O elevado endividamento das famílias brasileiras continua sendo o principal obstáculo para uma recuperação mais forte do varejo, segundo relatório divulgado pelo BTG Pactual nesta quarta-feira (17). Na avaliação do banco, a manutenção dos juros em níveis elevados limita a concessão de crédito e reduz o espaço para o consumo, especialmente de bens considerados não essenciais.
Segundo dados do Banco Central citados pelo relatório, o endividamento das famílias atingiu 49,8% da renda disponível em março de 2026, acima dos 41,5% registrados no início de 2020. Ao mesmo tempo, a parcela da renda destinada ao pagamento de dívidas chegou a 29,3%, o maior patamar em quase duas décadas.
O BTG afirma que o mercado de trabalho continua sustentando a atividade econômica, com emprego e renda resilientes. No entanto, o efeito dos juros elevados sobre o orçamento das famílias tem reduzido o poder de compra disponível para gastos discricionários.
Segundo o banco, despesas financeiras, como financiamentos e cartão de crédito, passaram a ocupar uma parcela maior da renda, limitando principalmente compras de maior valor. O estudo também mostra que a maior parte do orçamento das famílias está concentrada em gastos considerados essenciais.
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Despesas concentradas em habitação
Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), habitação responde por cerca de 37% das despesas das famílias, seguida por transporte, com aproximadamente 18%, e alimentação, entre 17% e 18%.
Já categorias como saúde representam cerca de 8% do orçamento, educação responde por aproximadamente 5% e vestuário por apenas 4%.
Na avaliação do BTG, quando as condições financeiras ficam mais restritivas, as famílias tendem a preservar os gastos essenciais e adiar compras de bens duráveis e outros produtos considerados discricionários.
Varejo discricionário continua mais vulnerável
O banco avalia que segmentos como vestuário, móveis, eletrodomésticos, eletrônicos e artigos para o lar permanecem mais expostos ao cenário de juros elevados.
Essas categorias costumam reunir três características que aumentam sua sensibilidade ao crédito: tíquete médio mais elevado, maior dependência de financiamento e menor grau de essencialidade.
Em contrapartida, supermercados, farmácias e empresas de bens de consumo básico seguem apresentando maior resiliência, sustentados pela demanda recorrente.
O relatório também observa que consumidores de menor renda tendem a sofrer impacto maior, já que destinam mais de 60% do orçamento apenas para alimentação e habitação.
Ações negociam com desconto
Apesar do cenário mais desafiador, o BTG destaca que as ações do setor negociam abaixo da média histórica, com a mediana de preço/lucro (P/L) das empresas de varejo analisadas em aproximadamente 9 vezes o lucro projetado, ante média histórica de 14,7 vezes nos últimos 15 anos.
Ainda assim, o banco avalia que os investidores continuam exigindo um prêmio elevado para investir no setor, refletindo preocupações com juros, crescimento dos lucros, concorrência e perspectivas para o consumo.
Para o BTG Pactual, a retomada mais consistente do varejo dependerá da recuperação da concessão de crédito. Enquanto as empresas financeiras mantiverem postura conservadora na liberação de empréstimos e as famílias permanecerem com elevado comprometimento da renda, a expectativa é de recuperação gradual do consumo.
Na avaliação do banco, embora as ações do setor estejam mais baratas, a maior parte dos investidores deve continuar adotando uma postura cautelosa até que surjam sinais mais claros de aceleração do consumo e de melhora nas projeções de lucro das empresas.











