Poucos meses após concluir sua reestruturação financeira nos Estados Unidos, a Azul (AZUL3) passa a negociar seus papéis no mercado principal da Bolsa de Valores de Nova York (NYSE). Para a companhia, a mudança marca o início de uma nova fase, com foco na redução do endividamento, diversificação das receitas e ampliação da presença entre investidores internacionais.
A operação não envolve uma nova oferta de ações. A companhia apenas transferiu seus papéis da NYSE American, segmento voltado a empresas de menor porte, para o pregão principal da Bolsa de Nova York.
“A Azul está de volta ao jogo”, afirmou o CEO da companhia, John Rodgerson, ao comentar a relistagem das ações na NYSE. A cerimônia oficial do toque do sino acontece nesta quinta-feira (9), com a presença da diretoria da empresa e de tripulantes.
Na segunda-feira (6), a Azul anunciou que fará o cancelamento voluntário da listagem na NYSE American, sucessora da antiga American Stock Exchange (Amex). Informou ainda que pretende protocolar junto à SEC (Securities and Exchange Commission), reguladora do mercado de capitais americano, o pedido de cancelamento da listagem de suas ADSs na NYSE American no prazo mínimo de dez dias corridos após a entrega da notificação, ou seja, a partir de 16 de julho.
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Segundo a empresa, a mudança deverá atender melhor aos interesses dos acionistas e da comunidade de investidores:
“A listagem na NYSE deverá aumentar nossa visibilidade na comunidade global de investimentos, expandir nosso acesso a investidores institucionais e fortalecer ainda mais nossa posição nos mercados de capitais internacionais”, disse John Rodgerson.
Com a migração para o mercado principal, a Azul passa a integrar o grupo de companhias aéreas latino-americanas listadas na NYSE, entre elas a Copa Airlines e a Latam.
A Latam também voltou a negociar ações na bolsa de Nova York em julho de 2024, após concluir seu processo de Chapter 11. A diferença, porém, é que a companhia realizou uma oferta de ações para captar recursos, enquanto a Azul apenas promoveu a migração de seus papéis para o principal segmento da bolsa americana.
Ciclo de incertezas
Rodgerson afirma que a Azul inicia esse novo momento em um ambiente ainda marcado por riscos para o setor aéreo. Segundo ele, 2026 apresenta um novo período de forte incerteza em razão da guerra envolvendo o Irã.
Na avaliação do executivo, porém, a empresa chega a esse cenário em posição mais sólida após concluir sua reestruturação financeira. “Somos uma empresa com receita maior e menos alavancada. Estamos mais preparados.”
O CEO também reconhece que os últimos anos foram marcados por uma sequência de choques extraordinários, entre eles a pandemia, a desvalorização cambial, as enchentes em Porto Alegre e o aumento dos juros. Segundo ele, durante os momentos de maior pressão financeira, a prioridade passou a ser a sobrevivência da empresa.
Com a saída do Chapter 11, porém, a Azul voltou a direcionar investimentos para a experiência dos passageiros e já registrou uma melhora de 25 pontos em seu índice de satisfação (NPS).
Essa recuperação ocorre em um momento em que o setor continua sujeito às oscilações do cenário macroeconômico. A recente alta do petróleo, impulsionada pelas tensões geopolíticas, trouxe novos desafios para as companhias aéreas. Rodgerson observa, contudo, que a Azul já vinha reduzindo sua exposição aos riscos antes mesmo do choque no combustível, ao adotar uma estratégia de crescimento mais moderada do que a de seus concorrentes.
Sem planos de captar recursos
Apesar de a listagem facilitar o acesso ao mercado de capitais dos Estados Unidos, Rodgerson afirma que esse não é o momento de buscar novos recursos.
Segundo o executivo, a companhia já levantou o capital necessário durante a conclusão da recuperação judicial. Ainda assim, ele ressalta que estar listada na NYSE amplia o acesso ao mercado e torna futuras captações mais simples, caso sejam necessárias.
Como ficam as negociações da Azul na B3
Agora, na NYSE, a Azul passa a negociar American Depositary Shares (ADSs) — certificados negociados nos Estados Unidos que representam ações da companhia listadas na B3 — no mercado principal da NYSE.
A empresa continuará com suas ações negociadas na Bolsa brasileira sob o código AZUL3, mesmo com a expectativa de que a maior parte do volume de negociações passe a ocorrer nos Estados Unidos.
“Sendo uma empresa brasileira, é importante continuar listada no Brasil”, diz Rodgerson.
Os atuais detentores de ações e de ADSs não precisam adotar qualquer providência em razão da transferência da listagem.
Nova fase da Azul mira ampliação das receitas
A nova etapa da companhia também será marcada pela ampliação das receitas além da venda de passagens aéreas.
“Estamos muito focados em não ser só uma empresa aérea”, afirma Rodgerson. Segundo o executivo, a estratégia combina expansão de novas fontes de receita, manutenção de um baixo nível de endividamento e maior foco nos clientes de maior valor.
“O que é preciso fazer é blindar a empresa, de duas formas: não ser muito endividada e diversificar as fontes de receitas, para ter habilidade de ganhar dinheiro de várias formas”, afirmou, ressaltando o foco no cliente “de alto valor”.
Hoje, aproximadamente 25% da receita da Azul já vem de negócios como cartão de crédito, pacotes de viagens, programa de fidelidade e transporte de cargas. Antes da pandemia de Covid-19, essas atividades representavam entre 11% e 12% das receitas da empresa.
“Fizemos muito investimento para aumentar as outras receitas”, diz Rodgerson.
Meta é reduzir ainda mais a dívida
Outro compromisso da companhia é continuar reduzindo sua alavancagem financeira. O CEO explicou que o objetivo é manter baixo o indicador de dívida em relação ao Ebitda, medida que compara o endividamento com a geração operacional de caixa antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
Antes do Chapter 11, esse indicador era de cinco vezes. Após a reestruturação, caiu para 2,4 vezes. Agora, a meta é atingir 1,5 vez em até três anos. “O objetivo é ter esse número abaixo de 2 vezes”, conclui o CEO.
Saída do Chapter 11 e melhora nos resultados
A Azul informou aos investidores, em fevereiro deste ano, a conclusão do processo de recuperação judicial nos Estados Unidos, iniciado em maio de 2025 para reorganizar suas dívidas.
Junto com o encerramento da reestruturação, a companhia anunciou um acordo de codeshare (compartilhamento de voos) com a American Airlines, que se comprometeu a investir US$ 100 milhões — cerca de R$ 517 milhões — na empresa brasileira.
Em maio, a companhia divulgou prejuízo líquido ajustado de R$ 44,4 milhões no primeiro trimestre de 2026, resultado que representa uma melhora de quase 98% em relação ao prejuízo de aproximadamente R$ 1,82 bilhão registrado no mesmo período do ano anterior.
A combinação entre a volta ao mercado principal da NYSE, a redução da alavancagem, a expansão das receitas fora da operação aérea e a melhora dos indicadores operacionais marca o início da nova estratégia da Azul, que busca reduzir sua exposição às oscilações do setor e ampliar sua presença no mercado de capitais internacional.











