As tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil podem custar mais US$ 3 bilhões (cerca de R$ 16,6 bilhões) às exportações brasileiras, impactando principalmente a indústria, segundo estudo da BMJ Consultores Associados à CNI (Confederação Nacional da Indústria), divulgado pela Folha de S.Paulo neste domingo (23).
A análise mostra que, mesmo após exceções anunciadas pelo governo americano nos últimos dias, 74% do valor exportado aos EUA permanece sob tarifação adicional, o que amplia o risco de perda de competitividade e de aumento do déficit comercial bilateral.
“O que surpreende é o impacto que [o tarifaço] pode ter para as exportações industriais. Há uma visão de que se resolveu muita coisa, mas não. Na verdade, você pode perder US$ 3 bilhões em exportação em um ano, o que vai aumentar o déficit [comercial] com os Estados Unidos”, afirmou Welber Barral, sócio fundador da BMJ.
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Confira os setores mais afetados pelas tarifas dos EUA:

Indústria concentra maior parte das perdas estimadas
De acordo com a análise da BMJ, o setor de produtos industrializados diversos, que inclui ferroligas de manganês, ferro fundido e pneus, acumula a maior perda mensal entre as áreas afetadas pelo tarifaço, correspondendo a 27,3%, cerca de US$ 69,77 milhões (R$ 377 milhões).
Outros setores mais afetados em destaque na pesquisa são: madeira e derivados, com US$ 28,68 milhões/mês (R$ 155 milhões/mês) e aço e semimanufaturados, com US$ 27,63 milhões/mês (R$ 149,3 milhões/mês).
No caso da madeira, a pressão vem de duas frentes: a tarifa de 40% já aplicada e a possibilidade de uma tarifa adicional de 15% devido às investigações sobre desmatamento.
O estudo também indica perda de espaço competitivo para máquinas e equipamentos. Países como Argentina (com tarifa entre 0% e 10%), Alemanha e Canadá ampliam presença no mercado americano em itens como “bulldozers” (tanques de guerra) e carregadoras.
Prejuízo consolidado decorrente das tarifas dos EUA
O estudo revela que, entre agosto e outubro, quando as tarifas mais severas estiveram vigentes, o prejuízo consolidado alcançou US$ 767,85 milhões.
A perda mensal média atual é de US$ 255,95 milhões, acima dos US$ 174,88 milhões mensais atribuídos apenas à tarifa adicional de 40% sobre aço, alumínio, cobre e madeira.
A estimativa anual de perda considera as tarifas em vigor e o risco de novas alíquotas decorrentes de investigações americanas sob a Seção 301, relacionadas a desmatamento, propriedade intelectual e sistemas de pagamento, incluindo o Pix.
Exceções de novembro aliviam apenas parte da pressão
Em 20 de novembro, o governo do presidente Donald Trump ampliou a lista de exceções à tarifa de 40%, beneficiando cerca de 13 grupos de produtos. Entre os itens isentos estão: café não torrado, carnes bovinas, frutas, minério de ferro e petróleo bruto.
Esses produtos representavam 26% do valor anteriormente submetido à tarifa extra.
No entanto, 74% das exportações brasileiras aos EUA seguem tarifadas, com destaque para itens de alto valor agregado e bens de capital.
Setores que continuam sob tarifas adicionais:
O estudo detalha os segmentos ainda sob impacto direto:
- Máquinas e equipamentos de terraplenagem
- Produtos eletrônicos e transformadores
- Produtos semimanufaturados de aço
- Aeronaves e peças aéreas (exceto bens civis)
- Têxteis e calçados
- Café solúvel
Em 2024, os principais setores hoje tarifados (aço semifaturado, café e ferro fundido) exportaram mais de US$ 5,6 bilhões (R$ 30,26 bilhões) para os EUA, indicando que representam parcela relevante da perda potencial estimada.
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Negociação com os EUA pode recuperar parte do prejuízo
Segundo a BMJ, os produtos manufaturados brasileiros enfrentam desvantagem competitiva de 25 a 30 pontos percentuais em relação a outros parceiros comerciais dos EUA, como Argentina, União Europeia e Reino Unido.
A consultoria afirma que o cenário indica a necessidade de negociações nos próximos seis meses entre o governo brasileiro e a administração Trump para tentar reverter tarifas.
Mapeando possíveis cenários, a BMJ afirma que a ausência de avanço nas negociações pode custar de US$ 3 bilhões (R$ 16,21 bilhões) e US$ 5 bilhões (R$ 27 bilhões) por ano.
No entanto, o sucesso de uma negociação efetiva com o governo americano tem potencial de recuperar entre US$ 1,4 bilhão (R$ 7,6 bilhões) e US$ 1,6 bilhão (R$ 8,65 bilhões) anuais.


