Após quase 20 anos de negociações, a União Europeia e a Índia concluíram um acordo de livre comércio que reúne economias responsáveis por mais de US$ 23 trilhões em produção e cerca de 2 bilhões de consumidores.
O tratado foi anunciado pelo primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, nesta terça-feira (27) e insere o acordo no centro da reorganização do comércio global, com possíveis efeitos sobre tarifas, exportações e decisões de investimento.
O pacto comercial vem sendo descrito globalmente como “a mãe de todos os acordos”. A expectativa é de que ele gere oportunidades para cerca de 1,4 bilhão de indianos e outros milhões de pessoas na Europa.
Modi e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, devem fazer um anúncio conjunto durante uma cúpula Índia-UE em Nova Délhi, com a divulgação dos principais detalhes ainda nesta terça-feira.
- Se você quer investir com autonomia, segurança e profundidade, a Trilha da Virada Financeira 2026 é o caminho. Clique aqui e descubra!
“Concluímos o maior de todos os acordos”. “[…] Criamos uma zona de livre comércio de dois bilhões de pessoas, com ambos os lados se beneficiando”, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em publicação na rede X.
A assinatura formal do acordo deve ocorrer após uma análise jurídica estimada entre cinco e seis meses, segundo uma autoridade do governo indiano.
Zona de livre comércio entre UE e Índia
A retomada e a conclusão do diálogo entre a União Europeia e a Índia refletem a reconfiguração dos alinhamentos globais, em um contexto de incerteza em torno das políticas comerciais adotadas pelo governo de Donald Trump.
O comércio bilateral entre a Índia e a UE somou US$ 136,5 bilhões no ano fiscal indiano encerrado em março de 2025, com a UE respondendo por mais de 17% das exportações totais da Índia no período, enquanto a Índia é o nono maior parceiro comercial do bloco europeu.
De acordo com a Comissão Europeia, o tratado prevê a eliminação ou redução de tarifas sobre 96,6% das exportações de bens da UE para a Índia até 2032. A expectativa é de que as exportações europeias de bens para o mercado indiano possam dobrar nesse período.
Os produtos abrangidos incluem automóveis, bens industriais e itens do setor alimentício, como vinhos, chocolates e massas.
Em contrapartida, a União Europeia eliminará ou reduzirá tarifas sobre 99,5% dos produtos importados da Índia ao longo de até sete anos, segundo o Ministério do Comércio e Indústria indiano.
Impactos do acordo para a economia indiana
Segundo Narendra Modi, o acordo deve fortalecer os setores de manufatura e serviços da Índia e aumentar a confiança dos investidores na economia do país, considerada a terceira maior da Ásia.
O pacto também tende a favorecer exportações indianas de bens intensivos em mão de obra, como vestuário, gemas, joias e calçados, segmentos que foram afetados pelas tarifas elevadas impostas pelos Estados Unidos.
São previstas ainda concessões em 144 setores de serviços e compromissos vinculantes relacionados à mobilidade estudantil e à concessão de vistos pós-estudo. O setor de laticínios da Índia, considerado politicamente sensível, ficou fora do tratado.
Estratégia de diversificação comercial entre UE e Índia
A União Europeia busca reduzir sua dependência econômica dos Estados Unidos e da China, após anos de divergências comerciais com a Índia.
Do lado indiano, o governo tenta reduzir a imagem de país protecionista e compensar tarifas de até 50% impostas pelos Estados Unidos, além de equilibrar suas relações com a Rússia.
“A diversificação é absolutamente essencial”, disse Amitendu Palit, líder de pesquisa sobre comércio e economia do Institute of South Asian Studies. “Esse é o nome do jogo.”
- Investir sem estratégia custa caro! Garanta aqui seu plano personalizado grátis e leve seus investimentos ao próximo nível.
Concessões e setores estratégicos
O acordo com a União Europeia é considerado o mais ambicioso já assinado pela Índia. Nova Délhi concordou em permitir a entrada de até 250 mil veículos fabricados na Europa com taxas preferenciais, uma cota mais de seis vezes maior do que a prevista em acordos comerciais recentes do país.
A Índia também se comprometeu a reduzir gradualmente as tarifas sobre vinhos europeus premium de 150% para 20%, segundo documento da Comissão Europeia.
Índia avança com novos parceiros globais
Apesar da conclusão das negociações, o acordo ainda precisa passar por uma verificação legal, estimada em cerca de seis meses, e pela ratificação do Parlamento Europeu. O processo é semelhante ao que ocorre com o acordo entre UE e Mercosul, que ainda aguarda aprovação legislativa.
O anúncio ocorre semanas após a Índia assinar acordos comerciais com a Nova Zelândia e Omã. Desde maio do ano passado, o pacto com a UE é o quarto acordo comercial firmado pelo governo Modi, após entendimentos com Reino Unido, Omã e Nova Zelândia.
O país também busca parcerias com o Mercosul, Chile, Peru e o Conselho de Cooperação do Golfo, com foco em recursos estratégicos e ampliação de sua presença global.
Comércio bilateral e cooperação em segurança
Além do comércio, UE e Índia anunciaram uma nova parceria na área de segurança. Os dois lados prometeram ampliar a cooperação em defesa, segurança marítima e avaliar a realização de exercícios navais conjuntos.
O movimento pode ampliar o acesso europeu a um mercado que tradicionalmente compra armamentos da Rússia.
O anúncio também gerou reação positiva imediata de entidades industriais da Alemanha, maior economia da UE, e de integrantes da coalizão governista do chanceler Friedrich Merz, em Berlim.
- Os bastidores do mercado direto no seu e-mail! Assine grátis e receba análises que fazem a diferença no seu bolso.
Acordo com a Índia supera tratado UE-Mercosul
O tratado entre a União Europeia e a Índia cria uma área de comércio maior que a formada pelo acordo firmado recentemente entre a UE e o Mercosul, que também levou décadas para ser concluído.
Enquanto o acordo UE-Mercosul reúne economias que somam US$ 22,4 trilhões em Produto Interno Bruto (PIB) e 719 milhões de habitantes, o pacto entre UE e Índia alcança US$ 23,4 trilhões em produção econômica e cerca de 1,9 bilhão de pessoas.
Em termos de PIB, a nova zona econômica é aproximadamente 4% maior, e em população, mais de 2,6 vezes superior.


