos e mais pela qualidade das estruturas. Além disso, gestores com disciplina na originação, governança robusta e capacidade de gestão de risco tendem a concentrar a maior parte das novas captações.
“A tendência é que os FIDCs deixem de ser vistos como produto alternativo e passem a ser reconhecidos como um dos principais pilares do mercado de crédito privado no Brasil”, conclui.











