A perseguição dos Estados Unidos a políticas de outro país que supostamente ameacem sua soberania comercial não é exclusividade do Brasil. Segundo o estudo “14 Apontamentos sobre a Conjuntura Comercial dos EUA, Brasil e o Resto do Mundo”, as investigações conduzidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) já atingem 85 países soberanos e Hong Kong, que juntos somam US$ 84,5 trilhões em Produto Interno Bruto (PIB) nominal.
Na prática, o diagnóstico realizado pelo economista Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco do BRICS, divulgado nesta quarta-feira (15) pelo Estadão, mostra que Washington mantém sob investigação 98% de toda a atividade econômica global fora do próprio território norte-americano.
Considerando toda a economia global, os países investigados respondem por aproximadamente 72% do PIB mundial. Em outras palavras, quase toda a atividade econômica fora dos EUA está atualmente sob algum tipo de investigação conduzida pelo USTR.
Segundo Troyjo, “nunca antes um instrumento unilateral de política comercial dos Estados Unidos alcançou, simultaneamente, economias responsáveis por praticamente toda a atividade econômica mundial fora dos próprios EUA”.
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Países que estão sob investigação dos EUA
O estudo mostra que praticamente todas as principais economias desenvolvidas e emergentes estão atualmente submetidas a algum tipo de investigação conduzida pelo USTR.
Entre elas estão os 27 Estados-membros da União Europeia, além de Brasil, China, Hong Kong, Japão, Índia, Coreia do Sul, México, Taiwan, Suíça, Noruega e grande parte do Sudeste Asiático.
As investigações abrangem alegações de excesso estrutural de capacidade industrial, cujo exame pelo USTR ainda não foi concluído, além de suspeitas relacionadas ao uso de trabalho forçado, propriedade intelectual, economia digital, meios eletrônicos de pagamento, barreiras regulatórias, acesso a mercados e outras práticas consideradas desleais pelo governo norte-americano.
Ações do USTR excedem proteção econômica
Segundo o economista, a política comercial deixou de exercer apenas a função de estimular exportações ou proteger a indústria doméstica. O estudo afirma que ela passou a desempenhar papel central na estratégia dos Estados Unidos para fortalecer a liderança tecnológica, ampliar a segurança econômica, aumentar a resiliência das cadeias globais de valor, apoiar a política industrial e ampliar sua influência geopolítica.
O levantamento ressalta que essa mudança ocorre em um momento em que o PIB nominal mundial, estimado em aproximadamente US$ 117 trilhões, reflete uma economia global integrada, mas cada vez mais marcada por rivalidades geopolíticas, competição tecnológica e disputas comerciais.
Desse total, os Estados Unidos respondem por cerca de US$ 31 trilhões, o equivalente a aproximadamente 26% do PIB mundial, mantendo-se como a maior economia e o maior mercado consumidor mundial. Excluindo os EUA, o restante da economia mundial soma aproximadamente US$ 86 trilhões em PIB nominal.
Mercado consumidor fortalece poder de barganha dos EUA
O estudo atribui o alcance dessa estratégia ao peso da economia norte-americana no comércio internacional. Os Estados Unidos importam cerca de US$ 3,7 trilhões por ano, consolidando-se como o maior mercado importador do mundo.
Segundo Troyjo, esse volume supera o PIB nominal da França e também é maior do que o PIB combinado de todos os países do continente africano, o que amplia significativamente o poder de barganha de Washington nas negociações comerciais.
Segundo mandato de Trump ampliou uso da Seção 301
O estudo demonstra ainda que a expansão desse mecanismo ganhou força desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump, quando os Estados Unidos passaram a utilizar de forma inédita os instrumentos de defesa comercial previstos em sua legislação, especialmente as investigações conduzidas pelo USTR com base na Seção 301.
Atualmente, 85 países soberanos e Hong Kong encontram-se submetidos a alguma modalidade de investigação baseada nesse instrumento.
Tarifaço dos EUA contra o Brasil entra na reta final
A divulgação do estudo ocorre justamente no dia em que o mercado aguarda o detalhamento das novas tarifas que os Estados Unidos aplicarão sobre produtos brasileiros, ampliando a atenção de investidores e empresas exportadoras.
O governo norte-americano confirmou nesta quarta-feira o tarifaço contra o Brasil e sinalizou que poderá ampliar a lista de exceções prevista para a medida. O chefe do USTR, Jamieson Greer, informou a interlocutores do governo Luiz Inácio Lula da Silva que já encaminhou ao presidente Donald Trump sua recomendação final para o novo pacote tarifário.
Na reunião realizada entre representantes dos dois países na terça-feira (14), Greer declarou que considera as negociações encerradas e reclamou da falta de empenho por parte do Brasil.
Segundo as fontes, o representante comercial afirmou que não haverá uma “lista dinâmica” de exceções às novas tarifas. A sinalização foi interpretada como um indicativo de que, diferentemente das alíquotas aplicadas em 2025, não haverá ampliações graduais da lista de produtos isentos após a entrada em vigor das medidas.
Ao mesmo tempo, Greer afirmou ter “tomado nota” dos argumentos apresentados pelo governo brasileiro e pelo setor privado em defesa de uma ampliação das exceções. Segundo as fontes, essa manifestação sinaliza a possibilidade de que a relação de produtos beneficiados seja ampliada já na divulgação oficial do novo tarifaço.











