O número de empresas em recuperação judicial no Brasil atingiu novo recorde no primeiro trimestre. Neste ano, ao todo, 5.931 companhias estavam em processo de reestruturação até o fim de março, marcando um avanço de 4,4% em relação ao trimestre anterior e de 22% na comparação com o mesmo período do ano passado.
Entre janeiro e março, foram deferidos 319 pedidos, que concentram cerca de R$ 18 bilhões em dívidas. Os dados são do Monitor RGF de Recuperação Judicial, da consultoria RGF & Associados. Trata-se da 11ª alta consecutiva desde o início da série histórica, iniciada no segundo trimestre de 2023.
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O índice da RGF, que mede a quantidade de empresas em recuperação a cada mil, subiu de 2,13 para 2,18 nos primeiros meses deste ano, revelando uma proporção ainda baixa. O avanço ocorre mesmo com a expansão da base de empresas ativas, que passou de 2,66 milhões para 2,73 milhões entre 2025 e o início de 2026.
Segundo Roberta Gonzaga, consultora da RGF, essa variação entre períodos é comum e depende do porte das empresas envolvidas: “o quarto trimestre [de 2025] foi um ponto fora da curva, não esperamos um movimento de desaceleração contínuo nos próximos meses”, analisa.
Agro lidera pedidos de recuperação judicial
O setor agropecuário segue como o mais pressionado no contexto das recuperações judiciais, com 14,42 empresas em reestruturação a cada mil. Dentro do segmento, a atividade com maior volume de empresas em recuperação é o cultivo de soja, com 243 companhias em recuperação.
A exposição a juros elevados, riscos climáticos, oscilação de preços e necessidade de capital de giro são apontadas como principais fatores de pressão.
Na sequência aparecem a Indústria, com 6,92 empresas por mil, além de construção, energia e saneamento, com 4,08.
Na indústria, três atividades concentram mais empresas em recuperação: confecção de vestuário (46), usinas de açúcar (41) e embalagens plásticas (40). Segundo a RGF, o setor enfrenta compressão de margens e aumento do custo de financiamento.
Já na construção, a incorporação imobiliária se destaca, com 594 empresas em recuperação judicial. O segmento é mais exposto à alta de juros, ao nível de estoques, ao ritmo de vendas e ao longo ciclo de capital.
Com desempenho melhor que a média nacional estão o comércio, com 1,87 empresas por mil e o setor de serviços, com 1,04 a cada mil.
Crédito mais restrito e juros elevados agravam cenário
A manutenção de juros altos continua sendo um fator central para o aumento das recuperações judiciais. Segundo Rodrigo Gallegos, sócio da RGF, o ambiente dificulta o acesso ao crédito.
“As instituições financeiras restringem o crédito quando o juro está muito alto, não porque não tenham dinheiro, mas porque avaliam que é muito mais difícil para a empresa pagar o endividamento”, afirmou.
Além disso, ele destaca que os bancos passaram a exigir mais garantias e impor condições mais rígidas. “O apetite das instituições para correr risco é menor”, disse.
De acordo com Gallegos, a maioria das empresas em recuperação não enfrenta apenas dificuldades financeiras, mas também desafios operacionais. Mesmo aquelas que ainda conseguem financiamento tendem a sofrer no futuro, já que o aumento da dívida reduz margens sem gerar retorno imediato.
Na análise de Daniel Vilas Boas, especialista em contencioso cível do VLF Advogados, o salto histórico nos pedidos de recuperação judicial revela o esgotamento do modelo de endividamento corporativo e impõe uma nova dinâmica de reestruturação para o mercado brasileiro.
Segundo o especialista, o recorde de pedidos de recuperação judicial registrado no primeiro trimestre revela o ápice de um efeito dominó provocado pela manutenção prolongada de juros elevados e pelo encerramento dos prazos de carência de renegociações passadas.
Esse cenário, segundo ele, projeta um restante de ano pautado pela sofisticação do Direito Empresarial, onde a judicialização deixa de ser um estigma para se consolidar como uma ferramenta estratégica de preservação de valor.
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Problema das recuperações judiciais é o atraso
Maria Alice Deucher, advogada do DDSA, avalia que o crescimento das recuperações judiciais vai além do ciclo econômico e reflete problemas mais profundos na gestão financeira das empresas. Segundo a especialista, o problema é o atraso.
“O avanço das recuperações judiciais no Brasil não é surpresa. Mas a forma como ele vem sendo tratado — como mero reflexo do ciclo econômico — revela uma leitura superficial de um problema mais profundo”, analisa.
Segundo ela, muitas companhias chegam à recuperação sem liquidez, utilizando o instrumento apenas como última alternativa. Nesse contexto, Deucher explica que a postergação de decisões, o uso de soluções paliativas e a entrada tardia na recuperação, levam muitos desses processos a terminar em falência.
Na avaliação da especialista, o cenário atual é resultado de um ciclo já conhecido, em que, por anos, o crédito mais acessível permitiu adiar problemas estruturais. Com o encarecimento do crédito e maior restrição por parte dos bancos, essas vulnerabilidades se tornaram mais evidentes.
A advogada destaca ainda que não se trata apenas de um aumento no número de empresas em dificuldade, e ressalta o crescimento de casos envolvendo companhias de maior porte, com impactos relevantes em cadeias produtivas e no sistema financeiro.
Para ela, “o aumento das recuperações judiciais não é o problema em si. É o sintoma de um ambiente que perdeu a capacidade de agir antes do colapso. Quando a recuperação começa tarde demais, muitas vezes já não há o que recuperar”.
Índice de recuperação judicial por região
No recorte regional, São Paulo lidera em número absoluto de empresas em recuperação judicial , com 1.913 casos. Em seguida aparecem Rio Grande do Sul (514) e Paraná (488).
Na análise proporcional, Pernambuco apresenta o maior índice, com 4,24 empresas em recuperação a cada mil. Alagoas (4,14) e Mato Grosso (4,07) vêm logo depois.
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Perspectiva segue pressionada
A tendência para os próximos trimestres ainda é de dificuldade. Especialistas apontam que o cenário só deve melhorar com maior acesso a crédito e fortalecimento financeiro das empresas.
Entre as possíveis medidas estão subsídios para setores mais afetados, como o agronegócio, e programas de incentivo à governança corporativa. Mesmo com a redução da taxa Selic de 15% para 14,75%, avaliam que o impacto deve ser limitado.
Segundo Daniel Villas Boas, a tendência para os próximos meses indica um aumento expressivo nas operações de M&A de ativos estressados, com o uso intensificado de Unidades Produtivas Isoladas (UPIs) e novos mecanismos de financiamento, como o DIP Financing, que devem atrair capital estrangeiro e fundos especializados em situações especiais para oxigenar empresas viáveis, mas momentaneamente ilíquidas.











