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Contratos futuros de café movimentaram R$ 47 bilhões na B3 em 2025

Por Gabriela Santos
14/abr/2026
Em Commodities, Mercados, Notícias
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Os contratos futuros de café negociados na Bolsa de Valores brasileira (B3) somaram cerca de R$ 47 bilhões em 2025, com mais de 19 milhões de sacas comercializadas. O volume representa uma média diária de 76 mil sacas e reforça o peso do grão no mercado financeiro e no agronegócio, apontam dados da B3.

O avanço consolida o café como um dos principais ativos entre os derivativos agropecuários, contratos cujo valor está atrelado a um produto físico, como commodities.

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Na B3, os contratos futuros envolvem os dois principais tipos de café do país: o arábica, mais exportado, e o conilon, voltado ao consumo interno. Esses instrumentos permitem negociar preços futuros sem a necessidade de comprar o café físico. Para o investidor, isso significa exposição ao setor com maior flexibilidade.

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Fabiana Perobelli, superintendente de Relacionamento com Clientes da B3, descreve o café como um dos pilares históricos da economia brasileira e que, na B3, se consolidou como um ativo financeiro estratégico.

“Ao viabilizar a negociação de contratos futuros com critérios rigorosos de qualidade, entrega e mecanismos de proteção de preços, a Bolsa conecta produtores, indústria e investidores, fortalecendo toda a cadeia e trazendo mais eficiência, transparência e previsibilidade ao mercado”, explica a especialista.

Mercado de café mais que dobrou desde 2021

Segundo dados divulgados pela Forbes, o volume financeiro negociado com café na Bolsa mais que dobrou desde 2021, quando estava em R$ 23,2 bilhões. Após recuo em 2023, as negociações voltaram a ganhar força e atingiram R$ 47,3 bilhões em 2025.

Confira a evolução do volume financeiro no mercado de café:

  • 2021: R$ 23,24 bilhões
  • 2022: R$ 28,77 bilhões
  • 2023: R$ 16,65 bilhões
  • 2024: R$ 30,83 bilhões
  • 2025: R$ 47,27 bilhões
  • 2026 (jan-mar): R$ 7,96 bilhões

Contratos futuros têm regras específicas de qualidade na B3

Em 2025, mais de 448 mil sacas de 60 kg foram certificadas pelo Laboratório de Classificação da B3. O processo é obrigatório para que o café possa ser entregue nos contratos futuros.

A análise segue critérios técnicos oficiais da Classificação Oficial Brasileira (COB), estabelecida pelo Ministério da Agricultura, e avalia qualidade do grão, defeitos, tamanho, cor, umidade e características sensoriais, como aroma e sabor. Apenas os lotes aprovados são certificados para entrega física no mercado de contratos futuros.

Com isso, os contratos podem resultar tanto em liquidação financeira quanto na entrega física do produto, armazenado em locais credenciados e auditados.

Com esse sistema, os cafeicultores podem comercializar sua produção utilizando a estrutura da B3, assim como as indústrias e compradores podem receber o café físico negociado nos contratos da Bolsa.

Contratos futuros do café como ativos de proteção

Os contratos futuros de café negociados na B3 também funcionam como proteção para produtores. Por meio do hedge, é possível fixar antecipadamente o preço de venda da safra.

Na prática, isso reduz o impacto de oscilações causadas por fatores como clima, câmbio e oferta global, reduzindo a exposição às oscilações do mercado e garantindo maior previsibilidade de receita.

Guto Gioielli, analista CNPI, fundador do Portal das Commodities e especialista em contratos futuros da B3, explica que negociar café na Bolsa exige, acima de tudo, “um olho no terminal de notícias e outro na previsão do tempo”, e que, diferente de empresas de tecnologia ou bancos, o contrato futuro de café (o famoso ICF) é escravo da biologia.

“O principal fator de impacto continua sendo o clima. Como o Brasil é o maior produtor global, qualquer sinal de geada ou seca prolongada em Minas Gerais ou no Espírito Santo faz o mercado mundial entrar em estado de alerta. Soma-se a isso a bienalidade, o fenômeno natural em que o pé de café produz muito em um ano e ‘descansa’ no outro, produzindo menos. Temos um cenário de oferta que muda drasticamente a cada safra”, detalha.

O especialista também destaca o câmbio como um fator de atenção: “cotado em dólares nas bolsas internacionais (o arábica na ICE em Nova York e o robusta na ICE Londres), o café na B3 vive uma queda de braço constante com o real Um dólar forte pode incentivar a exportação e mexer com a disponibilidade interna, criando oportunidades e riscos que testam os nervos de produtores e investidores”, conclui.

Café tem mais de um século de tradição na Bolsa de Valores

De acordo com dados da B3, a negociação de café no mercado brasileiro começou em 1917, na antiga Bolsa de Mercadorias de São Paulo. Já o contrato futuro de café arábica, tal como é negociado atualmente, foi lançado em 1978, como um dos instrumentos pioneiros do mercado brasileiro.

Em um retorno à época do “pitch” de negociações, antes da digitalização total em 2009, Gioielli conta que as corretoras mantinham seus representantes no chão da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F).

“O cenário era de filme: centenas de homens com jaquetas coloridas, gesticulando freneticamente: mãos espalmadas para fora significavam venda; para dentro, compra. Dedos no pescoço ou na testa indicavam preços. Era uma forma de negociação sensorial, em que a voz do mercado era literal. A Bolsa de Café de Santos, com seu luxuoso palácio, é o maior símbolo dessa era em que o café era a moeda soberana do país”, explica.

Com a evolução do mercado de capitais, a transição para o modelo 100% eletrônico na B3 não apenas silenciou o salão, mas democratizou o acesso, segundo o especialista. “Se antes apenas as grandes ‘tradings houses’ e exportadoras tinham voz, hoje o produtor de médio porte pode proteger seu preço (fazendo hedge) diretamente do seu smartphone”.

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Entre os benefícios dessa evolução, Gioielli destaca três pontos:

  • Transparência absoluta: o livro de ofertas é público e auditável em tempo real
  • Segurança da contraparte: a B3 garante que o contrato será cumprido, eliminando o risco de calote que assombrava os negócios diretos no passado
  • Liquidez: a velocidade eletrônica permite que milhares de negócios ocorram simultaneamente, garantindo que o mercado sempre tenha saída.

“Quem caminha hoje pelos corredores silenciosos e tecnológicos da Faria Lima pode não imaginar que, até poucas décadas atrás, o preço do seu cafezinho matinal era decidido no grito, em meio ao suor e ao caos coreografado do pregão viva-voz. Hoje, a negociação de café na B3 é um balé eletrônico de milissegundos, mas os fatores que movem esse mercado continuam tão orgânicos quanto as raízes dos cafeeiros”, conclui Guto Gioielli.


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