Os mercados globais operam com desempenho misto no início desta quarta-feira (22), com investidores divididos entre a expectativa pelos balanços de Alphabet e Tesla e a escalada das tensões no Oriente Médio, que mantém o petróleo em forte alta.
A temporada de balanços ganha importância em um momento em que aumentam as dúvidas sobre o retorno dos investimentos bilionários em Inteligência Artificial (IA). As ações das empresas de tecnologia pressionam parte das bolsas diante das incertezas sobre atrasos no principal modelo de IA da Alphabet e da expectativa de que a Tesla registre sua primeira queima de caixa trimestral em mais de dois anos.
Em contrapartida, papéis dos setores de mineração, gás e petróleo sustentam os mercados, impulsionados pela disparada da commodity. O petróleo chegou a superar US$ 95 por barril durante a madrugada, refletindo a ausência de avanços diplomáticos entre Estados Unidos e Irã, que entraram no 11º dia consecutivo de conflitos. O mercado teme que a continuidade dos ataques provoque novas interrupções nas principais rotas globais de transporte de petróleo.
Hoje, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que o Estreito de Ormuz continua sendo um dos principais pontos de atrito entre Washington e Teerã. Segundo ele, os Estados Unidos permanecem comprometidos com uma solução diplomática, mas acusam o Irã de descumprir o acordo bilateral. Do lado iraniano, o governo negou a existência de negociações formais e afirmou, segundo a agência Mehr, que apenas uma troca de mensagens entre as partes é possível.
As declarações ocorrem um dia após o presidente Donald Trump prometer retaliar caso os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, interrompam a navegação no Mar Vermelho. O republicano também voltou a ameaçar atacar a Montanha da Picareta (Kolang Kouh), apontada como um suposto local de testes nucleares iranianos. Diante do aumento dos riscos, a força naval da União Europeia recomendou que embarcações evitem determinadas áreas do Mar Vermelho após novas ameaças dos houthis.
Na segunda-feira, os houthis anunciaram um bloqueio naval contra a Arábia Saudita, abrindo uma nova frente potencial para o conflito. O movimento amplia a preocupação do mercado porque o Mar Vermelho passou a funcionar como a principal rota alternativa para o escoamento de milhões de barris de petróleo saudita por dia, enquanto o Irã mantém ameaças sobre a navegação no Estreito de Ormuz.
Apesar do cenário de tensão, surgiram novos sinais de que os canais diplomáticos permanecem abertos. O ministro do Interior do Irã, Eskandar Momeni, visitou o Paquistão, que atua como mediador, e solicitou que Islamabad mantenha os esforços para aproximar as duas partes.
Rubio reforçou que Washington está “sempre comprometida com a diplomacia”, mas afirmou duvidar que o Irã compartilhe da mesma disposição. O secretário argumentou que permitir ao Irã controlar o Estreito de Ormuz criaria um precedente perigoso para o comércio internacional, especialmente para países do Sudeste Asiático que enfrentam disputas territoriais no Mar do Sul da China. Após reunião com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, Rubio afirmou que “o Irã está em sérios apuros” e declarou que “nada do que a China fez alterou a trajetória do conflito e que, em alguns casos, a China tem colaborado em relação à situação do Irã”. Ainda assim, ressaltou que “seria ideal chegar a um acordo diplomático”.
Tarifaço dos EUA contra o Brasil entra em vigor
No Brasil, entrou em vigor nesta quarta-feira o novo tarifaço de 25% imposto pelos EUA sobre parte das exportações brasileiras. A medida decorre da investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que concluiu haver práticas comerciais consideradas desleais por parte do Brasil.
O órgão afirma que políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, processamento de patentes, pirataria, etanol e desmatamento ilegal criam insegurança jurídica e concorrência desleal para empresas americanas. Entre os exemplos citados estão o PIX e a regulação das plataformas digitais.
A sobretaxa incide sobre cerca de 3 mil produtos brasileiros e será paga pelos importadores americanos no momento da entrada das mercadorias nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, mais de 2 mil produtos ficaram de fora da medida por serem considerados estratégicos para a economia americana ou porque os EUA não possuem produção doméstica suficiente para atender à demanda.
Entre os produtos isentos estão petróleo, café e carne bovina. Já setores como etanol, máquinas agrícolas e papel serão diretamente afetados pela nova tributação.
Segundo a CNN Brasil, o governo brasileiro pretende manter as negociações com Washington, ampliar a articulação com o setor privado para abrir novos mercados e responder tecnicamente às alegações americanas. Paralelamente, o Executivo prepara medidas para reduzir os impactos sobre os segmentos atingidos.
No agronegócio, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que o tarifaço poderá comprometer R$ 4,6 bilhões por ano em exportações, o equivalente a 36,5% das vendas do setor aos Estados Unidos.
Apesar disso, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a medida não deverá produzir impactos relevantes sobre “a economia do país como um todo”. Especialistas também avaliam que os efeitos tendem a ser limitados em razão da ampla lista de exceções prevista pela medida.
O governo brasileiro classificou o tarifaço como um “marco lastimável” na relação bilateral e afirmou que a decisão possui motivação política por envolver temas considerados internos e inegociáveis, como o PIX.
Manchetes desta manhã
- Indicadores mostram desacelaração mais forte da atividade (Valor)
- IA impulsiona exportações mexicanas para os EUA e dificulta cruzada comercial de Trump (Folha)
- Trump anuncia tarifa de até 200% sobre medicamentos genéricos importados aos EUA (Estadão)
- Com ‘explosão’ dos MEIs, Nubank atinge mais de um quinto dos CNPJs ativos no país (O Globo)
Mercado global oscila ente expectativa por balanços e avanço dos preços do petróleo
As bolsas da Europa avançam impulsionadas pelas ações de mineração e petróleo, que compensam as perdas do setor de tecnologia. O índice de mineração europeu (STOXX Europe 600 Basic Resources) sobe 1,01%, enquanto o subíndice de tecnologia recua 1,2%, em um cenário de forte alta do petróleo.
Na temporada de balanços, o Santander avança 2% em Madri após divulgar lucro trimestral praticamente em linha com as expectativas do mercado.
Na Ásia, os mercados encerraram a sessão desta quarta-feira sem direção única, refletindo o equilíbrio entre o alívio trazido pela recuperação de Wall Street e a pressão da nova alta do petróleo.
Os investidores mantiveram o foco nas ações de empresas ligadas a semicondutores e inteligência artificial, enquanto aguardam a divulgação do balanço da Alphabet, que pode influenciar o desempenho do setor de tecnologia nos mercados globais.
Em Nova York, os índices futuros abriram em queda, em meio à expectativa pelos balanços da Alphabet, controladora do Google, e da Tesla.
Confira os principais índices do mercado:
- S&P 500 Futuro: -0,23%
- FTSE 100: +1,13%
- CAC 40: +0,90%
- Nikkei 225: -0,18%
- Shanghai SE Comp: +0,07%
- Hang Seng: -0,95%
- Ouro (jun): +1,38%, a US$ por 4.132,80 por onça troy
- Índice do dólar (DXY): -0,10%, aos 101,10 pontos
- Bitcoin: -1,16% a US$ 65.784,0
Commodities
- Petróleo: a commodity amplia os ganhos, diante da ausência de avanços nas negociações entre Estados Unidos e Irã. Durante a madrugada, o barril chegou a superar US$ 95, enquanto o mercado intensifica os alertas para o risco de uma escalada ainda maior nos preços caso o conflito se prolongue. A situação também já pressiona os derivados da commodity, após o novo fechamento do Estreito de Ormuz.
O Goldman Sachs reforçou o alerta ao afirmar que as tensões geopolíticas elevam os riscos para sua projeção de US$ 80 por barril do Brent no fim de 2026. A cotação pode ultrapassar US$ 120 no quarto trimestre se houver uma interrupção prolongada da navegação pelo Estreito de Ormuz.
Há pouco, o Brent/setembro avançava 3,72% para US$ 94,40. Já o WTI/agosto subia 3,46%, a US$ 87,25. - Minério de ferro: fechou em queda de 1% na Bolsa de Dalian, na China, cotado a US$ 109,18 a tonelada, pressionado por sinais de enfraquecimento da demanda da indústria siderúrgica.
Segundo a ANZ Research, as margens de lucro das siderúrgicas recuaram para 37%, uma queda de 23 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados da Mysteel. Além disso, as taxas de operação dos altos-fornos também diminuíram, reforçando a percepção de menor consumo da commodity e aumentando a pressão sobre os contratos futuros.
Cenário internacional
No cenário comercial, Trump anunciou um novo cronograma tarifário para medicamentos genéricos importados, elevando a pressão sobre fabricantes estrangeiros para transferirem sua produção ao território americano.
Pelo plano, as importações permanecerão isentas de tarifas até agosto de 2028. A partir dessa data, passarão a pagar uma tarifa de 100%, que sobe para 200% em 2029. A medida deve atingir principalmente a Índia, maior fornecedora de genéricos ao mercado americano, e concede às empresas um prazo de dois anos para realocar suas fábricas para os Estados Unidos.
A agenda econômica desta quarta-feira é esvaziada. O principal destaque fica para o relatório semanal do Departamento de Energia (DoE), às 11h30, com os estoques de petróleo dos Estados Unidos, indicador que ganha relevância diante da forte alta da commodity provocada pela escalada da guerra no Oriente Médio.
Cenário nacional
No Brasil, o governo acompanha a expectativa de que os Estados Unidos anunciem ainda nesta quarta-feira uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos importados de cerca de 60 países, incluindo o Brasil. A medida, ligada à investigação sobre trabalho análogo à escravidão, ainda gera dúvidas quanto à sua aplicação, principalmente sobre uma eventual cumulatividade com a tarifa de 25% anunciada na semana passada.
Enquanto aguarda a decisão de Washington, o governo brasileiro mantém a estratégia de negociação e evita falar em retaliação. O ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, afirmou que ainda não há prazo para anunciar medidas de apoio às empresas, já que o Executivo continua ouvindo os setores afetados para dimensionar os impactos da nova tarifa e avaliar eventuais linhas de crédito e estímulos às exportações.
Ao mesmo tempo, o setor privado intensifica a ofensiva para tentar reduzir os efeitos do tarifaço. Levantamento do Estadão mostra que empresas e entidades brasileiras ampliaram a contratação de escritórios de lobby em Washington, numa tentativa de preservar exceções e influenciar as negociações com o governo americano.
Destaques do mercado corporativo
- Braskem: confirmou negociações com credores sobre uma possível reestruturação de sua dívida. As propostas recebidas são indicativas, não vinculantes e permanecem em análise.
- Mercado Livre: captou R$ 1,5 bilhão em letras financeiras, em operação que atraiu demanda de R$ 3,3 bilhões.
- Grupo Bimbo: Cade mantém leilão da Nutrella enquanto avalia novo comprador da marca
- Iberdrola: assumirá o controle da distribuidora de eletricidade finlandesa Caruna por US$ 2,3 bilhões
- Embraer: assinou acordo aeroespacial com fundo Mubadala, dos Emirados Árabes
- Var Energi: comprou a rival BlueNord por US$ 1,3 bi e cria maior petrolífera independente da Europa.











