Em meio à repercussão sobre os ativos ligados ao Banco Master e ao aumento da pressão sobre o mercado de distribuição de investimentos, o superintendente da Associação Brasileira de Assessores de Investimentos (ABAI), Francisco Amarante, afirma que responsabilizar assessores pelas crises envolvendo instituições financeiras é uma atitude “simplista e covarde”.
Em entrevista exclusiva conduzida pelo CEO do Monitor do Mercado, Marcos de Vasconcellos, ele defende a atuação da categoria, critica a assimetria regulatória entre bancos e assessorias e alerta para a mudança no comportamento do investidor brasileiro, cada vez mais exposto a apostas esportivas e criptoativos.
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Com experiência no mercado financeiro desde os anos 1980 e passagens por instituições como HSBC e CCF, Amarante analisa os impactos do caso Master e as mudanças regulatórias que atingem o setor de assessoria de investimentos.
Decisão final sobre investir ou não cabe ao investidor
Ao comentar as discussões envolvendo ativos do Banco Master e da Reag, Amarante afirma que o assessor atua apenas como parte da distribuição dos investimentos. Segundo ele, a decisão final de aplicação pertence ao investidor.
O executivo ressaltou ainda que o assessor não participa da criação dos produtos financeiros nem da análise de crédito das instituições emissoras.
Amarante compara a situação à compra de um carro com defeito de fábrica, com a perspectiva de que a responsabilidade seria da montadora que produziu o veículo, e não do vendedor responsável pela comercialização.
Na entrevista, o superintendente também salienta que a agência de classificação de risco Fitch Ratings elevou a nota do Banco Master para “A-” no mesmo período em que surgiam denúncias envolvendo a instituição. Para ele, isso demonstra que até especialistas internacionais avaliavam o banco de forma positiva naquele momento.
Diferença de regras entre bancos e assessores evidencia fragilidade na decisão após caso Master
Outro ponto abordado na entrevista foi a diferença regulatória entre assessores de investimentos e grandes bancos.
Amarante afirma que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por meio da Resolução 178, exige que assessores informem de maneira integral quanto recebem em cada oferta de valor mobiliário.
Segundo ele, instituições bancárias não seguem a mesma exigência em produtos bancários, como Certificados de Depósito Bancário (CDBs), que representam parcela relevante das aplicações financeiras no país.
O executivo também destaca avanços obtidos pela ABAI nos últimos anos. Entre eles, citou a alteração oficial da nomenclatura da profissão — de “agente autônomo” para “assessor de investimentos” —, a redução das taxas de fiscalização da CVM e a decisão favorável do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre o enquadramento da categoria no Simples Nacional.
Carreira de assessor muda perfil e enfrenta alta rotatividade
Na entrevista, o superintendente também traçou um panorama da evolução da profissão de assessor de investimentos no Brasil e afirmou que o setor vive uma nova fase, marcada pela digitalização e pela entrada de profissionais mais jovens.
Segundo ele, a atividade passou por três etapas ao longo das últimas décadas. A primeira, chamada de “AI 1.0”, surgiu nos anos 1960 e era concentrada na execução de ordens de compra e venda de ações na Bolsa. Já a fase “AI 2.0”, que avançou até 2007, ampliou a atuação para a distribuição de produtos bancários e financeiros.
Na avaliação de Amarante, o mercado vive atualmente o ciclo “AI 3.0”, caracterizado pela presença de profissionais com formação universitária, perfil comercial e forte integração com tecnologia.
O executivo destaca que o número de assessores cresceu de cerca de 4,5 mil profissionais em 2015 para aproximadamente 28 mil atualmente, mas, apesar da expansão, a taxa de desistência ainda é elevada.
De acordo com Amarante, entre 20% e 30% dos novos profissionais cancelam o registro em menos de dois anos. Segundo ele, muitos ingressam na atividade sem o perfil empreendedor necessário para uma carreira baseada em meritocracia, performance e remuneração variável, sem salário fixo.
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Raio-X do investidor brasileiro
Amarante também comentou o comportamento do investidor brasileiro com base em dados do estudo “Raio-X da Anbima”, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais.
Segundo ele, apesar de o brasileiro ainda manter perfil conservador — com 25% dos poupadores concentrados na caderneta de poupança, cresce o interesse por aplicações consideradas mais arriscadas.
Os números citados mostram que apenas 3% dos brasileiros investem em ações, enquanto cerca de 15% participam semanalmente de apostas esportivas, conhecidas como “bets”, e outros 15% aplicam em criptoativos.
Na avaliação do superintendente da ABAI, esse movimento reflete uma busca por ganhos rápidos diante da percepção de baixa mobilidade social e dificuldade de construção gradual de patrimônio.
Assista à entrevista completa de Francisco Amarante ao Monitor do Mercado e veja os bastidores da disputa regulatória que movimenta o mercado financeiro:











