O equilíbrio dinâmico entre a geografia litorânea e as forças climáticas moldou de forma dramática a ocupação humana no extremo norte do Espírito Santo. Na década de 1950, a antiga vila de Itaúnas, localizada no município de Conceição da Barra, foi completamente soterrada por um avanço implacável de dunas de areia móveis.
Como ocorreu o processo de soterramento da antiga vila de pescadores?
O avanço da areia sobre o núcleo urbano original não aconteceu de forma repentina, mas sim através de um deslocamento contínuo e progressivo ao longo de quase duas décadas. Ventos nordestes constantes passaram a empurrar as dunas litorâneas em direção ao continente, invadindo gradativamente as quintais, ruas e edificações comunitárias do vilarejo.
A força do fenômeno geológico cobriu casas de alvenaria, comércios e a antiga igreja matriz, transformando o próspero polo pesqueiro em um deserto de areia fina. Incapazes de conter a massa mineral com ferramentas rudimentares, os cidadãos assistiram à perda definitiva de seu patrimônio material e histórico sob os sedimentos.

Quais fatores ambientais aceleraram o avanço implacável das dunas?
A causa principal do desastre esteve diretamente associada à degradação da vegetação nativa que cobria o cordão de dunas praianas originais da região costeira. O desmatamento da cobertura de restinga e da mata de tabuleiro, promovido para a extração de lenha e abertura de pastagens, retirou a proteção natural do solo.
Sem as raízes das plantas para fixar os grãos de areia, o vento encontrou caminho livre para movimentar milhares de toneladas de sedimentos em direção ao interior. O desequilíbrio ecológico transformou formações arenosas estáveis em estruturas migratórias altamente destrutivas para a infraestrutura humana construída nas proximidades.
De que maneira a comunidade se reorganizou do outro lado do rio?
Diante da perda iminente de suas habitações originais, as famílias organizaram uma desocupação planejada para salvar pertences, madeiras de demolição e imagens sacras. A população cruzou o leito do rio Itaúnas e escolheu uma área de terra mais alta e protegida para reiniciar a vida comunitária.
A nova vila foi desenhada com traçado regular, mantendo os fortes laços de solidariedade entre os pescadores, artesãos e extrativistas locais. O isolamento geográfico prolongado moldou uma identidade cultural única na nova localidade, famosa internacionalmente pela preservação de tradições populares como o ticumbi e o forró pé de serra.
Qual é o papel dos órgãos oficiais no mapeamento atual da área afetada?
A região soterrada e seu entorno natural estão inseridos em uma unidade de conservação ambiental rígida de proteção integral da biosfera litorânea. O monitoramento topográfico e a demarcação das fronteiras geográficas da localidade são coordenados pelo Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (IDAF).
As análises técnicas e as fotos aéreas históricas auxiliam na compreensão da dinâmica de regeneração da flora e na estabilização atual dos montes de areia. O trabalho dos engenheiros cartógrafos estaduais garante a integridade territorial do parque, impedindo invasões imobiliárias em áreas frágeis pertencentes ao Governo do Estado do Espírito Santo.

Quais diretrizes regulamentam a preservação e a visitação turística no sítio histórico?
As normas de uso proíbem terminantemente a circulação de automóveis privados sobre as elevações arenosas para assegurar a fixação da flora reconquistada. O acesso de pesquisadores e turistas ao sítio arqueológico subterrâneo é monitorado para garantir a integridade dos artefatos coloniais protegidos pela legislação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
A conservação das dunas e do patrimônio cultural submerso na areia exige ações integradas que impeçam o ressurgimento do processo de arenização verificado no século passado. De acordo com as normas operacionais emitidas pelos órgãos ambientais capixabas, o plano de sustentabilidade da unidade de conservação fundamenta-se nos seguintes pontos críticos:
- Reflorestamento de restinga: Plantio contínuo de espécies nativas fixadoras de solo nas franjas das dunas para conter novos deslocamentos minerais.
- Trilhas suspensas obrigatórias: Construção de passarelas de madeira para pedestres, evitando o pisoteio direto da vegetação que protege os sedimentos.
- Proibição de veículos: Vetos rígidos ao tráfego de buggies, jipes e quadriciclos nas faixas de areia fina pertencentes ao Parque Estadual.
- Preservação arqueológica: Proibição de escavações amadoras ou retirada de fragmentos de telhas e tijolos coloniais que afloram da antiga vila.
- Educação ambiental integrada: Manutenção de centros de visitantes que explicam a história do soterramento urbano aos viajantes nacionais e estrangeiros.
Como a memória do soterramento impulsiona a sustentabilidade local?
O trágico desaparecimento da antiga estrutura urbana converteu-se em um dos principais atrativos turísticos e de valorização da memória cultural da comunidade capixaba. As ruínas invisíveis ocultas sob as areias imensas despertam o interesse de estudantes, historiadores e ecoturistas do país inteiro.
A economia da atual vila baseia-se na exploração sustentável desse patrimônio paisagístico singular, gerando empregos na hotelaria familiar e no guiamento ecológico. O aprendizado histórico sobre os impactos do desmatamento costeiro transformou os moradores em guardiões ativos da integridade ecológica do rio e da restinga de Itaúnas.











