Um ano após entrar em vigor, o crédito consignado privado, popularmente chamado de Crédito do Trabalhador, apresenta um cenário de contrastes. Enquanto a modalidade ganhou escala, atraiu mais bancos e ampliou o acesso ao financiamento, os trabalhadores passaram a contratar empréstimos de menor valor.
Levantamento inédito da Serasa Experian mostra que o valor médio das operações caiu 73% no período, passando de R$ 8,6 mil para R$ 2,3 mil, diante do aumento no número de contratos e na participação de instituições financeiras disputando esse mercado.
Ao mesmo tempo, o consignado privado passou a alcançar um público com histórico mais limitado de acesso ao crédito e com elevado nível de endividamento. O cenário levanta questionamentos sobre a qualidade das novas concessões, em um momento em que a inadimplência da modalidade também apresenta avanço, segundo dados do Banco Central.
Os dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) apontam que a taxa média de juros do consignado para trabalhadores com carteira assinada está em 3,2% ao mês. Apesar de ser menor que a observada em outras modalidades de crédito, ela ainda supera 110% ao ano.
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Volume de empréstimo disparou após criação do consignado privado
Segundo dados do Banco Central, o volume mensal liberado por meio do consignado privado saltou de R$ 1,5 bilhão para quase R$ 11 bilhões após a implementação do Crédito do Trabalhador.
O crescimento também aparece no estoque total da modalidade. De acordo com o BC, o saldo do consignado privado alcançou R$ 110 bilhões em março, ante pouco mais de R$ 41 bilhões registrados no ano anterior.
Ao mesmo tempo, a pesquisa da Serasa Experian identificou mudanças na estrutura das operações. O prazo médio dos contratos recuou 48% após a criação do programa, enquanto o número médio de instituições financeiras ofertando crédito por empresa aumentou de quatro para 21.
Segundo a Serasa, esse movimento indica maior concorrência entre os bancos e uma pulverização das concessões de crédito entre as instituições financeiras. Com mais participantes disputando espaço nesse mercado, o número de novos contratos avançou de cerca de 11 mil para mais de 25 mil no período analisado.
Serasa vê sinal vermelho em comprometimento de renda
Apesar da expansão da modalidade, o levantamento da Serasa Experian apontou um dado preocupante. Segundo a pesquisa, 78% dos trabalhadores que contrataram o novo consignado possuem mais de 81% da renda comprometida com empréstimos e outras obrigações financeiras.
Os dados também mostram que a modalidade vem alcançando principalmente consumidores com histórico mais limitado de acesso ao crédito. De acordo com a análise, 86% dos empréstimos foram contratados por trabalhadores posicionados nas faixas mais baixas do score de crédito. Em contrapartida, apenas 21% dos tomadores apresentavam pontuação superior a 600.
Inadimplência cresce na modalidade pessoa física
Outro indicador acompanhado pelo mercado é o aumento da inadimplência. Segundo dados do Banco Central, o percentual de atrasos no consignado privado passou de 4,9% para 6,6% entre novembro de 2025 e março deste ano.
A elevação ocorre em um cenário de aumento do endividamento das famílias brasileiras. Em março, o país atingiu um novo recorde de 82,8 milhões de inadimplentes, número equivalente a cerca de 49% da população adulta brasileira.
No mesmo mês, a quantidade de brasileiros negativados ultrapassou 81 milhões, o que representa um crescimento de quase 38% nos últimos dez anos.
Entre os principais responsáveis pelo endividamento está o cartão de crédito. Já a falta de pagamento de contas de água, luz, gás e telefone apareceu como a segunda maior causa de inadimplência, segundo dados da Serasa.
Outro dado destacado pelo Mapa da Inadimplência da Serasa mostra que aproximadamente 42% dos consumidores endividados permanecem nessa situação há muitos anos.
Como funciona o consignado privado
A modalidade permite que funcionários da iniciativa privada, trabalhadores domésticos, trabalhadores rurais e Microempreendedores Individuais (MEIs) tenham acesso a empréstimos com desconto direto na folha de pagamento e taxas de juros mais baixas do que as encontradas em outras linhas de crédito.
A contratação é realizada de forma digital, diretamente pelo aplicativo da Carteira de Trabalho, sem necessidade de convênio direto entre a empresa empregadora e a instituição financeira que oferece os recursos.
Pelas regras do programa, o trabalhador pode comprometer até 35% do salário com as parcelas do empréstimo.











