Os conflitos envolvendo os Estados Unidos e Israel contra o Irã já entram na terceira semana sem avanço em negociações diplomáticas, reduzindo a previsão anterior de que a guerra estaria próxima do fim e também as apostas de que a taxa básica de juros do Brasil, a Selic, teria um corte relevante na superquarta (18).
O cenário que antes era considerado amplamente favorável para o início do ciclo de cortes de juros no Brasil mudou desde a eclosão do conflito. Com a forte alta do petróleo e as incertezas sobre possíveis efeitos inflacionários, o mercado passou a rever suas projeções para a política monetária.
Nos últimos dias, cresceram especulações de que a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) — marcada para os dias 17 e 18 de março — limite o corte da Selic marcada a 0,25 ponto percentual, ou até mesmo mantenha a taxa no atual patamar de 15% ao ano.
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O petróleo tipo Brent, referência internacional, passou de US$ 72 por barril na véspera do início do conflito para cerca de US$ 100 por barril, uma alta superior a 40%. Além da valorização, a commodity tem apresentado volatilidade acima do usual.
Segundo economistas, a reação da política monetária dependerá da avaliação sobre a duração do choque e sobre os chamados efeitos de segunda ordem, quando o aumento inicial de custos se espalha por outros setores da economia.
Até o momento, esses canais secundários permanecem relativamente contidos — a taxa de câmbio tem resistido ao aumento da aversão ao risco, refletindo principalmente o elevado diferencial de juros entre o Brasil e outras economias e a melhora dos termos de troca.
Já a inflação corrente (IPCA), apesar de ter apresentado comportamento qualitativo pior que o esperado nas últimas divulgações, segue em trajetória considerada relativamente benigna.
Bancos reduzem expectativa de corte da Selic
Nos últimos dias, grandes bancos como Itaú, Goldman Sachs, BNP Paribas, Bank of America e Santander têm revisado o cenário e já admitem Selic estável com a alta do petróleo.
Em meio à maior incerteza e a um balanço de riscos considerado menos favorável, os bancos passaram a estimar que o início do ciclo de flexibilização ocorra com um corte menor, de 0,25 ponto percentual, contra 0,50 ponto percentual previstos anteriormente, levando a Selic para 14,75% ao ano.
O Goldman Sachs destaca que, no Brasil, os juros reais seguem “firmemente em terreno restritivo” e que o Copom deve iniciar um ciclo “gradual” de normalização.
O BNP Paribas destaca a alta do petróleo e a incerteza sobre a duração da guerra, que alteraram o cenário de riscos. Segundo o banco, mesmo em um cenário considerado mais favorável para os preços do petróleo, a projeção de inflação do BC para o horizonte relevante aumenta 20 pontos-base, “enfraquecendo o caso para um afrouxamento mais agressivo”.
Em sua nova projeção o Itaú destaca que a condução da política monetária dependerá da avaliação do Banco Central (BC) sobre a persistência do choque provocado pelo petróleo e sobre a possibilidade de propagação para outros preços da economia.
“O momento demanda cautela e serenidade na implementação da estratégia de calibragem do nível de juros. Deve também indicar que o Comitê visa combater os impactos secundários de choques de oferta que se manifestam de maneira defasada na inflação e que o ritmo e a magnitude do ciclo dependerão disso”, esclareceu.
Por fim, e mais importante, o Itaú prevê que Copom deve deixar claro em seu comunicado que está pronto para interromper qualquer ajuste da Selic caso os choques se provem mais persistentes ou maiores do que o antecipado.
Projeções do Copom podem subir
O balanço de riscos para a inflação tornou-se mais altista para 2026 e 2027, embora existam atenuantes, como medidas tributárias voltadas a mitigar a alta dos combustíveis no mercado doméstico.
Nas projeções utilizadas pelo Banco Central, considerando uma taxa de câmbio ao redor de R$ 5,20 por dólar e preço do petróleo próximo de US$ 85 por barril, ambos com base na média dos últimos dez dias úteis antes da reunião, a estimativa para o horizonte relevante da política monetária deve subir de 3,2% para 3,4%.
Na avaliação do Itaú, essa piora não impede o início da flexibilização monetária, mas indica necessidade de um ajuste mais moderado de 0,25 ponto percentual.
Boletim Focus revisa projeção para inflação e juros
Os efeitos do aumento do petróleo sobre a inflação e as sinalizações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, neste final de semana, de intensificar ataques ao Irã passaram a influenciar não apenas as expectativas para a reunião de março do Copom, mas também para o ciclo de cortes ao longo do ano.
Além de o corte de 0,50 ponto percentual sinalizado anteriormente pelo Banco Central ter sido colocado em dúvida, o mercado passou a projetar uma redução mais lenta da taxa básica.
O Boletim Focus, divulgado pelo BC nesta segunda-feira (16), trouxe novas revisões nas projeções do mercado: Para a Selic, o Focus elevou a projeção para 2026 de 12,13% para 12,25%, no último relatório antes da reunião do Copom.
Para 2027, os economistas projetam pela 57ª semana consecutiva que a taxa básica terminará o ano em 10,50%.
No caso da inflação, os economistas voltaram a apostar que em uma alta acima de 4%, poucos dias após o IPCA cair para abaixo desse nível pela primeira vez desde dezembro de 2024.
Para 2026, a projeção subiu de 3,91% para 4,10%, o maior nível registrado no ano; enquanto para 2027, a estimativa permaneceu em 3,80%. As projeções para 2028 e 2029 seguem estáveis há mais de quatro meses.
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Choque do petróleo pressiona inflação e combustíveis
A escalada recente do petróleo e a divulgação de um IPCA mais forte que o esperado em fevereiro (+0,70%) levaram o UBS BB a elevar sua projeção para a inflação deste ano de 3,5% para 3,7%.
Segundo o banco, o diesel possui peso relativamente baixo dentro do índice oficial de inflação, o que limita seu impacto direto no indicador.
O pacote de medidas anunciado pelo governo para tentar conter o preço do combustível também teria efeito limitado sobre o IPCA.
Ainda assim, caso o preço da gasolina suba cerca de 10%, o impacto potencial sobre a inflação poderia chegar a 0,30 ponto percentual.
Petrobras sobe preço do diesel após mais de um ano
Depois de 312 dias sem aumento, a Petrobras anunciou na sexta-feira (13) um reajuste de 11,6% no preço do diesel, um dia após o governo federal zerar as alíquotas de PIS/Cofins sobre o combustível.
Na mesma ocasião, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, cobrou dos estados uma redução do ICMS para ajudar a conter o aumento dos preços. O imposto estadual representa, em média, 19% do valor final do diesel nos postos.
Comunicado do Copom deve ter impacto maior que o tamanho do corte dos juros
Para Eduardo Amorim, analista de investimentos da Manchester Investimentos, o comunicado da reunião poderá ter impacto maior do que o tamanho do corte da taxa.
O especialista destaca que a leitura para o Copom desta semana reflete a piora recente do ambiente externo, com a guerra voltando a pressionar câmbio, commodities e percepção de risco, o que reacende preocupações inflacionárias no curto prazo e reduz o espaço para um corte mais agressivo da Selic.
“Mesmo com o avanço do processo de desinflação, o Banco Central segue diante de um ambiente que exige cautela, especialmente quando se observam núcleos, serviços e expectativas ainda acima da meta. Por isso, mais importante do que a magnitude do corte em si deve ser o tom do comunicado”
Amorim explica que se o Copom optar por 0,50 ponto, a tendência é de uma mensagem mais dura, deixando claro que isso não significa um ciclo mais rápido de queda de juros. Por outro lado, se o Comitê optar por um ajuste de 0,25 ponto, a leitura será de uma postura ainda mais prudente diante da piora recente no balanço de riscos.
Mercado passa a discutir juros estruturais
Para Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, o mercado passou a discutir não apenas o início do ciclo de cortes, mas também o nível estrutural dos juros no Brasil.
Patrus explica que “a revisão da Selic para 12,13% em 2026 mostra uma mudança relevante no foco do mercado. A discussão deixou de estar concentrada apenas no início do ciclo de cortes e passou a olhar com mais atenção para o nível estrutural dos juros no Brasil nos próximos anos. Em outras palavras, o mercado continua acreditando em redução da taxa, mas passou a questionar até onde ela realmente pode cair dentro de um cenário global mais instável.”
Ele acrescenta que a alta recente do petróleo e as tensões geopolíticas aumentam o risco de novos choques inflacionários.
“A alta recente do petróleo e as tensões geopolíticas aumentam o risco de novos choques inflacionários, principalmente por meio de energia e custos logísticos. Esse tipo de movimento tende a conter expectativas e pode manter a curva de juros mais pressionada por mais tempo”, destaca.
O especialista afirma que para o venture capital, esse ambiente reforça uma dinâmica de maior seletividade, em que investidores priorizam startups com modelos de negócio mais resilientes, capacidade de geração de caixa e visão clara de crescimento sustentável.
Apesar disso, parte dos analistas ainda sustenta a possibilidade de um corte de 0,50 ponto, apoiada na sinalização anterior da autoridade monetária e na percepção de desaceleração gradual da atividade econômica.
Alta do petróleo pressiona bancos centrais em todo o mundo
A alta do petróleo também influencia decisões de política monetária em outras economias. O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, também se reúne nesta quarta-feira (18) e pode adiar para o quarto trimestre o início do ciclo de cortes de juros, antes esperado para junho.
O consenso do mercado aponta para manutenção da taxa americana entre 3,50% e 3,75%.
Segundo o Barclays, o cenário geopolítico atual levou o banco a revisar suas projeções para a política monetária americana.
Com a guerra em andamento, a instituição passou a prever apenas um corte de juros neste ano, em setembro, em vez de dois movimentos. A expectativa de nova redução foi deslocada de dezembro para março de 2027.
“Nossa mudança reflete uma revisão para cima na perspectiva de inflação do PCE, bem como nos riscos aumentados de alta para a inflação resultantes do conflito com o Irã”, afirmaram estrategistas do banco.
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Apesar das incertezas relacionadas ao conflito, indicadores recentes apontam sinais de desaceleração da economia americana, o que mantém no radar pelo menos um corte de juros pelo Fed ao longo do ano.
Outros bancos centrais que tomam decisões nesta semana incluem: o Banco Central Europeu (BCE), o Banco da Inglaterra (BoE), o Banco do Japão (BoJ) e o Banco do Povo da China (PBoC).



