O banco digital PicPay estreou nesta quinta-feira (29) na Nasdaq, a bolsa de tecnologia dos Estados Unidos, colocando fim a um intervalo de quatro anos sem ofertas públicas iniciais (IPO, na sigla em inglês) de empresas brasileiras. As ações da companhia passaram a ser negociadas sob o ticker PICS NVA.
Na operação, o PicPay captou US$ 434 milhões com a emissão de aproximadamente 22,9 milhões de ações. Com o IPO, a empresa já inicia sua trajetória no mercado acionário avaliada em cerca de US$ 2,6 bilhões.
Segundo informações do BDM/PicPay, o volume financeiro da oferta pode alcançar US$ 500 milhões, considerando a opção adicional concedida aos subscritores.
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William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, avalia o IPO do PicPay como um movimento interessante de atrair investidores através do mercado americano, considerando o momento em que o mercado questiona o papel dos Estados Unidos, a falência do dólar, interferência de Donald Trump na economia e rumores em relação ao país.
“As empresas brasileiras optam por esse caminho principalmente pela liquidez do mercado, sendo este o maior mercado do mundo, com valuations mais elevados e considerando o acesso a um amplo universo de investidores institucionais e internacionais. Estando no mercado americano, você atrai investidores do mundo inteiro”, explica.
“A gente fala muito dos Estados Unidos, mas a verdade é que é um mercado global. A gente tem mais de 1.300 empresas de fora dos Estados Unidos que estão listadas nas bolsas americanas, além de bonds, alternativas renda fixa e fundos do mundo inteiro que são negociados nos Estados Unidos. Então quando a gente fala dos Estados Unidos, está falando do mundo”.
Preço da ação e estrutura da oferta do PicPay
De acordo com a Reuters, as ações foram precificadas a US$ 19, no teto da faixa indicativa, que variava entre US$ 16 e US$ 19. Com esse preço, a avaliação de mercado da companhia pode variar entre US$ 2,2 bilhões e US$ 2,6 bilhões, dependendo do comportamento dos papéis após a estreia.
Os subscritores receberam uma opção de 30 dias para adquirir 3,4 milhões de ações adicionais ao preço do IPO. Caso essa opção seja integralmente exercida, o valor total da transação pode chegar a aproximadamente US$ 500 milhões, conforme informado pela empresa.
A oferta pública inicial foi liderada pela Bicycle Capital, gestora de capital de crescimento com foco na América Latina. Um fundo de crescimento liderado por ex-executivos da SoftBank, incluindo o bilionário boliviano Marcelo Claure, comprometeu-se a investir US$ 75 milhões na oferta, segundo comunicado.
O Citigroup, o BofA Securities e o RBC Capital Markets atuaram como coordenadores globais da operação.
Destinação dos recursos do IPO
Segundo o PicPay, os recursos captados serão destinados a capital de giro, despesas operacionais, cumprimento de exigências regulatórias e ao financiamento da aquisição da Kovr Seguradora.
A fintech informou no prospecto do IPO que a compra da Kovr, que anteriormente pertencia ao Banco Master, ainda depende de aprovação.
A empresa destacou ainda que, mesmo após o Master vender a seguradora para executivos da companhia, a operação pode ser impactada pelo processo de liquidação do banco.
Movimento estratégico no mercado internacional
Nesse contexto das ofertas de ações nos Estados Unidos, Alves pontua que nos últimos três anos, europeus têm comprado mais ações negociadas no mercado americano, movimento que representa um avanço de 91% no período.
“Um grupo seleto composto por Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Holanda, entre outros países, detêm praticamente metade de tudo aquilo que pertence a investidores estrangeiros, em relação ao que está negociado no mercado americano”, destaca.
Em relação aos rumores sobre o mercado americano, Alves pontua: “o investimento em ações americanas não diminuiu, pelo contrário, ele vem aumentando… a gente viu um recorde de 1.6 trilhões de dólares de fluxo entrando desde 2020 para o Brasil. A ponto de comparação, o resto do mundo recebeu um fluxo de 400 bilhões de dólares que foram alocados em ações. Isso dá a noção da tamanha dominância do mercado americano em contexto global. Então, não é à toa que as empresas brasileiras buscam esse acesso”.
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PicPay marca o retorno das empresas brasileiras ao mercado
O IPO do PicPay representa a primeira estreia relevante de uma empresa brasileira desde dezembro de 2021, quando a Nu Holdings, controladora do Nubank, abriu capital na Bolsa de Valores de Nova York. Atualmente, o Nubank possui valor de mercado estimado em US$ 90,7 bilhões.
A operação ocorre em um contexto de maior demanda por ativos de mercados emergentes, movimento que contribuiu para levar a Bolsa brasileira a níveis elevados.
Participantes do mercado avaliam que, apesar do custo mais elevado de manutenção, a abertura de capital nos Estados Unidos facilita a captação de recursos junto a investidores internacionais.
Resultados financeiros sustentaram a listagem
O pedido para realizar o IPO na Nasdaq foi protocolado em 5 de janeiro. A iniciativa ocorreu após o PicPay registrar lucro de R$ 313,8 milhões nos nove meses encerrados em 30 de setembro de 2025, ante R$ 172 milhões no mesmo período do ano anterior.
A receita total da companhia avançou de R$ 3,78 bilhões para R$ 7,26 bilhões no período. O número de clientes ativos também cresceu, passando de 37,5 milhões para 42,1 milhões em setembro de 2025.
Em outro recorte, a fintech reportou lucro líquido de R$ 270,4 milhões nos nove meses até setembro, sobre uma receita de R$ 7,26 bilhões, ante lucro de R$ 150,8 milhões e receita de R$ 3,78 bilhões no mesmo intervalo do ano anterior.
Base de clientes e posição do PicPay no mercado
O PicPay encerrou dezembro com 67 milhões de contas abertas, crescimento de 11% em relação ao ano anterior. Segundo dados do Banco Central, a fintech ficou atrás apenas do Nubank e do Mercado Pago em número de clientes naquele mês.
Ao contrário de alguns concorrentes, o PicPay atua exclusivamente no mercado brasileiro, ampliando sua presença por meio da expansão de linhas de negócio, e não por meio de operações internacionais.
Evolução do modelo de negócios
Fundado em 2012, na cidade de Vitória (ES), o PicPay surgiu como uma carteira digital em um período em que transferências bancárias ainda não eram amplamente acessíveis no país. A empresa passou a operar como banco completo após a obtenção de licença bancária.
O negócio ganhou escala durante a pandemia da Covid-19, quando aumentou a adoção de serviços financeiros digitais no Brasil. Atualmente, a fintech atende pessoas físicas e pequenas e médias empresas (PMEs).
A companhia afirmou que uma maior adoção de produtos de crédito por sua base de clientes deve ser uma das principais alavancas de crescimento nos próximos anos, e que os recursos do IPO devem apoiar essa estratégia.
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Controle acionário
A listagem na Nasdaq consolida o controle dos irmãos Wesley e Joesley Batista, que mantêm mais de 90% do poder de voto na empresa.
O PicPay integra o portfólio de negócios da família Batista, que inclui atuação nos setores de alimentos, energia, mineração, fintech, mídia e cosméticos, com presença em pelo menos 20 países.


