Uma ação coordenada envolvendo ao menos 46 perfis em redes sociais promoveu, ao longo de aproximadamente 36 horas, uma série de publicações críticas ao Banco Central (BC) e a agentes públicos ligados à liquidação do Banco Master, apontam publicações da Folha de S.Paulo e Estadão desta quarta-feira (7).
As mensagens passaram a circular de forma simultânea e concentrada, questionando decisões adotadas pelo regulador, além da atuação de entidades representativas do sistema financeiro, como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
A liquidação do Banco Master foi determinada em novembro pelo Banco Central e segue sob análise do Tribunal de Contas da União (TCU).
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Conteúdo parte de perfis fora do debate econômico
Segundo o jornal, parte relevante dos perfis mobilizados não atua na cobertura de temas financeiros. São páginas voltadas a entretenimento, celebridades e fofocas, que passaram a publicar conteúdos sobre o caso Master sem histórico de atuação no debate econômico.
Essas contas divulgaram mensagens com críticas ao processo de liquidação e ao veto à tentativa de compra do banco pelo Banco de Brasília (BRB), operação analisada e rejeitada pelo Banco Central.
Ex-dirigente do BC é o maior alvo dos ataques
Conforme apurado pelo Estadão, embora postagens mencionem o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o presidente da Febraban, Isaac Sidney, o foco principal das publicações recaiu sobre o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, Renato Dias Gomes.
Foi a diretoria comandada por Gomes que recomendou o bloqueio da operação de venda do Master ao BRB. Os fundamentos técnicos desse parecer também embasaram informações posteriormente encaminhadas ao Ministério Público Federal.
A intensificação das publicações ocorreu em paralelo à disputa judicial travada no Supremo Tribunal Federal (STF) e no TCU entre investigadores do caso e a defesa do Banco Master.
Pressão a Renato Gomes antes do ataque nas redes sociais
Antes da decisão definitiva do Banco Central, a imagem de Renato Gomes foi exibida em outdoors instalados em Brasília, em uma tentativa de pressão pela decisão pró Banco Master.
O episódio acabou fortalecendo o alinhamento interno no colegiado do BC, que decidiu de forma unânime pelo veto à operação em setembro.
Gomes deixou o cargo no fim de dezembro. Procurado, ele não comentou publicamente os ataques. A pessoas próximas, afirmou que não vê sentido em responder ao conteúdo divulgado nas redes.
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Publicações citam insegurança e o mercado de crédito
Em uma postagem realizada no dia 2 de janeiro, o perfil @divasdohumor afirmou que a atuação de Gomes no Banco Central teria resultado em instabilidade no sistema financeiro. O conteúdo menciona alterações frequentes em regras, interpretações variáveis de normas e ausência de sinalização clara ao mercado.
“O papel do Banco Central é reduzir incertezas. Quando decisões são mal explicadas, o efeito se espalha por todo o sistema, atingindo grandes instituições e também o crédito na ponta”, afirma a publicação.
O mesmo perfil é alheio a discussões do mercado financeiro e costuma alternar conteúdos sobre celebridades e entretenimento.
Febraban identifica movimentação fora do padrão sobre o Banco Master
Em meio aos ataques nas redes sociais, a Febraban detectou um volume incomum de postagens citando a entidade no fim de dezembro. Segundo a federação, está em curso uma análise para verificar se houve uma ação articulada contra a instituição.
“A Febraban está analisando se as postagens identificadas naquele período caracterizariam ou não eventual ataque coordenado à entidade”, informou em nota. A federação acrescentou que, nos dias seguintes, houve redução relevante desse fluxo de publicações.
A entidade esclareceu ainda que realiza monitoramento periódico de menções ao setor bancário e à sua atuação, mas que os levantamentos têm uso interno e não são divulgados.
Defesa pública pela atuação do Banco Central
No fim de dezembro, a Febraban divulgou, em conjunto com outras entidades do setor financeiro, uma nota em defesa das decisões técnicas do Banco Central no caso Master. O documento ressalta a importância de preservar a autoridade do regulador para evitar um “cenário gravoso de instabilidade”.
O texto foi assinado por instituições como Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Associação Nacional das Instituições de Crédito (Acrefi), Zetta e Confederação Nacional das Instituições Financeiras (Fin).
A manifestação ocorreu às vésperas de uma acareação determinada pelo ministro Dias Toffoli, do STF, envolvendo Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos, e o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. O diretor do BC acabou dispensado da acareação e prestou apenas depoimento.
Participação de agências e perfis de grande alcance em campanha pró Banco Master
Entre os perfis que publicaram conteúdos críticos ao BC e outras entidades estão páginas como @festadafirma e @futrikei. O primeiro perfil divulgou, em 31 de dezembro, informações sobre depoimentos prestados à Polícia Federal por Vorcaro e pelo presidente do BRB.
A página é representada comercialmente pela Banca Digital, que afirmou ter recusado convite para divulgar material sobre o Banco Master. Segundo a empresa, o conteúdo publicado foi orgânico e sem qualquer tipo de remuneração.
Já a página Futrikei, com mais de 25 milhões de seguidores, publicou texto semelhante, afirmando que a acareação não teria apresentado novos fatos relevantes. O perfil é agenciado pelo Grupo Farol.
Outro portal do grupo, o Alfinetada, publicou conteúdo mencionando especulações sobre o futuro profissional de Renato Gomes.
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A reportagem da Folha identificou ainda perfis administrados pela agência Deubuzz que publicaram críticas ao ex-diretor do BC no mesmo dia. As empresas Deubuzz e Grupo Farol não responderam aos questionamentos até o momento.

