A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (27) a proposta que reduz a jornada semanal de trabalho para 40 horas e amplia o descanso para dois dias consecutivos, encerrando o modelo tradicional da escala 6×1 para grande parte dos trabalhadores regidos pela CLT.
Agora, a PEC seguirá para o Senado, onde precisará passar primeiro pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de ser votada em plenário. Caso o texto avance sem alterações, parte das novas regras começará a valer 60 dias após a promulgação da emenda constitucional.
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A discussão, que até então estava concentrada no campo político e trabalhista, passou a influenciar diretamente a forma como investidores analisam empresas listadas na Bolsa.
O foco do mercado está nos impactos sobre custos operacionais, margem de lucro, produtividade e geração de caixa, principalmente em setores intensivos em mão de obra, como varejo, supermercados, farmácias, logística, restaurantes, saúde e serviços terceirizados.
Esses segmentos operam com equipes numerosas, horários estendidos e funcionamento contínuo, o que amplia a sensibilidade a mudanças na jornada de trabalho.
Fim da escala 6×1 deve pressionar EBITDA e despesas operacionais
Para investidores e analistas, a principal preocupação está no aumento do custo por hora trabalhada em empresas mais dependentes de operação presencial.
A avaliação predominante no mercado é que companhias com margens mais apertadas podem enfrentar pressão relevante sobre EBITDA — indicador usado para medir o resultado operacional das empresas —, além de aumento de despesas operacionais e possível perda de produtividade caso seja necessário ampliar equipes para manter o mesmo nível de operação.
Os primeiros impactos, segundo analistas, tendem a aparecer em setores como varejo físico, atacarejo, supermercados, farmácias, hospitais, operadores logísticos, companhias aéreas e empresas de limpeza e facilities.
O mercado também passou a acompanhar possíveis efeitos indiretos da proposta, como desaceleração de expansão, revisão de guidance — projeções financeiras divulgadas pelas companhias —, aumento de provisões trabalhistas e maior pressão sobre eficiência operacional.
Estudos estimam que o fim da escala 6×1 traz impacto bilionário para empresas
Segundo Leandro Bocchi, advogado trabalhista do Calcini Advogados, estudos debatidos no setor estimam impacto potencial de até R$ 267,2 bilhões para as empresas brasileiras, especialmente as de pequeno porte.
Há ainda análises econômicas que projetam aumento de até 13% nos preços em determinados segmentos diante da necessidade de contratação adicional, reorganização de escalas e eventual repasse de custos ao consumidor.
Ao mesmo tempo, Bocchi afirma que a redução da jornada é considerada viável e que o debate deve envolver diferentes setores da sociedade.
“É importante destacar que a redução da escala 6×1 é considerada viável, o que reforça a necessidade de um debate amplo e participativo envolvendo toda a sociedade”, afirmou.
RD Saúde já implementou escala 5×2
O debate sobre jornada de trabalho já começou dentro das próprias empresas. Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo mostrou que a RD Saúde (RADL3), dona das redes Raia e Drogasil, implementou escala 5×2 em mais de 3.500 lojas como estratégia para retenção de talentos e redução da rotatividade.
Segundo a reportagem, a companhia conseguiu absorver a mudança mantendo a jornada semanal de 44 horas sem aumento imediato de custos. Uma eventual redução para 40 horas semanais, porém, poderia elevar as despesas operacionais em cerca de 10%, segundo estimativas da própria empresa.
Antonio Carlos Pipponzi afirmou ao jornal que o impacto no varejo poderia chegar entre 15% e 20% dos custos operacionais caso não haja repasse de preços ou redução dos horários de funcionamento.
Empresários defendem tramitação mais lenta
Entidades empresariais também passaram a pressionar por uma tramitação mais lenta da proposta. Em carta divulgada pelo sistema associativo empresarial liderado pela Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil, empresários defenderam que a discussão seja adiada para 2027.
O documento afirma que o tema exige “serenidade para ouvir todos os envolvidos” e alerta para impactos sobre emprego, pequenos negócios e crescimento econômico.
A carta também critica a possibilidade de tramitação acelerada da proposta e afirma que mudanças dessa magnitude exigem participação mais ampla do setor produtivo.
O que investidores devem observar agora
No mercado financeiro, a expectativa é que os efeitos da discussão apareçam gradualmente nos próximos balanços corporativos e teleconferências com investidores.
Analistas devem acompanhar os seguintes pontos:
- Evolução da despesa com pessoal
- Pressão sobre margem operacional
- Crescimento de contingências trabalhistas
- Revisão de projeções
- Aumento de gastos com automação e eficiência operacional
O tema também pode acelerar movimentos já em curso em diversos setores, como digitalização de processos, expansão do autoatendimento e uso de inteligência artificial para reduzir dependência de mão de obra em atividades repetitivas.
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Fim da escala 6×1 pode aumentar litígios trabalhistas
Além da questão operacional, especialistas alertam para o risco de aumento de disputas trabalhistas durante a adaptação ao novo modelo.
“O maior risco não está na nova regra em si, mas na forma como as empresas vão fazer essa transição”, afirmou Willian Oliveira, especialista em Relações do Trabalho no Bruno Freire Advogados.
Segundo ele, mudanças mal conduzidas em banco de horas, horas extras e compensações podem ampliar passivos trabalhistas nos próximos anos.











