O Brasil perdeu sete posições no Ranking Mundial de Competitividade 2026 e passou a ocupar a 65ª posição entre as 70 economias avaliadas pelo IMD World Competitiveness Center (WCC), em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC). O resultado representa a pior posição já alcançada pelo país no levantamento.
A marca supera os desempenhos mais baixos registrados anteriormente, quando o Brasil ficou em 62º lugar em 2024 e em 61º em 2017. No ano passado, o país alcançou a 58ª posição, seu melhor desempenho desde 2020.
No estudo, que mede a capacidade das economias de criar e manter um ambiente favorável à competitividade das empresas, influenciando seu desempenho nos mercados doméstico e internacional, atrás do Brasil aparecem Botsuana (66º), Mongólia (67º), Nigéria (68º), Namíbia (69º) e Venezuela (70º).
Em análise exclusiva ao Monitor do Mercado, Hugo Tadeu, diretor do Núcleo de Inovação, IA e Tecnologias Digitais da Fundação Dom Cabral mostra esses dados sob outra perspectiva: a queda do Brasil no ranking deste ano é atribuída ao crescimento dos países líderes em eficiência das organizações privadas, da previsibilidade da gestão pública, foco em inovação, IA e qualificação de pessoal.
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Segundo o diretor, no caso brasileiro, o que chama atenção é o aumento do custo de capital, com crescimento da dívida das empresas e fatores atribuídos à qualificação pessoal, item este que ele destaca como uma agenda de transformação profunda.
Hugo Tadeu complementa que todos os países que saltaram a sua competitividade internacional direcionaram esforços à formação de pessoas, desde a educação infantil até a educação executiva. Como exemplos, ele cita Estados Unidos, Coreia do Sul e países europeus, que estão em evidência nos últimos anos.
Brasil teve queda generalizada nos quatro principais pilares
O levantamento mostra deterioração em todas as frentes analisadas: desempenho econômico, eficiência governamental, eficiência empresarial e infraestrutura.
A maior perda ocorreu em eficiência empresarial, que recuou 11 posições. O desempenho econômico caiu seis colocações. Já a eficiência governamental manteve a trajetória de deterioração observada desde 2022, enquanto a infraestrutura também apresentou piora na comparação anual.
Hugo Tadeu avalia que “a competitividade das empresas tem o custo de capital como um dos principais elementos que impedem o crescimento do país, somado às boas práticas de gestão, atitudes e valores. Nesse cenário, ele ressalta a sugestão do estudo de que as empresas brasileiras adotem uma série de metodologias atuais de gestão, além dos avanços relacionados à inovação e IA.
O especialista destaca ainda que o Brasil é formado em grande parte por empresas de pequeno e médio porte, com demanda por qualificação de mão de obra e boas práticas de gestão com foco em resultados financeiros, que divide o peso com desafios regulatórios que freiam o crescimento empresarial no país.
Por outro lado, o desempenho econômico continua sendo o melhor indicador brasileiro, ocupando a 36ª posição entre as economias avaliadas.
Segundo o estudo, o resultado evidencia assimetrias importantes entre os pilares analisados, com os maiores atrasos concentrados em eficiência governamental e eficiência empresarial. A leitura dos pesquisadores é que o país ainda enfrenta dificuldades para construir um ambiente regulatório mais consistente e para consolidar estruturas empresariais capazes de sustentar ganhos contínuos de produtividade.
Questionado sobre o que pesa mais na competitividade com outros países, Hugo Tadeu esclarece que os líderes do ranking de competitividade apresentam fatores em comum: boa performance econômica, eficiência de governo, empresarial e um olhar atento para infraestrutura, além de combinar atributos como resiliência, previsibilidade e foco no futuro.
Singapura assume liderança mundial em competitividade
Depois de ocupar a segunda posição em 2025, Singapura assumiu a liderança do Ranking Mundial de Competitividade 2026. O país se destacou pelo ambiente favorável aos negócios e pela solidez de suas instituições. O ranking é liderado ainda por Hong Kong (2º), Suíça (3º), Taiwan (4º) e Emirados Árabes Unidos (5º).
Segundo o estudo, Singapura e Hong Kong ilustram a combinação entre elevada eficiência governamental, agilidade regulatória e capacidade de adaptação econômica, fatores que favorecem a atração de investimentos e a dinâmica empresarial.
Os Emirados Árabes Unidos se destacaram por apresentar o melhor desempenho econômico entre os 70 países avaliados, refletindo os efeitos das políticas de diversificação da economia e atração de investimentos implementadas nos últimos anos.
A Europa também mantém presença relevante entre os líderes do ranking. Dinamarca (6º), Países Baixos (8º) e Suécia (9º) aparecem entre os dez primeiros colocados, evidenciando a relevância de estratégias de longo prazo voltadas à inovação, produtividade e desenvolvimento econômico.
Destaques positivos do Brasil no ranking mundial de competitividade
Apesar do recuo no ranking geral, o Brasil apresentou resultados expressivos em alguns indicadores. O principal destaque foi a capacidade de geração de empregos de longo prazo, na qual o país ocupa a 5ª posição.
Segundo o estudo, o resultado reflete a resiliência do mercado de trabalho e a expansão de atividades econômicas em diferentes setores, contribuindo para o dinamismo da economia e para o aumento da participação da população no mercado de trabalho.
Para Hugo Tadeu, “estar entre os países com maior capacidade de geração de empregos mostra a força e a resiliência da economia brasileira. Mesmo diante de desafios internos e externos, o país mantém sua capacidade de criar oportunidades e absorver trabalhadores em diferentes setores produtivos”.
O Brasil também se destaca em subsídios governamentais, indicador que mede a atuação do poder público no estímulo a setores estratégicos e no apoio a atividades capazes de impulsionar o desenvolvimento econômico, ocupando a 5ª posição.
Outro ponto de destaque é a participação de energias renováveis na matriz energética. O país ocupa igualmente a 5ª colocação nesse indicador, condição que o estudo aponta como uma vantagem competitiva alinhada às demandas globais por sustentabilidade e transição energética.
Já em fluxo de investimento direto estrangeiro, o Brasil aparece em 7º lugar, demonstrando capacidade de atrair capital internacional mesmo em um ambiente global marcado por incertezas. Segundo o levantamento, o resultado reforça a relevância do país nos planos de expansão de multinacionais e sua posição entre os principais destinos de investimentos entre as economias emergentes.
A atividade empreendedora em estágio inicial também figura entre os pontos fortes do país. O Brasil ocupa a 8ª posição, refletindo a capacidade da população de identificar oportunidades, criar novos negócios e desenvolver soluções inovadoras, contribuindo para a renovação da economia e para o fortalecimento da competitividade.
Capital humano continua sendo obstáculo para o Brasil
Apesar desses avanços, o estudo aponta desafios significativos relacionados ao ambiente econômico e à formação de capital humano: o Brasil ocupa a última posição do ranking em indicadores ligados à qualificação da força de trabalho, educação e habilidades financeiras, evidenciando entraves estruturais que limitam o fortalecimento da competitividade nacional:
1. Custo de capital elevado
O Brasil figura na 70ª posição em custo de capital. Segundo o levantamento, esse fator atua como uma restrição estrutural ao investimento produtivo e à modernização das empresas.
O encarecimento do financiamento reduz a formação de capital de longo prazo, aumenta o custo dos investimentos e diminui a previsibilidade financeira dos projetos. Na prática, o ambiente se torna menos favorável para inovação e expansão produtiva, especialmente em setores mais dependentes do crédito.
O estudo destaca que economias como Suíça e Singapura operam com custos de capital menores, sustentados por estabilidade macroeconômica e elevado grau de confiança institucional. Nesses países, a previsibilidade reduz o prêmio de risco e amplia a eficiência do financiamento de longo prazo.
Segundo os pesquisadores, o avanço brasileiro depende da ampliação da concorrência no sistema financeiro e do fortalecimento dos instrumentos de crédito de longo prazo.
2. Mercado de dívida corporativa pouco desenvolvido
O Brasil também ocupa a 70ª posição em débito corporativo. O resultado evidencia um mercado de financiamento empresarial considerado pouco profundo e com baixa diversificação de instrumentos. Como consequência, as empresas dependem fortemente do crédito bancário, o que reduz a flexibilidade das estruturas de capital e limita o financiamento de projetos mais complexos.
Em economias como Estados Unidos e Países Baixos, a dívida corporativa exerce papel central no financiamento empresarial, com ampla liquidez e forte participação de investidores institucionais. Nos EUA, o mercado de títulos corporativos é apontado como um dos mais desenvolvidos do mundo, enquanto a Europa se beneficia da forte integração entre empresas e mercados financeiros.
Para os pesquisadores, o desafio brasileiro está no aprofundamento do mercado de capitais e na ampliação do uso de instrumentos privados de dívida.
3. Educação Básica
A educação primária e secundária aparece como outro ponto crítico, com o Brasil na 70ª posição nesse indicador. O estudo afirma que a fragilidade na formação educacional compromete a construção do capital humano, reduzindo os efeitos positivos sobre produtividade e inovação no longo prazo.
Segundo a pesquisa, as limitações na consolidação de competências fundamentais afetam tanto a empregabilidade futura quanto a capacidade de adaptação tecnológica dos trabalhadores. O avanço, segundo os autores do estudo, depende de maior estabilidade das políticas educacionais, fortalecimento da carreira docente e aprimoramento da governança das redes de ensino.
4. Produtividade da força de trabalho
O levantamento aponta limitações relevantes na produtividade dos trabalhadores brasileiros. Esse desempenho está associado a desafios relacionados à qualificação profissional, à baixa incorporação de tecnologia nos processos produtivos e às diferenças de eficiência existentes entre os diversos setores da economia.
De acordo com o estudo, esses fatores reduzem o dinamismo econômico e dificultam ganhos consistentes de produtividade ao longo do tempo.
Em economias como Estados Unidos e Irlanda, a produtividade é sustentada por ambientes altamente inovadores, forte integração tecnológica e presença significativa de setores intensivos em conhecimento. Esses países também se beneficiam de sistemas produtivos mais integrados às cadeias globais de valor, elevando os níveis médios de eficiência.
5. Habilidades linguísticas
O baixo desempenho em habilidades linguísticas também aparece entre os gargalos identificados. Essa limitação, segundo o estudo, reduz a inserção internacional de profissionais e empresas, restringindo a participação do país nos fluxos globais de comércio, serviços e conhecimento.
O cenário afeta ainda a mobilidade do capital humano e reduz oportunidades em ambientes profissionais cada vez mais internacionalizados. Como consequência, há maior dificuldade de integração em redes globais de inovação e colaboração.
Os pesquisadores destacam que o país ainda enfrenta desafios para consolidar o ensino de idiomas como parte estruturante da educação básica. O avanço dependerá de maior continuidade formativa e de políticas educacionais alinhadas às exigências de uma economia globalizada.
6. Educação financeira
As habilidades financeiras também figuram entre os principais desafios. O estudo aponta limitações na formação de competências econômicas básicas da população, com reflexos diretos sobre decisões de consumo, investimento e gestão financeira.
O problema afeta também pequenos agentes econômicos e contribui para maior vulnerabilidade financeira em diferentes camadas da sociedade.
Nas economias mais bem posicionadas nesse indicador, a educação financeira costuma ser incorporada de forma estruturada ao longo da trajetória escolar e reforçada por iniciativas práticas voltadas à tomada de decisões cotidianas.
7. Sistemas de valor e ambiente institucional
O sétimo ponto de atenção está relacionado aos sistemas de valor. O desempenho brasileiro nesse indicador reflete principalmente as fragilidades associadas à confiança institucional, previsibilidade regulatória e integridade das relações econômicas.
Esses fatores afetam diretamente o ambiente de negócios ao influenciar custos de transação, segurança contratual e coordenação entre agentes econômicos. Como resultado, o país convive com maior nível de incerteza nas relações econômicas e menor eficiência sistêmica.
Para os autores do estudo, avanços nessa dimensão dependem do fortalecimento contínuo da governança institucional e da ampliação da previsibilidade regulatória, reduzindo as incertezas que ainda afetam o ambiente de negócios brasileiro.











