A prévia da inflação brasileira, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), ficou próxima de romper o teto das projeções nesta quinta-feira (26), em alta de 0,44% em março — as estimativas iam de 0,24% a 0,48%.
O resultado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no entanto, mostrou uma desaceleração em relação a fevereiro, quando subiu 0,84%. No acumulado de 12 meses, o IPCA-15 atingiu os 3,90%, abaixo dos 4,10% registrados em fevereiro.
A principal pressão no mês veio dos grupos de Alimentação e Bebidas, que subiu 0,88% e respondeu por 0,19 ponto percentual (p.p.) do índice, e Despesas Pessoais, com avanço de 0,82% e impacto de 0,09 p.p.
Na alimentação em domicílio, a alta foi de 1,10%, emendando a terceira alta consecutiva. Produtos como açaí (29,95%), feijão-carioca (19,69%), ovo (7,54%) e leite longa vida (4,46%) registraram alta. Por outro lado, café moído (-1,76%) e frutas (-1,31%) tiveram queda de preços.
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Mercado vê pressão pontual no IPCA-15, mas alerta para petróleo
Para Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, o resultado foi impactado por fatores específicos. “Alimentação no domicílio subiu 1,10% no mês, acima do esperado, e passagens aéreas avançaram 5,9%, quando projetávamos queda”, afirmou.
Segundo ele, os núcleos de inflação — que excluem itens mais voláteis e ajudam a identificar a tendência dos preços — desaceleraram para 0,35%, indicando continuidade do processo de desinflação.
Na mesma linha, André Valério, economista do Inter, avaliou que a alta recente está ligada a fatores sazonais. “Os principais indicadores retornam à tendência observada antes de dezembro de 2025, reforçando que o processo de desinflação persiste”, disse.
Passagens aéreas e energia elétrica também pressionam
O grupo Transportes avançou 0,21%, com destaque para passagens aéreas, que subiram 5,94% e tiveram o maior impacto individual no índice, de 0,05 p.p.
Os combustíveis apresentaram leve queda de 0,03%, com recuos no gás veicular, etanol e gasolina, enquanto o diesel subiu 3,77%.
O grupo Habitação acelerou de 0,06% para 0,24%, influenciado pela energia elétrica residencial, que subiu 0,29% após reajustes tarifários. Também houve alta em água e esgoto (0,44%), refletindo revisões de tarifas em algumas capitais.
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Combustíveis e guerra entram no radar
Economistas apontam que o impacto da alta do petróleo ainda não foi totalmente captado pelo índice. Segundo Maykon Douglas, a inflação de combustíveis deve ganhar força nos próximos meses.
Ele afirma que a incerteza ligada ao conflito no Oriente Médio pode pressionar preços, especialmente de energia e alimentos.
Gabriel Pestana, da Genial Investimentos, também avalia que a composição do índice veio pressionada. “A alimentação no domicílio subiu acima do esperado, com surpresas em carne bovina e leite”, disse.
Para Julio Barros, economista do banco Daycoval, o resultado pior do que esperado, somado ao recente conflito no Oriente Médio, “impõe um viés de alta para a nossa projeção de inflação ao final desse ano, que está atualmente em 3,8%”, disse.
Expectativa para juros segue em aberto após IPCA-15
Apesar da desaceleração do índice cheio, o cenário ainda exige atenção do Banco Central do Brasil. Segundo Serrano, a instituição deve repetir um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic na próxima reunião, mas o ritmo ao longo do ano dependerá do cenário internacional, especialmente da evolução do petróleo.
Tanto o Inter quanto o Banco Bmg esperam que o Banco Central continue com o processo de cortes, com a magnitude dependendo da evolução do conflito. A previsão se concentra atualmente em novas reduções na casa dos 0,25 p.p.
A visão é compartilhada pelo Daycoval: “o quadro atual reforça a nossa expectativa para a continuidade do ritmo de cortes da taxa de juros na próxima reunião, em 0,25 pontos percentuais”, afirmou Barros.







