O índice de preços ao consumidor (CPI) dos EUA caiu 0,4% em junho, após avançar 0,5% no mês anterior, registrando a primeira deflação mensal desde maio de 2020, ao mesmo tempo em que fortalece a percepção de que o Federal Reserve (Fed) terá menos necessidade de elevar os juros no curto prazo. O resultado também corresponde ao maior recuo do índice desde abril do mesmo ano, quando o CPI caiu 0,8%, segundo dados divulgados pelo Departamento do Trabalho dos Estados Unidos nesta terça-feira (14).
O número surpreendeu o mercado diante das expectativas dos analistas, que esperavam por uma queda mais moderada, de 0,2%. Na comparação anual, a inflação desacelerou para 3,5% nos 12 meses encerrados em junho, após avançar 4,2% em maio — patamar que havia sido o maior desde abril de 2023.
Segundo o relatório, a retração do CPI refletiu principalmente o recuo de 5,7% nos preços da energia em junho, após um cessar-fogo considerado frágil entre Estados Unidos e Irã no mês passado, que havia reduzido a pressão sobre o mercado de energia. O movimento foi suficiente para compensar os aumentos registrados em outras categorias, entre elas habitação e alimentação.
O índice de alimentos avançou 0,2% no mês. A mesma variação foi observada tanto nos preços dos alimentos consumidos em casa quanto nas refeições realizadas fora do domicílio.
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Para Andressa Durão, economista do ASA, a desaceleração da inflação não relacionada ao conflito no Oriente Médio é uma notícia positiva, após vários meses de inflação de serviços pressionada.
Ela também reforça que o resultado do CPI de junho aponta para a adoção de maior cautela por parte do Fed, ainda que seja “cedo para assumir uma reversão do movimento de persistência da inflação apenas com um único dado”, uma vez que os dados sugerem que o Fed espere por mais informações antes de agir.
Núcleo do CPI também fica abaixo das expectativas
O núcleo do CPI, indicador que exclui alimentos e energia por serem itens mais voláteis e utilizado para medir a tendência da inflação, também apresentou resultado mais fraco do que o esperado. Na comparação mensal, o núcleo ficou estável em junho, após alta de 0,2% em maio, enquanto a expectativa do mercado era de novo avanço de 0,2%.
Em relação ao mesmo período do ano anterior, o núcleo acumulou alta de 2,6%, abaixo do consenso de 2,9%.
Andressa Durão avalia que a desaceleração em Serviços foi disseminada e que a medida “supercore”, que exclui a parte da inflação relacionada a aluguéis, surpreendeu ainda mais para baixo, uma vez que aluguéis vieram praticamente em linha, enquanto várias outras categorias de serviços, como hospedagem fora de casa, seguro de veículos, serviços de tecnologia, serviços médicos e passagens aéreas, exerceram pressão baixista.
Segundo a economista, as casas estão revisando suas estimativas de core PCE para o mês de junho para baixo após a divulgação do CPI. No entanto, pontua que nesse momento é importante aguardar a divulgação do PPI, previsto para esta quarta-feira (15), para consolidar as estimativas, já que o número pode alterar a direção das revisões.
Dados aliviam apostas sobre os juros do Fed
A divulgação de uma inflação abaixo das projeções reduziu as expectativas de novos aumentos dos juros americanos no curto prazo e provocou uma ampla valorização dos títulos de renda fixa.
Nos Estados Unidos, o rendimento da T-note de dois anos recuava de 4,296% para 4,191%, enquanto o da T-note de dez anos caía de 4,620% para 4,571%.
O movimento refletiu a avaliação de que uma inflação menos pressionada diminui a necessidade de uma política monetária mais restritiva por parte do Fed.
A reação também foi imediata no câmbio. O dólar renovou a mínima do dia no mercado à vista e chegou a R$ 5,07. Antes mesmo da divulgação do CPI, a moeda americana já perdia força frente ao real em meio ao enfraquecimento do dólar no exterior e à queda dos rendimentos dos Treasuries.
Após a divulgação dos dados de inflação, tanto o índice cheio quanto o núcleo vieram abaixo das previsões, ampliando o movimento de baixa da moeda americana, mesmo com a permanência das incertezas geopolíticas.
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, avalia que embora os dados de inflação tenham trazido algum alívio, é improvável que mudem a atual interpretação acerca dos juros nos EUA, de que haja um aumento nos próximos meses, uma vez que o Banco Central segue inclinado a elevar sua taxa básica em setembro, após manter o tom duro sobre a necessidade de controlar a inflação.
O especialista sustenta sua análise no discurso recente do governador Christopher Waller, de que seriam necessários vários meses de leituras positivas para confirmar o retorno sustentável à meta de 2%, enquanto o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, reforça que o controle da inflação é a prioridade máxima da instituição.
Dessa forma, segundo Alves, o mercado deve precificar manutenção da taxa na reunião de julho (atualmente em 3,5% – 3,75%) e alta de 25 pontos-base em setembro.
Juros futuros revelam impacto no Brasil
No mercado doméstico, os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) também reagiram à divulgação do CPI americano.
Por volta das 9h45, o DI para janeiro de 2027 recuava de 13,945%, no ajuste da véspera, para 13,92%. O contrato para janeiro de 2028 caía de 14,01% para 13,935%.
Nos vencimentos mais longos, o DI para janeiro de 2029 recuava de 14,195% para 14,095%, enquanto o contrato de janeiro de 2031 passava de 14,365% para 14,255%.











