A possibilidade de um novo El Niño ganhar força nos próximos meses pode aumentar a pressão sobre os preços dos alimentos no Brasil até 2027, segundo relatório do Santander. Embora o banco avalie que o fenômeno não tenha um efeito uniforme sobre a produção agrícola nem sobre a inflação, um evento forte ou muito forte representa um risco adicional para o IPCA, principalmente por meio da alta dos alimentos frescos.
O estudo revela que o principal efeito do ENSO (El Niño–Oscilação Sul) não é provocar uma queda ou alta generalizada da produção agrícola mundial, mas aumentar a volatilidade entre culturas e regiões produtoras.
Enquanto algumas áreas podem registrar ganhos de produtividade, outras tendem a sofrer perdas, refletindo diferenças no regime de chuvas, na temperatura, na área plantada e até em fatores não climáticos, como custos de fertilizantes.
O Santander afirma que seu cenário-base já incorpora uma pressão relevante da alimentação no domicílio sobre a inflação. A projeção é de que o grupo alcance o pico em fevereiro de 2027, ficando cerca de cinco pontos percentuais acima do nível previsto para agosto de 2026, o equivalente a aproximadamente 0,75 ponto percentual no IPCA.
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Após esse pico, a expectativa é de desaceleração, mas ainda com impacto estimado em 0,40 ponto percentual sobre a inflação ao longo de 2027. Um episódio de El Niño mais intenso ainda permanece como risco de alta para essas projeções.
Na análise, o Santander utilizou o Oceanic Niño Index (ONI), indicador da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que mede a intensidade do El Niño e da La Niña. Os economistas compararam os desvios de produtividade em relação à tendência histórica de seis commodities: soja, milho, trigo, algodão, açúcar e café, considerando o período do ciclo em que cada cultura é mais sensível ao estresse hídrico.
El Niño pode trazer efeitos opostos em regiões do Brasil
O relatório destaca que os efeitos do fenômeno são bastante distintos dentro do Brasil — historicamente, o Sul recebe chuvas acima da média, favorecendo a produtividade da soja e do milho.
Em sentido contrário, o Norte tende a enfrentar condições mais secas, padrão que também alcança importantes polos agrícolas do Centro-Oeste, especialmente Mato Grosso e a região do Matopiba, onde a irregularidade das chuvas costuma reduzir a produtividade.
No Sudeste, o comportamento é menos previsível. A região pode sofrer influência tanto do padrão seco vindo do Norte quanto da maior umidade observada no Sul, o que impede estabelecer uma tendência consistente para as lavouras.
Distribuição das chuvas pesa mais que volume total
Para a soja, cuja semeadura começa em setembro, o banco destaca que o principal fator de risco não é apenas o volume de chuva, mas sua distribuição ao longo do ciclo da lavoura.
Longos períodos de estiagem, combinados com temperaturas elevadas, podem comprometer as condições do solo, atrasar o plantio e reduzir a produtividade. Além disso, atrasos na soja diminuem a janela de plantio da segunda safra de milho, ampliando os riscos para a produção de grãos.
Esse comportamento foi observado durante o El Niño de 2023/24, quando temperaturas elevadas e chuvas irregulares provocaram perdas importantes no Centro-Oeste brasileiro.
No caso do milho, o impacto depende da região. As chuvas mais abundantes no Sul tendem a favorecer a safra de verão, enquanto a safrinha produzida no Centro-Oeste permanece sujeita aos efeitos da irregularidade das precipitações.
Soja e milho ilustram diferenças entre países
O Brasil lidera as exportações mundiais de soja, seguido pelos Estados Unidos e Argentina; e juntos concentram mais de 85% das exportações mundiais. A análise mostra que Argentina e Sul do Brasil costumam registrar produtividade acima da tendência histórica durante episódios de El Niño, favorecidos pelas chuvas mais abundantes.
Em contrapartida, o Centro-Oeste brasileiro apresenta maior probabilidade de perdas de produtividade devido à irregularidade das precipitações.
Nos Estados Unidos, a relação entre o fenômeno e o desempenho da soja permanece heterogênea e sem um padrão estatístico consistente.
Em relação ao milho, Estados Unidos, Brasil e Argentina respondem por cerca de 70% das exportações globais. Entre esses países, a Argentina apresenta uma das relações mais claras com o El Niño, já que o aumento das chuvas durante o verão costuma favorecer a produtividade.
No Brasil, o impacto varia conforme a região. Enquanto a safra de verão produzida no Sul tende a ser beneficiada, a segunda safra cultivada no Centro-Oeste permanece vulnerável às irregularidades das chuvas. Já nos EUA, novamente, os efeitos aparecem de forma menos uniforme.
El Niño terá impactos distintos sobre outras commodities
O levantamento também avaliou outras commodities importantes para o comércio internacional: trigo, algodão, açúcar e café. No trigo, a Austrália costuma sofrer perdas de produtividade durante episódios de El Niño devido à redução das chuvas, enquanto os EUA normalmente registram condições mais favoráveis.
Ainda assim, a safra americana de 2025/26 mostra que outros fenômenos climáticos também influenciam os resultados, já que a La Niña anterior levou o USDA a projetar a menor colheita de trigo de inverno desde 1965.
No algodão, Austrália e Índia tendem a enfrentar menor disponibilidade de água. Em ambos os casos, parte do ajuste ocorre pela redução da área plantada, e não necessariamente pela queda da produtividade.
Na cana-de-açúcar, Índia e Tailândia normalmente sofrem com o enfraquecimento das monções, o que reduz a produção e aumenta o risco de restrições às exportações. No Centro-Sul brasileiro, porém, não há um padrão consistente de impacto.
Para o café, o estudo aponta que a análise é mais complexa. No Brasil, o ciclo bienal do café arábica dificulta isolar os efeitos do El Niño sobre a produtividade. Já no Vietnã, maior exportador mundial de robusta, a irrigação reduz parte dos impactos provocados pelo clima mais quente e seco.

Alimentos frescos concentram pressão sobre o IPCA
Ao avaliar episódios anteriores de El Niño, o Santander concluiu que a maior transmissão do fenômeno para a inflação brasileira ocorre por meio dos alimentos frescos. O banco comparou períodos de neutralidade climática com episódios classificados como fracos, moderados, fortes e muito fortes e verificou que, quanto maior a intensidade do fenômeno, maior tende a ser a pressão sobre produtos in natura.
Já alimentos industrializados e semielaborados mantiveram comportamento mais próximo do observado em períodos sem influência do El Niño.
A análise de longo prazo reforça esse diagnóstico. Em praticamente todos os episódios analisados desde 2000 — com exceção do evento iniciado em 2004 —, os alimentos frescos ampliaram sua contribuição para o IPCA logo após o início do fenômeno climático.
Na alimentação no domicílio como um todo, entretanto, o comportamento foi menos uniforme. Os episódios de 2004 e 2023, por exemplo, não foram seguidos por aceleração da inflação do grupo, enquanto os eventos iniciados em 2002, 2006 e 2014 apresentaram efeitos mais persistentes. Nos casos de 2009 e 2018, o impacto chegou a cerca de 1 ponto percentual no IPCA, mas perdeu força ao longo dos doze meses seguintes.
El Niño não deve ter influência sistemática sobre a energia
Diferentemente dos alimentos, o estudo não encontrou evidências de que o El Niño exerça influência sistemática sobre a inflação da energia elétrica. A análise histórica não identificou uma relação consistente entre episódios de El Niño e o nível dos reservatórios, tanto na média nacional quanto na região Sudeste.
Os resultados mostram que alguns eventos foram acompanhados de recuperação dos reservatórios, enquanto outros coincidiram com queda nos níveis de armazenamento, sem relação consistente com a intensidade do El Niño.
O banco também examinou a evolução do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), referência do mercado de energia de curto prazo, mas concluiu que mudanças recentes no setor elétrico e na formação de preços dificultam estabelecer uma relação direta entre clima, reservatórios e inflação da energia.
Metodologia mede impactos temporários do El Niño sobre a inflação
Para separar os efeitos do clima de fatores como câmbio, atividade econômica, expectativas e preços internacionais das commodities, o Santander estimou um modelo econométrico semelhante ao utilizado pelo Banco Central.
Pelos cálculos do banco, o El Niño acrescentou cerca de 90 pontos-base à inflação dos alimentos em 2023 e outros 126 pontos-base no primeiro semestre de 2024.
Após o encerramento do fenômeno, o modelo aponta uma reversão parcial desse movimento, com contribuição negativa de 117 pontos-base no segundo semestre de 2024 e de 98 pontos-base ao longo de 2025.
Segundo a metodologia utilizada, o efeito líquido do El Niño sobre a inflação tende a desaparecer cerca de três trimestres após o fim do episódio climático.











