Entre 2018 e 2025, o mercado de capitais direcionou cerca de R$ 182,1 bilhões para projetos de energia elétrica por meio das debêntures incentivadas, segundo a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). O volume coloca o setor elétrico na liderança entre os segmentos de infraestrutura financiados por esse tipo de título e mostra o avanço do capital privado na expansão da matriz energética brasileira.
O movimento ocorre em meio ao crescimento das captações no mercado de capitais. Entre janeiro e agosto de 2026, as ofertas somaram R$ 485,8 bilhões, o maior volume para o período desde o início da série histórica, em 2012.
Ao todo, as debêntures incentivadas movimentaram aproximadamente R$ 497,1 bilhões entre 2018 e 2025, dos quais 86% foram destinados a projetos de infraestrutura. Além da geração e expansão de energia elétrica, os recursos podem financiar iniciativas ligadas à transição energética, bioenergia e redução de emissões.
Para Luiz Pires, gerente de sustentabilidade e inovação da Anbima, o desafio agora é transformar essa demanda por capital em projetos capazes de atrair investidores no longo prazo. “A transição energética exige escala, previsibilidade e capacidade de transformar projetos sustentáveis em oportunidades financiáveis”, disse.
Energia concentra fatia relevante dos recursos
A concentração dos recursos no setor elétrico mostra como o mercado de capitais pode participar da expansão e modernização da matriz energética brasileira. Além das debêntures, outros instrumentos vêm sendo utilizados para direcionar recursos a projetos ligados à sustentabilidade, como títulos de renda fixa sustentáveis e fundos com estratégias ESG.
A ampliação da participação de investidores privados também aumenta a necessidade de informações que permitam avaliar os projetos e seus resultados.
Nesse contexto, a agenda envolve governança, transparência e mensuração de impactos. A adoção de critérios e métricas consistentes pode facilitar a avaliação dos riscos e reduzir o risco de greenwashing, prática em que uma empresa apresenta uma atividade ou produto como ambientalmente sustentável sem comprovação suficiente.
Para o investidor, a qualidade das informações ajuda a identificar quais resultados ambientais ou sociais estão efetivamente associados aos projetos financiados. A lógica também afeta as próprias empresas, que precisam transformar metas ambientais em indicadores que possam ser acompanhados e reportados.
Mercado de carbono cria nova alternativa
Outra frente apontada pela Anbima é o desenvolvimento do mercado de carbono. Criado pela Lei nº 15.042/2024, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões prevê a negociação da Cota Brasileira de Emissões (CBE) e do Certificado de Redução ou Remoção Verificada de Emissões (CRVE).
A criação desse mercado estabelece um mecanismo para que emissões e reduções de gases de efeito estufa possam ser incorporadas a uma estrutura de negociação.
Para que esse mercado avance, a regulamentação deverá estabelecer métricas, regras e critérios de segurança jurídica. A padronização é importante porque reduz as diferenças na forma como os projetos são avaliados e os créditos são reconhecidos.
A precificação do carbono também pode aproximar a agenda climática das decisões financeiras. Estudos citados pela Anbima estimam que a precificação do carbono poderia contribuir para um crescimento de 2,24% do PIB brasileiro até 2030.
“O mercado de capitais contribui para esse processo ao aproximar empresas, investidores e formuladores de políticas públicas, com transparência, integridade e padrões capazes de dar segurança às decisões de longo prazo”, complementa Pires.










