O Brasil voltou a registrar em 2025 seu resultado mais baixo no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), produzido pela ONG Transparência Internacional. Conforme aponta publicação do jornal O Globo, a pontuação do país é de 35 atualmente, da máxima de 100 pontos, patamar que já havia aparecido em anos anteriores e que representa a segunda menor marca da série.
No ranking, o Brasil ocupa o 107º lugar entre 182 economias, ficando abaixo da média mundial e da média das Américas, ambas de 42 pontos. A diferença de um ponto em relação a 2024 foi considerada pela entidade como estatisticamente sem impacto, sinalizando ausência de mudança relevante.
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O IPC compila avaliações de especialistas e agentes do mercado sobre o grau de integridade do setor público. Ou seja, mede reputação e confiança institucional, não o número de casos investigados.
Comparação internacional na percepção de corrupção
A Transparência Internacional observa que o Brasil segue distante dos países mais bem posicionados. No topo da lista aparecem Dinamarca (89), Finlândia (88) e Cingapura (84).
O estudo também mostra deterioração da percepção em democracias tradicionais. É o caso de Estados Unidos (64), Canadá (75) e Nova Zelândia (81). Entre europeus, figuram Reino Unido (70), França (66) e Suécia (80).
Na faixa brasileira estão nações como Sri Lanka (35) e Argentina (36). O país permanece abaixo das médias global e regional desde 2015.
Crime organizado, INSS, emendas e caso Master estão no foco
Junto com o IPC, a ONG publicou a Retrospectiva 2025, documento que avalia fatos recentes relacionados à integridade pública, no qual a Transparência Internacional aponta avanço da influência do crime organizado em estruturas do Estado.
O texto menciona episódios classificados como de macrocorrupção, entre eles situações envolvendo o INSS e o Banco Master. Para a organização, esses casos evidenciam vulnerabilidades em áreas como o sistema financeiro e a advocacia, vistas como relevantes para a circulação de recursos de origem ilícita.
Outro ponto destacado é o crescimento das emendas parlamentares, que ultrapassaram R$ 60 bilhões no Orçamento de 2026. A leitura da entidade é que há ampliação do poder do Congresso sobre fatia expressiva das despesas públicas, movimento descrito como captura do orçamento e que também se reproduz em governos locais.
O relatório ainda registra questionamentos sobre contratos milionários do Banco Master com bancas de advogados associadas a integrantes do Supremo Tribunal Federal e sugere que o tema seja examinado por instâncias independentes.
Propostas de melhoria da Transparência Internacional
Após a divulgação dos números, a ONG apresentou medidas que, em sua visão, poderiam reforçar a integridade.
No âmbito do Executivo, a entidade defende maior abertura de dados sobre como o dinheiro é gasto, clareza na liberação de emendas e uso mais intenso de ferramentas de inteligência financeira, que cruzam informações para identificar irregularidades.
A Transparência Internacional também pede indicações técnicas para cargos em agências reguladoras e cumprimento de acordos internacionais anticorrupção.
Para o Judiciário, a proposta inclui a criação de regras formais de conduta para ministros do Supremo, abordando impedimentos, potenciais conflitos e publicidade de compromissos.
O texto também sugere mudanças na condução do inquérito que envolve o Banco Master, além de medidas contra supersalários e mais rapidez em investigações de grande porte, como as relacionadas ao próprio banco e ao INSS.
Em relação ao Legislativo, a ONG recomenda reforçar a fiscalização das emendas, estabelecer normas para a atuação de lobistas e atualizar o Estatuto da Advocacia para alinhar o setor a práticas atuais de compliance.
Há ainda a sugestão de uma comissão parlamentar mista de inquérito sobre o Banco Master e a retomada de projetos voltados à prevenção da lavagem de dinheiro e da corrupção no setor privado.
ONG reconhece avanços no combate à corrupção
A organização reconhece alguns avanços do país em medidas de combate à corrupção. Entre eles, ações da Receita Federal e do Ministério Público baseadas em análise de dados, como a operação Carbono Oculto, direcionada ao combate à sonegação e à ocultação de recursos.
Também são citados como elementos favoráveis a ampliação de controles sobre emendas e a decisão do Senado de barrar a chamada PEC da Blindagem.
Governo questiona critérios e avaliação do índice
A Controladoria-Geral da União contestou alguns pontos do relatório sobre a percepção de corrupção. Conforme relatado pelo O Globo, o órgão critica que o levantamento capta a opinião de públicos específicos e não mede diretamente a quantidade real de práticas ilícitas.
Na avaliação da CGU, as mudanças de posição podem ocorrer mesmo que não haja alteração concreta na atuação estatal.
O governo afirma ainda que o índice não traduz necessariamente o sentimento da sociedade como um todo e que sua utilização isolada pode gerar conclusões distorcidas, deixando de lado políticas de transparência implementadas nos últimos anos.
Sobre o INSS, a CGU sustenta que foi a atual administração a responsável por revelar o esquema, abrir procedimentos, efetuar prisões e iniciar a devolução de valores aos beneficiários, montante que se aproxima de R$ 3 bilhões. Segundo o órgão, os problemas identificados estão em processo de correção.
A controladoria também criticou o fato de o indicador ter sido apresentado junto com a retrospectiva anual. Para a instituição, essa proximidade pode levar parte do público a vincular a pontuação a acontecimentos que não fizeram parte do período analisado na pesquisa.
O comunicado menciona ainda ações conjuntas entre Executivo, Legislativo e Judiciário para aumentar a transparência e o rastreamento das emendas. Auditorias recentes, segundo o órgão, alcançaram 72 entes federativos e 100 organizações da sociedade civil, com evolução na integração de bases de dados e no monitoramento do uso de recursos.
A nota conclui que mais apurações e mais visibilidade sobre gastos não significam aumento da corrupção, mas sim fortalecimento da capacidade do Estado de reagir.
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Extremos do ranking de percepção de corrupção
Entre os melhores desempenhos aparecem, além dos líderes, países como Nova Zelândia, Noruega, Suécia, Suíça, Luxemburgo, Holanda e Alemanha, todos com pontuações acima de 77.
Na outra ponta estão Coreia do Norte e Síria (15), Nicarágua e Sudão (14), Eritreia, Líbia e Iêmen (13), além de Venezuela (10), Somália (9) e Sudão do Sul (9).