A inflação oficial do Brasil acelerou em fevereiro, mas recuou para baixo da linha dos 4% pela primeira vez desde dezembro de 2024. Neste mês, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,7% — maior avanço desde fevereiro do ano passado, mas o menor para o mês desde 2020.
Os dados divulgados nesta quinta-feira (12) fazem a inflação acumular uma alta de 1,03% em 2026 e 3,81% na variação em 12 meses.
Economistas avaliam que parte da alta de fevereiro está relacionada a fatores sazonais, como rematrículas escolares. Para André Valério, economista do Banco Inter, o resultado não indica necessariamente uma reversão do processo de desinflação.
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“O resultado veio em linha com o observado no IPCA-15, com uma inflação pressionada pela sazonalidade de alta do período. E se compensarmos pela sazonalidade, vemos a continuidade do processo de desinflação”, disse Valério.
O índice que mede a inflação para famílias de baixa renda, Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), subiu 0,56% em fevereiro e acumula avanço de 3,36% em 12 meses.
Segundo a economista e educadora financeira, Dirlene Silva, “as famílias de menor renda sentem ainda mais o peso da inflação porque destinam uma parcela maior do orçamento para itens essenciais, especialmente alimentação. Quando esses preços sobem, o impacto é muito mais forte. Já famílias de renda mais alta tendem a sentir menos esse efeito.”
Educação responde por quase metade do IPCA no mês
A principal pressão veio do grupo Educação, que registrou alta de 5,21% e impacto de 0,31 ponto percentual no índice geral.
Segundo o gerente da pesquisa do IBGE, Fernando Goncalves, o movimento está ligado aos reajustes anuais das mensalidades escolares, comuns no início do ano letivo.
Os cursos regulares subiram 6,20%, com destaque para:
- ensino médio (8,19%)
- ensino fundamental (8,11%)
- pré-escola (7,48%)
Sozinho, o grupo Educação respondeu por cerca de 44% do resultado do IPCA em fevereiro.
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Transportes e alimentação também pressionam IPCA
O grupo Transportes teve alta de 0,74% e impacto de 0,15 ponto percentual no IPCA. O principal destaque foi o aumento de 11,40% nas passagens aéreas. Outros subitens como seguro voluntário de veículos (5,62%); conserto de automóvel (1,22%); e ônibus urbano (1,14%) também fecharam o mês em alta.
Entre os combustíveis, o índice registrou queda de 0,47%, com recuo da gasolina (-0,61%) e do gás veicular (-3,10%). Já o etanol (0,55%) e o óleo diesel (0,23%) tiveram alta.
Já o grupo Alimentação e bebidas variou 0,26% em fevereiro, após alta de 0,23% em janeiro. Confira os principais destaques:
| Maiores altas | Maiores quedas |
| Açaí (25,29%) | Frutas (-2,78%) |
| Feijão-carioca (11,73%) | Óleo de soja (-2,62%) |
| Ovo de galinha (4,55%) | Arroz (-2,36%) |
| Carnes (0,58%) | Café moído (-1,20%) |
Segundo o IBGE, o arroz acumula queda de 27,86% em 12 meses, refletindo aumento da oferta do produto.
População ainda sente peso da inflação no bolso
Na visão de Dirlene, a percepção dos brasileiros de que os preços seguem em níveis elevados é algo comum e tem relação direta com a forma como índices inflacionários são calculados.
“A inflação medida pelo IPCA, representa a variação média de preços de uma cesta de produtos e serviços em determinado período. Quando dizemos que a inflação subiu ou caiu, isso não significa que todos os preços subiram ou todos caíram. O que o índice mostra é uma média. Dentro dessa média, sempre haverá produtos que ficaram mais caros e outros que ficaram mais baratos”, avalia.
Segundo ela, isso ajuda a explicar por que diferentes famílias sentem a inflação de maneiras distintas. “Quem consome com mais frequência itens que tiveram aumento, como alimentos, pode sentir que a inflação está muito alta. Já quem tem gastos mais concentrados em itens que tiveram estabilidade ou queda pode perceber menos impacto no orçamento.”
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Guerra e petróleo entram no radar
Analistas também apontam riscos vindos do cenário externo, especialmente ligados à alta do petróleo em meio às tensões no Oriente Médio.
“Num cenário de prolongamento da guerra (que não parece ser o cenário-base do mercado), a questão é por quanto tempo a Petrobras segurará a forte defasagem entre os preços domésticos e internacionais”, avalia o economista Maykon Douglas.
Esse fator pode influenciar a trajetória da inflação nos próximos meses e, consequentemente, as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa básica de juros.
Apesar disso, Douglas acredita que, na próxima quarta-feira (18), o Copom deve iniciar o período de cortes na taxa Selic, com uma redução de 0,25 p.p.
Já a consultoria Capital Economics considera ligeiramente mais provável um corte de 0,50 ponto percentual, embora ressalte que o cenário depende dos desdobramentos da guerra.











