Por Carlos Eduardo Sedeh*
Durante anos, a infraestrutura saiu do centro das discussões sobre desenvolvimento econômico. O debate passou a girar em torno da inovação, da transformação digital, dos novos modelos de negócio e, mais recentemente, da inteligência artificial. Parecia que a base que sustentava essa evolução já estava garantida. Não estava.
Nos últimos anos, uma combinação de tensões geopolíticas, transição energética, digitalização acelerada e aumento da demanda por processamento de dados recolocou energia, conectividade e logística no centro das decisões econômicas. O mundo voltou a competir por infraestrutura.
Essa mudança pode ser observada em diferentes regiões. Nos Estados Unidos, a expansão dos data centers e das aplicações de inteligência artificial já provoca discussões sobre a capacidade das redes elétricas de acompanhar o crescimento da demanda. Na Europa, a busca por maior autonomia energética ganhou força após os impactos provocados pela guerra na Ucrânia, enquanto na Ásia, governos e empresas ampliam investimentos para fortalecer conectividade, capacidade computacional e segurança operacional.
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Embora os desafios variem de país para país, a lógica é a mesma: infraestrutura deixou de ser apenas uma condição para o crescimento econômico. Voltou a ser um diferencial competitivo. Essa transformação também alterou a forma como investidores avaliam oportunidades de negócios. Durante décadas, fatores como mercado consumidor, disponibilidade de mão de obra e incentivos fiscais estiveram entre os principais critérios para a instalação de novas operações. Hoje, a qualidade da infraestrutura disponível passou a ter peso semelhante.
Energia confiável, conectividade de alta capacidade, acesso a rotas internacionais de dados, capacidade de processamento e resiliência operacional tornaram-se elementos decisivos para empresas que planejam investimentos de longo prazo.
O setor de data centers talvez seja um dos melhores exemplos dessa mudança. Segundo estimativas divulgadas pelo Ministério das Comunicações, os investimentos globais em infraestrutura para processamento de dados podem alcançar cerca de US$ 3 trilhões nos próximos anos. A disputa para atrair parte desses recursos já mobiliza governos, investidores e empresas em diferentes mercados.
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a capacidade de sustentar essa expansão. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta um aumento significativo do consumo energético associado aos data centers ao longo da próxima década, impulsionado pelo avanço da digitalização e pelo crescimento das aplicações de inteligência artificial.
O debate costuma concentrar atenção nas tecnologias que estão transformando a economia. Mas existe uma realidade menos visível: nenhuma transformação digital acontece sem infraestrutura física.
Por trás de cada aplicação baseada em nuvem, de cada plataforma digital e de cada sistema conectado existe uma rede complexa formada por energia, conectividade, processamento de dados e transporte de informação. Quanto mais digital se torna a economia, mais relevante se torna a infraestrutura que a sustenta.
Essa é uma discussão particularmente importante para o Brasil. O país reúne ativos que poucos mercados conseguem combinar. Possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, localização estratégica para conexões internacionais, mercado consumidor relevante e condições favoráveis para ampliar sua participação na economia digital global.
A conectividade também desempenha papel central nessa equação. Cerca de 99% do tráfego internacional de dados circula por cabos submarinos, infraestrutura que conecta continentes, sustenta operações empresariais e viabiliza o funcionamento da economia digital. Em um cenário cada vez mais dependente de dados, a qualidade dessas conexões passou a ser tão importante quanto a disponibilidade de energia.
Isso não significa ignorar os desafios. O Brasil ainda precisa avançar em áreas como transmissão de energia, expansão de redes, simplificação regulatória e aceleração de investimentos estruturantes. Mas talvez o ponto mais importante seja outro: reconhecer que infraestrutura deixou de ser uma pauta setorial. Ela se tornou uma pauta econômica.
Os países que liderarem a próxima etapa da transformação digital não serão necessariamente aqueles que desenvolverem as tecnologias mais sofisticadas. Serão aqueles capazes de criar as condições necessárias para que essas tecnologias operem em escala.
Durante muito tempo, acreditamos que a vantagem competitiva estava apenas na inovação. Hoje, fica cada vez mais claro que inovação e infraestrutura caminham juntas. O mundo não voltou a competir apenas por tecnologia, Voltou a competir por infraestrutura. E os países que compreenderem essa mudança mais rapidamente estarão melhor posicionados para atrair investimentos, gerar empregos, ampliar produtividade e capturar as oportunidades econômicas das próximas décadas.
*Carlos Eduardo Sedeh é CEO na SAMM, especialista em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios











