As expectativas de inflação nos Estados Unidos voltaram a subir em junho e reforçaram a atenção dos investidores às próximas decisões do Federal Reserve (Fed). Pesquisa do Fed de Nova York mostrou que a mediana das projeções para os próximos 12 meses avançou 0,2 ponto percentual, para 3,7%, maior nível desde setembro de 2023. Para o horizonte de três anos, a expectativa também subiu 0,2 ponto percentual, para 3,3%, maior patamar desde junho de 2022, enquanto a projeção para cinco anos permaneceu em 3%.
Para os investidores, os impactos vão além da taxa de câmbio. Juros elevados nos Estados Unidos afetam aplicações internacionais, renda fixa, mercado de capitais e estratégias de proteção patrimonial, reforçando a necessidade de carteiras mais diversificadas para enfrentar períodos de maior volatilidade.
Para Adriano Murta, advogado tributarista especializado em investimentos internacionais e estruturação patrimonial global, o impacto das decisões do banco central americano vai muito além da definição da taxa de juros.
“Mesmo em um contexto de estabilização das taxas, o Federal Reserve continua sendo o principal termômetro para os mercados financeiros. O que influencia os investidores não é apenas o nível atual das taxas, mas principalmente as expectativas sobre os próximos movimentos da autoridade monetária americana.”
Nunca foi tão fácil ficar atualizado sobre finanças, economia e investimentos. Assine gratuitamente
Murta avalia que qualquer sinalização sobre cortes, manutenção ou novas elevações de juros impacta diretamente o fluxo internacional de capital, o comportamento do dólar, o preço dos ativos e o apetite ao risco dos investidores em todo o mundo.
“Em um ambiente global altamente integrado, a comunicação do Fed continua sendo um dos principais direcionadores dos mercados,” complementa.
Presidente do Fed de Nova York reforça preocupação com a inflação
A preocupação do Banco Central americano com a inflação também foi destacada pelo presidente do Fed de Nova York, John Williams, durante evento promovido pela instituição nesta quinta-feira (9). Segundo Williams, a inflação continua muito elevada nos Estados Unidos e, caso os índices de preços fiquem acima de sua estimativa, a política monetária terá de ser reajustada.
O dirigente afirmou ainda que os principais riscos para o Fed continuam concentrados na inflação, enquanto o mercado de trabalho permanece estável. Ao mesmo tempo, disse que ainda não observa efeitos secundários decorrentes da alta dos preços e que, apesar das incertezas envolvendo o petróleo, acredita que os preços da energia estão próximos do pico e tendem a recuar.
Ata revela Fed dividido sobre o rumo dos juros
As incertezas também ficaram evidentes na ata da reunião do Federal Reserve realizada nos dias 16 e 17 de junho, divulgada na quarta-feira (8). Na ocasião, os dirigentes decidiram, por unanimidade, manter a taxa básica de juros entre 3,5% e 3,75% ao ano.
O documento mostra que os integrantes do Banco Central discutiram cenários bastante diferentes para a economia americana. De um lado, alguns dirigentes avaliaram que a inflação poderá continuar desacelerando, abrindo espaço para uma redução dos juros; de outro, parte dos membros demonstrou preocupação de que os preços continuem pressionados, cenário que poderia exigir uma política monetária mais rígida e até novas elevações das taxas.
“Muitos participantes indicaram que o nível adequado da taxa dos Fed Funds estaria dentro ou ligeiramente abaixo da faixa atual no fim deste ano”, informou a ata.
Ao mesmo tempo, “muitos outros participantes avaliaram que o nível apropriado estaria acima da faixa atual no fim do ano”, complementou o documento.
Na prática, a divisão mostra que o Fed ainda não definiu uma direção para a política monetária e deverá continuar avaliando os próximos indicadores econômicos antes de decidir entre elevar ou reduzir os juros.
Mercado aposta em manutenção em julho
Apesar das divergências entre os dirigentes, investidores ainda não esperam mudanças na taxa básica na próxima reunião do banco central americano.
Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, após as falas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump nesta semana sobre o encerramento do acordo de cessar-fogo com o Irã, e a divulgação da ata do Fomc, o mercado atribui 69% de probabilidade de manutenção dos juros na faixa entre 3,5% e 3,75% ao ano na reunião de julho.
A expectativa predominante continua sendo de apenas uma alta dos juros nos Estados Unidos ao longo deste ano. A chance de uma elevação de 0,25 ponto percentual em julho, levando a taxa para o intervalo entre 3,75% e 4% ao ano, é de 31%.
Para setembro, porém, o cenário muda. As apostas apontam 68,9% de probabilidade de aumento dos juros, sendo que 51,9% do mercado projeta a taxa entre 3,75% e 4% ao ano após a reunião.
Diferencial de juros continua no radar
Outro tema que segue acompanhando as decisões do Federal Reserve é o diferencial entre as taxas de juros praticadas no Brasil e nos Estados Unidos. Embora esse cenário continue favorecendo determinadas estratégias financeiras, Murta afirma que esse não deve ser o único fator considerado pelos investidores.
“O diferencial de juros continua sendo um fator relevante, mas o carry trade depende de um conjunto mais amplo de variáveis. Além da diferença entre as taxas de juros, investidores avaliam fatores como risco fiscal, estabilidade política, perspectiva de crescimento econômico e comportamento do câmbio.”
Murta explica que, “em momentos de maior incerteza global, mesmo países com juros elevados podem sofrer saída de capital caso o risco percebido aumente. Portanto, embora o diferencial continue favorecendo o Brasil em determinados momentos, a estratégia exige cautela e análise constante do cenário macroeconômico”.
Segundo o especialista, além das decisões do Fed, o comportamento do dólar ao longo do segundo semestre também deverá refletir fatores como a situação fiscal brasileira, as tensões geopolíticas e o ritmo da economia mundial.
Diversificação internacional ganha espaço
Em meio a esse ambiente de incerteza, Murta defende que estratégias de proteção cambial façam parte de um planejamento patrimonial de longo prazo, voltado à preservação do patrimônio e à redução da concentração de riscos.
“A principal estratégia continua sendo a diversificação internacional. Ter parte do patrimônio exposta a ativos dolarizados ajuda a reduzir a concentração de risco em uma única economia e cria uma proteção natural contra oscilações cambiais. Além disso, investimentos internacionais permitem acesso a diferentes setores, mercados e moedas, ampliando a resiliência da carteira”.
Segundo o especialista, a proteção cambial não deve ser vista como uma aposta na alta do dólar, mas como um instrumento de preservação patrimonial e gestão de risco de longo prazo.
Com o Federal Reserve ainda sem uma direção definida para a política monetária, a expectativa é de que suas decisões continuem exercendo papel central sobre os mercados globais no segundo semestre.
Nesse cenário, estratégias baseadas em diversificação internacional, gestão de riscos e planejamento patrimonial tendem a ganhar importância para investidores que buscam preservar patrimônio, reduzir a concentração de riscos e atravessar diferentes ciclos econômicos com maior segurança.











