A pesca cooperativa entre pescadores artesanais e botos em Laguna, no litoral de Santa Catarina, é um fenômeno raro, documentado pela ciência e reconhecido como patrimônio cultural. A prática sustenta renda, identidade local e turismo, mas depende da conservação dos animais, da tainha e dos saberes tradicionais.
Como funciona a pesca cooperativa entre botos e pescadores?
Na barra de Laguna, os botos conduzem cardumes de tainha em direção aos pescadores, que aguardam com tarrafas. Segundo o Iphan, os animais indicam, por movimentos específicos, o momento adequado para o arremesso da rede.
A cooperação não é improviso. Pescadores reconhecem indivíduos, interpretam sinais corporais e aprendem com gerações anteriores. A sincronia entre humanos e botos aumenta a eficiência da pesca e mantém uma relação cultural transmitida no cotidiano da comunidade.

Por que esse fenômeno é considerado raro pela ciência?
Estudos publicados na PNAS mostram que a sincronia de forrageamento gera benefícios de curto e longo prazo para pescadores e botos. A pesquisa registrou interações com drones, sonar, hidrofones e GPS, documentando coordenação entre espécies.
Esse tipo de parceria é raro porque exige aprendizagem social, previsibilidade ecológica e confiança entre espécies. Pesquisadores da Oregon State University destacam que a relação ocorre há mais de 140 anos e não é um traço genético automático dos animais.
Que reconhecimento o Iphan deu à pesca com botos?
Em 11 de março de 2026, o Iphan aprovou o registro da pesca com botos no Sul do Brasil como patrimônio cultural imaterial. O reconhecimento inclui práticas tradicionais em estuários, com destaque para Laguna e a foz do Rio Tramandaí.
Esse registro valoriza conhecimentos ecológicos, técnicas pesqueiras, memória comunitária e a relação entre humanos e botos. Também amplia o debate patrimonial, pois reconhece uma prática cultural cuja continuidade depende de animais silvestres, território, ambiente preservado e pescadores artesanais.
Quais fatores sustentam essa tradição em Laguna?
A continuidade da pesca com botos depende de condições ecológicas, transmissão cultural e respeito às regras locais. Não basta haver tainha ou boto no estuário: a prática exige pescadores experientes, animais habituados à cooperação, água funcional, margem acessível e reconhecimento público do valor social dessa tradição.
Entre os elementos centrais estão:
- Presença de botos residentes e identificáveis.
- Cardumes de tainha em período adequado.
- Pescadores capazes de interpretar sinais dos animais.
- Uso tradicional da tarrafa.
- Preservação da barra, estuário e áreas de pesca.
- Valorização da pesca artesanal como fonte de renda.
- Turismo responsável, sem perturbar animais e trabalhadores.
- Apoio de pesquisa, educação ambiental e políticas públicas.
Esses fatores mostram que a pesca cooperativa é um sistema socioecológico. Quando um elo falha, toda a prática enfraquece. Por isso, patrimônio cultural, conservação marinha e economia tradicional precisam ser tratados de forma integrada, não como temas separados.

Como a prática movimenta economia, turismo e identidade local?
A pesca com botos gera renda direta pela captura da tainha e fortalece atividades associadas, como visitas guiadas, gastronomia, hospedagem e educação ambiental. O interesse de pesquisadores e turistas amplia a visibilidade de Laguna, mas exige gestão cuidadosa para evitar exploração inadequada.
O valor cultural também está na identidade dos pescadores. A prática envolve nomes dados aos botos, histórias familiares, técnicas de leitura do mar e orgulho comunitário. A economia local se beneficia quando essa memória é respeitada e não transformada em espetáculo desordenado.
Quais ameaças podem comprometer a pesca com botos?
A cooperação pode ser afetada por poluição, redução dos cardumes, pesca industrial, degradação do estuário, tráfego de embarcações e desvalorização do pescador artesanal. A Oceana Brasil alerta que a proteção depende de monitoramento dos botos, gestão e fortalecimento comunitário. (Oceana Brasil)
A preservação exige políticas públicas, fiscalização ambiental, pesquisa contínua e turismo responsável. Como o próprio reconhecimento do Iphan indica, proteger a pesca com botos significa proteger uma relação viva entre cultura, trabalho, biodiversidade e território costeiro brasileiro. (Iphan)











