A entrada da SpaceX, avaliada em US$ 1,7 trilhão, na Bolsa de Valores dos Estados Unidos aumentou o patrimônio de Elon Musk, que possui participação próxima de 40% na empresa, e o tornou o primeiro trilhonário da história.
No novo episódio do podcast Ligando os Pontos, Marcos de Vasconcellos, CEO do Monitor do Mercado e colunista da Folha de S.Paulo, analisa a crescente concentração de ações nas mãos dos bilionários e explica por que a leitura mais comum sobre o tema está incompleta.
De acordo com ele, o mercado de capitais é, ao mesmo tempo, um mecanismo de multiplicação de riqueza e de financiamento do empreendedorismo — e por que a proteção do investidor minoritário é essencial para que tudo isso continue funcionando. Confira:
A diferença entre investir em ações e criar empresas
A trajetória de Elon Musk ajuda a explicar uma distinção importante do mercado financeiro: grandes fortunas normalmente não surgem da compra de ações, mas da criação de empresas capazes de captar recursos para crescer.
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O patrimônio de Musk não foi construído pela aquisição de papéis da SpaceX no mercado secundário, onde investidores compram e vendem ações entre si. Sua riqueza está ligada à participação societária acumulada desde a fundação da companhia.
O mesmo modelo foi seguido por empresários como Jeff Bezos, fundador da Amazon, pela família Gerdau, controladora da siderúrgica brasileira, e por Jorge Paulo Lemann, um dos principais acionistas da Ambev.
Enquanto investidores buscam empresas com potencial de valorização, empreendedores utilizam o mercado de capitais para levantar recursos e financiar expansão, investimentos em tecnologia, contratações e aquisições.
Qual é a função da Bolsa?
O mercado de capitais conecta investidores e empresas. De um lado, investidores aplicam recursos em busca de participação no crescimento dos negócios. Do outro, companhias captam dinheiro para acelerar seus planos de expansão.
Quando uma empresa realiza uma oferta pública de ações, conhecida como IPO (sigla em inglês para Oferta Pública Inicial), ela transforma parte de seu capital em recursos para financiar novos projetos. Nesse processo, investidores se tornam sócios da companhia e compartilham os resultados futuros do negócio.
Quando o modelo funciona, tanto investidores quanto empreendedores se beneficiam. No entanto, os ganhos tendem a ocorrer em escalas diferentes.
A valorização das ações multiplica patrimônios já existentes. Por isso, fundadores que mantêm participações relevantes nas empresas conseguem acumular fortunas muito superiores às dos investidores minoritários.
Mercado multiplica riqueza, mas depende da base inicial
A ideia de que basta encontrar a “próxima Tesla”, a “próxima Amazon” ou a “próxima Nvidia” para construir uma fortuna é recorrente no mercado financeiro.
Na prática, especialistas ressaltam que a bolsa funciona como um mecanismo de multiplicação de patrimônio. Isso significa que retornos percentuais semelhantes produzem resultados muito diferentes dependendo do capital investido.
Um investidor com R$ 100 mil aplicados e retorno de 20% acumula R$ 20 mil em ganhos. Já um acionista com patrimônio de R$ 100 bilhões obtém R$ 20 bilhões com a mesma rentabilidade.
Dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que a concentração acionária no Brasil é superior à média internacional.
Segundo a entidade, 32% das empresas brasileiras listadas em bolsa possuem um único acionista com mais de 50% do capital. Nos países da OCDE, esse percentual é de 16%.
Quando considerados os três maiores acionistas, 61% das companhias brasileiras têm mais da metade das ações concentradas nesse grupo. A média entre os países desenvolvidos é de 33%.
Inteligência artificial e tokenização ganham espaço
O fortalecimento do mercado de capitais também depende da confiança dos investidores. Entre as prioridades recentes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) estão o uso de inteligência artificial e o avanço da tokenização de ativos.
A inteligência artificial (IA) pode ampliar a capacidade de supervisão e fiscalização do mercado, permitindo o monitoramento de grandes volumes de dados, como demonstrações financeiras, comunicados corporativos e negociações.
Já a tokenização consiste na representação digital de ativos financeiros por meio da tecnologia blockchain, aumentando a rastreabilidade e a transparência das operações.
Segundo especialistas, essas ferramentas podem contribuir para fortalecer a proteção aos investidores minoritários e ampliar a eficiência do mercado.











