Por Renato Polizzi*
O período áureo da cultura de cacau no País ocorreu nas décadas de 1960 a 1980, com a produção anual chegando a cerca de 400 mil toneladas. O Brasil era o segundo no ranking com 25% do mercado global e tinha sua produção concentrada no sul da Bahia.
Esse protagonismo se perdeu nos anos 1990 quando a vassoura-de-bruxa devastou plantações e reduziu a produção em cerca de 70%. O colapso brasileiro coincidiu com o avanço dos países da África Ocidental — principalmente Costa do Marfim e Gana — que passaram a responder por cerca de 65% da oferta global.
A cadeia de produção global naturalmente se adaptou a essa nova realidade e se organizou para processar a amêndoa de origem majoritariamente africana em grandes complexos industriais na Europa. Os produtos desse processamento (liquor, manteiga de cacau e pó de cacau) eram, então, enviados às fábricas de produtos finais – o chocolate, entre outros – e daí distribuídos mundo afora.
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Durante décadas, este sistema pareceu estável: a África Ocidental consolidou sua posição como principal fornecedora global, enquanto Europa e Estados Unidos concentravam o processamento industrial e as grandes marcas de chocolate. Mas essa lógica começou a se romper.
A ruptura
Uma ruptura dessa cadeia produtiva, entretanto, está atualmente em curso. Dois fatores principais explicam este processo: queda na produção africana e o foco em “Chocolate de Origem”.
A queda na produção africana deve-se a alguns fatores: árvores envelhecidas e de baixa produtividade, pragas (como o vírus do swollen shoot e o fungo black pod) e condições climáticas. Gana e Costa do Marfim (então responsáveis por aproximadamente metade da produção mundial) perderam cerca de 20 a 25% do seu volume de produção.
Ao mesmo tempo, secas, excesso de chuvas e doenças reduziram drasticamente a produtividade nestes dois países. O resultado foi simples: o mundo passou a produzir menos cacau justamente quando o consumo global continuava crescendo. Os preços dispararam e chegaram a ultrapassar US$ 11 mil por tonelada em 2024, o maior patamar em décadas.
O foco em Chocolate de Origem também levou fabricantes locais a usarem a amêndoa in loco, reduzindo ainda mais as exportações africanas. Como consequência destes dois fatores, o fluxo de amêndoas da África para a Europa diminuiu consideravelmente e as cadeias produtivas baseadas no processamento europeu não estão mais sendo abastecidas como antes.
O mercado então percebeu um risco perigoso: depender demais de poucos países para abastecer quase todo o cacau do planeta. Grandes indústrias passaram a buscar fornecedores mais confiáveis, capazes de garantir produção estável, rastreável e menos vulnerável a crises.
Em contrapartida – e também como consequência – a produção na América Latina vem crescendo e espera-se um incremento de cerca de 600 mil toneladas nos próximos anos, algo como 15% da produção global atual. Esse aumento levaria o continente americano a responder por cerca de um terço da produção global, acima dos 23% que representa hoje.
A oportunidade: uma avenida de crescimento única para o Brasil e a América Latina
Agora, décadas depois de perder seu protagonismo, o cenário internacional cria uma oportunidade rara de reposicionamento do Brasil.
O Brasil possui todos os atributos necessários para voltar a ser um protagonista mundial no segmento: terra disponível já aberta, cultura do agro extremamente desenvolvida e focada em eficiencia, tecnologia e produtividade, capacidade industrial instalada, tradição na produção de chocolates, tanto premium quanto de consumo de massa; mercado local expressivo e plantações crescentes de cacau.
Enquanto a África exporta quase todo o cacau em grão, o Brasil processa internamente e exporta derivados e chocolates para 135 países.
O setor movimenta cerca de R$ 21 bilhões anuais, emprega mais de 200 mil pessoas e abriga gigantes como Barry Callebaut, Cargill, Olam e IBC. Desta forma, o País tem a chance de aprimorar e expandir sua capacidade de processamento e de produção de produtos finais: fábricas novas, eficientes e focadas na nova dinâmica da produção atual.
A reconfiguração geográfica interna também é clara: o Pará, segundo maior Estado produtor (36% do total nacional), vem ganhando um espaço tradicionalmente ocupado pela Bahia – ainda líder – com um sistema moderno, que combina sistemas agroflorestais e recuperação de pastagens degradadas.
Existe ainda um diferencial raramente percebido fora do setor: escala. Diferentemente de muitos países tropicais, o Brasil possui capacidade de expandir produção mantendo integração logística, escala industrial e ganhos de produtividade. Isso permite imaginar algo raro na economia verde global: crescimento agrícola relevante combinado à recuperação ambiental.
Expansão com o Plano Inova Cacau 2030
O Plano Inova Cacau 2030 prevê a expansão de 120 mil hectares nessas áreas, com rastreabilidade e práticas de baixo impacto ambiental — uma vantagem competitiva crucial diante das exigências da União Europeia, que passará a barrar importações de produtos ligados ao desmatamento.
As projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), segundo o relatório Brazil’s Role in the Global Cocoa Landscape, publicado em agosto) indicam que o Brasil pode chegar a 13% da produção global até o fim da década, o que equivaleria a 500–600 mil toneladas/ano e US$ 2,3 bilhões em receitas.
É uma meta ambiciosa, mas viável. O País possui terras disponíveis, clima favorável e base tecnológica sólida (com destaque para a CEPLAC e a Embrapa). Além disso, está alinhado às normas ambientais e de rastreabilidade que tendem a moldar o novo comércio global do cacau.
O movimento global cria uma oportunidade rara para o Brasil. O cacau também une sustentabilidade, valor agregado e inserção industrial — um tripé cada vez mais valorizado nos mercados internacionais.
A exemplo disso, regulações como a nova lei europeia antidesmatamento, conhecida como EUDR, devem acelerar essa transformação. A regra exigirá comprovação detalhada da origem ambiental dos produtos agrícolas importados pela Europa. Isso tende a favorecer países, como o Brasil, capazes de demonstrar rastreabilidade e controle territorial mais robustos.
Nesse ambiente, o Brasil não compete apenas por produtividade ou custo. Compete pela capacidade de entregar produto com regularidade, rastreabilidade e menor risco ambiental.
Somando-se a isso tudo, também se observam movimentos estratégicos interessantes ocorrendo na América Latina. Organismos multilaterais e de desenvolvimento estão investindo no setor na região, seja via investimento direto em atores privados, seja em recursos destinados aos governos para que possam, por sua vez, financiar os produtores locais.
Essa combinação virtuosa entre o privado e o público, aliada à ruptura na cadeia produtiva, abre uma avenida de crescimento para o setor na região e os seus principais agentes.
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O mundo procura novas origens confiáveis para alimentos estratégicos. O Brasil talvez seja um dos poucos países capazes de oferecer escala, produtividade e sustentabilidade ao mesmo tempo.
No cacau, essa combinação pode transformar uma antiga commodity agrícola em uma das grandes teses globais de investimento da próxima década.
Se os principais agentes conseguirem aproveitar o momento, obtiverem acesso a capital e focarem em produtores sustentáveis, o cacau pode se tornar um novo símbolo do agro brasileiro. O desafio é grande, mas o potencial é ainda maior.
*Renato Polizzi é sócio da One Partners











