O centro de Santa Maria tem uma avenida que começa na antiga estação ferroviária e segue por mais de um quilômetro de fachadas Art Déco. São prédios dos anos 1920, 1930 e 1940, enfileirados sem interrupção, formando o maior conjunto contínuo desse estilo arquitetônico na América Latina. Uma curiosidade que poucos brasileiros conhecem, numa cidade do centro geográfico do Rio Grande do Sul que também guarda 84 casas operárias construídas por engenheiros belgas, fósseis de 230 milhões de anos e a primeira universidade federal a ser instalada fora de uma capital no Brasil.
A cidade que nasceu de uma fronteira disputada entre Portugal e Espanha
A origem de Santa Maria tem mais a ver com geopolítica do que com vocação comercial. Em 1777, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Santo Ildefonso, que estabeleceu os limites entre suas possessões na América do Sul. Para demarcar essas fronteiras, o governo português instalou uma Comissão Demarcadora de Terras. Em 1797, a comissão estabeleceu acampamento definitivo num largo que daria origem à atual Praça Saldanha Marinho e a uma via que ficou conhecida como Rua do Acampamento.
A Comissão foi dissolvida em 1801, mas o pequeno aglomerado que se formou ao redor do acampamento ficou. Cresceu devagar por décadas, servido por índios Minuanos e Tapes que habitavam as margens do arroio Itaimbé, conforme registra o portal oficial de turismo da cidade. O destino de Santa Maria só mudou de verdade quando chegaram os trilhos, conforme registra o portal de notícias da Prefeitura de Santa Maria.

A ferrovia belga que deixou um bairro inteiro no meio do Rio Grande do Sul
Em 1885, os trilhos chegaram a Santa Maria. A cidade estava no ponto exato onde as linhas ferroviárias do Rio Grande do Sul se cruzavam: uma ia para Porto Alegre, outra para Uruguaiana e a fronteira com a Argentina, uma terceira para o norte. A posição de entroncamento transformou Santa Maria na capital logística do estado, atraindo indústrias, hotéis, armazéns e uma empresa ferroviária estrangeira que marcaria a cidade para sempre.
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Em 1898, a Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer au Brésil, empresa belga, arrendou a malha ferroviária gaúcha e instalou sua diretoria em Santa Maria. Com a sede da companhia vieram engenheiros, técnicos e famílias do Reino da Bélgica. Para abrigá-los, o engenheiro belga Gustave Vauthier projetou entre 1903 e 1907 a Vila Belga: 84 casas geminadas de estilo Belle Époque, inspiradas nas vilas operárias belgas e francesas, onde nenhuma unidade é igual à outra. O conjunto é patrimônio histórico do município desde 1988 e do estado do Rio Grande do Sul desde 2000. Em 2016, o Ministério das Relações Exteriores da Bélgica concedeu à Vila Belga o Prêmio do Patrimônio Belga no Exterior, conforme confirmado pela Prefeitura de Santa Maria.
A estação ferroviária, a Gare, foi projetada pelo engenheiro Teixeira Lopes com influência belga e inglesa e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em abril de 2014. A Avenida Rio Branco, que liga a Gare ao centro da cidade, preserva o maior conjunto contínuo de arquitetura Art Déco da América Latina, com prédios construídos entre as décadas de 1920 e 1940 que compõem um corredor histórico a céu aberto.
A universidade que mudou o Brasil e saiu de uma cidade sem litoral
Em 1960, Santa Maria fez algo inédito na história da educação superior brasileira. O professor José Mariano da Rocha Filho, com décadas de articulação política, conseguiu sancionada a Lei Federal 3.834-C, de 14 de dezembro de 1960, criando a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Instalada oficialmente em 18 de março de 1961, foi a primeira universidade federal a funcionar fora de uma capital brasileira, tornando o Rio Grande do Sul o primeiro estado do país com duas federais, conforme registra a própria Universidade Federal de Santa Maria.
A escolha de Santa Maria não foi por acaso. A cidade já reunia faculdades privadas consolidadas, posição estratégica no entroncamento ferroviário e uma massa crítica de professores e profissionais formados. O modelo de universidade interiorizada criado em Santa Maria foi replicado décadas depois em todo o Brasil. Hoje a UFSM aparece na 18ª posição entre as melhores universidades brasileiras no QS Ranking 2025, com mais de 30 mil alunos distribuídos em dezenas de cursos de graduação e pós-graduação.
Quem quer conhecer Santa Maria, no Rio Grande do Sul, vai curtir este vídeo do canal Canal ADream Viagens, que conta com mais de 3 mil visualizações e apresenta um panorama geral desta cidade universitária e militar, conhecida como o “coração do Rio Grande do Sul”, destacando seu centro comercial, o complexo religioso da Basílica da Medianeira, a histórica Vila Belga, a estrutura da UFSM e diversas opções de lazer e gastronomia.
Lazer, qualidade de vida e o que faz a cidade funcionar
Santa Maria é uma cidade de 282 mil habitantes que vive em ritmo de polo universitário e militar. Mais de 30 mil estudantes circulam pela cidade, o que garante uma cena gastronômica e cultural ativa muito acima do esperado para uma cidade de interior do Sul. A Praça Saldanha Marinho, coração histórico da cidade, recebe feiras, shows e manifestações culturais ao longo do ano. O Theatro Treze de Maio mantém programação de música, teatro e dança desde 1890.
A 70 km, o Jardim Paleobotânico de Mata é a única reserva delimitada do Brasil com fósseis do Triássico Superior, com aproximadamente 230 milhões de anos. A gastronomia do entorno mistura a herança italiana dos colonos da Quarta Colônia com a tradição tropeira do pampa: o galeto al primo canto, frango assado inteiro no espeto trazido pelos imigrantes do Vêneto, é o prato símbolo da região e pode ser encontrado em restaurantes de Silveira Martins e do Vale Vêneto, a 45 km da cidade.
Como é o clima em Santa Maria?
Subtropical com as quatro estações bem marcadas. Verões quentes e abafados, invernos com frio intenso e geadas frequentes. A chuva se distribui bem ao longo do ano.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar ao Coração do Rio Grande
De Porto Alegre, são 290 km pela BR-287, em cerca de 3h30 de carro. O Aeroporto Regional de Santa Maria opera voos para Porto Alegre e São Paulo. Linhas de ônibus com frequência diária conectam Santa Maria às principais cidades gaúchas e a destinos como Curitiba, São Paulo e Foz do Iguaçu.
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Santa Maria é o interior gaúcho que escreveu capítulos da história do Brasil
Poucas cidades de 280 mil habitantes acumulam uma avenida com o maior conjunto Art Déco contínuo da América Latina, um bairro belga premiado em Bruxelas, a primeira universidade federal do interior do país e fósseis de 230 milhões de anos a uma hora de distância.
Você precisa caminhar pela Avenida Rio Branco ao final da tarde e entender como uma cidade que nasceu de um acampamento de demarcação de fronteiras virou, dois séculos depois, o coração acadêmico e cultural do Rio Grande do Sul.











