Além das variações típicas do ciclo do boi e de outras variáveis de mercado, as novas tarifas anunciadas pelos Estados Unidos também devem puxar os preços da commodity para cima.
Até a última quinta-feira (19), o preço do boi encontrava resistência na faixa dos 350 pontos, enquanto na sessão seguinte registrou forte alta após a decisão da Suprema Corte americana de derrubar as chamadas “tarifas recíprocas” sancionadas por Donald Trump no ano passado, movimento que favoreceu a exportação do boi.
Guto Gioielli, analista CNPI, especialista em commodities e contratos futuros da Bolsa de Valores (B3), avalia que mesmo em um cenário em que as tarifas para a commodity cheguem a 15%, há ambiente favorável para os preços do boi gordo.
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Competitividade externa tende a aumentar preço do boi gordo
Segundo o especialista, a queda das tarifas americanas tornam o boi brasileiro mais competitivo nos Estados Unidos, fator que deve contribuir para a alta dos preços, além da atual disponibilidade de oferta.
O fato de estarmos em um ano de ciclo pecuário (período em que há redução da oferta de fêmeas) faz subir o preço da arroba do boi, segundo Gioielli, e também atua como fator de sustentação.
“Nessa conjuntura do ciclo pecuário em meio à queda das tarifas americanas e escassez de gado no mundo, sendo nós os melhores, maiores e mais baratos fornecedores, vejo uma tendência de alta”, afirmou.
Gioielli pondera, no entanto, que a taxa de câmbio baixa atua como viés contrário à tendência de alta na cotação do boi. A desvalorização do dólar frente ao real também é apontada como fator determinante para a formação de preços.
Praças registram alta após anúncio das novas tarifas
Das 33 praças monitoradas pela Scot Consultoria, 25 registraram alta para o preço do boi gordo nesta terça-feira. Nas outras oito regiões, não houve alteração.
Em Araçatuba (SP) e Barretos (SP), referências para o mercado, as cotações da arroba do boi gordo e do “boi China” subiram R$ 3, para R$ 350 e R$ 355, respectivamente. Para a vaca e a novilha, os valores não mudaram.
Desde o início de fevereiro, a arroba do boi gordo e a do “boi China” acumulam alta de R$ 20 no Estado de São Paulo, segundo a consultoria. No mesmo período, o preço da vaca subiu R$ 21 e o da novilha, R$ 18.
O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) informa que o mercado vem apresentando liquidez razoável nos negócios. Pecuaristas aguardam preços mais altos, enquanto compradores encontram dificuldade para completar as escalas de abate programadas para a semana, segundo informações divulgadas pelo Globo Rural.
Corrida para antecipar custos extras na China
Para além das tarifas dos Estados Unidos, as salvaguardas anunciadas pela China para 2026 derrubaram a cotação durante as negociações no final do ano passado.
Existe uma cota que permite a exportação de até 1.100.000 toneladas de carne para o mercado chinês sem cobrança de taxas adicionais. Temendo ultrapassar esse teto e ter seus produtos sobretaxados, os frigoríficos brasileiros aceleraram os embarques.
Na Masterclass Virada Finaneceira, realizada nesta segunda-feira (23), Guto Gioielli explicou que entre as 2,741 milhões de toneladas exportadas, a China levou 1,648 milhão de toneladas, o equivalente a 60% do total. Em uma analogia para esse volume, cerca de 400 mil toneladas seriam taxadas nesse novo contexto de salvaguardas.
Esse movimento foi acompanhado por importadores chineses, que também intensificaram as aquisições para garantir o produto antes de eventual aplicação de tarifas.
Gioielli avalia que a medida afeta principalmente os frigoríficos, além do preço do boi. Segundo ele, o aumento dos preços na China tende a reduzir proporcionalmente o volume das vendas.
A manutenção das exportações, nesse cenário, seria possível apenas com redução do preço do boi no mercado doméstico ou com diminuição da margem do frigorífico.
Exportações do boi gordo já superam total de fevereiro de 2025
No mercado externo, os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que o volume médio embarcado por dia segue acima de 10 mil toneladas.
Até a terceira semana de fevereiro, a média diária está em 14.823 toneladas de carne bovina in natura, volume 56% maior que o do mesmo mês do ano passado.
Considerando 20 dias úteis, o Brasil exportou 192.700 toneladas em apenas três semanas. O volume já supera completamente os embarques totais registrados em fevereiro do ano anterior, que giravam em torno de pouco mais de 190 mil toneladas.
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O ritmo de embarques atingiu média de 14.820 toneladas por dia, salto de 55% em relação à média diária do último ano.
O preço em dólar também vem contrabalançando a queda do câmbio. A média parcial do mês está em US$ 5.613 por tonelada, equivalente a R$ 29.301 por tonelada.





