*Por Guilherme Zugno
O Hexa não será conquistado com nostalgia: a profissionalização do futebol brasileiro começa nos clubes e na gestão das ligas do futebol nacional. Historicamente o Brasil é reconhecido como “o país do futebol”. Repetimos tanto que, em algum momento, passamos a acreditar que essa condição era permanente, quase um direito adquirido. Não era.
Enquanto o futebol mundial evoluía em velocidade impressionante, profissionalizando sua gestão, internacionalizando suas receitas, investindo em ciência do esporte, tecnologia, governança e inteligência de mercado, o futebol brasileiro permaneceu preso a estruturas administrativas concebidas para outra realidade.
Os resultados estão diante de nós. Desde a conquista do pentacampeonato, em 2002, a Seleção Brasileira deixou de ser a força dominante do futebol mundial. Vieram eliminações traumáticas, derrotas que entraram para a história, mudanças sucessivas de treinadores, projetos interrompidos e a crescente sensação de que o Brasil deixou de ditar os rumos do futebol para passar a reagir ao que fazem os demais países.
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A eliminação precoce nesta Copa do Mundo apenas aprofunda uma percepção que já não pode ser tratada como um acidente esportivo: o problema é estrutural.
É um erro imaginar que a crise da Seleção começa na comissão técnica ou termina na convocação dos vinte e seis jogadores. A Seleção é apenas o reflexo mais visível do ecossistema do futebol brasileiro, que passa pela má administração das ligas, dos clubes, categorias de base sem planejamento de longo prazo e reféns do poder econômico estrangeiro, decisões estratégicas tomadas por critérios políticos em vez de critérios técnicos. Se não mudarmos a estrutura, dificilmente o resultado será diferente.
É justamente por isso que a discussão sobre a Sociedade Anônima do Futebol (SAF) ultrapassa a esfera jurídica. Trata-se, acima de tudo, de uma discussão sobre governança, profissionalização e competitividade.
O verdadeiro debate não é sobre quem será o proprietário de um clube. O verdadeiro debate é sobre quem é capaz de administrá-lo.
O paradoxo do futebol brasileiro
Poucos países produzem tantos jogadores de elite quanto o Brasil. Exportamos atletas para praticamente todas as grandes ligas do mundo. Formamos alguns dos profissionais mais valorizados do planeta. Continuamos sendo referência técnica na formação de talentos.
E, paradoxalmente, nossos clubes acumulam bilhões em dívidas, vivem em permanente crise financeira, trocam dirigentes em ciclos curtos, antecipam receitas futuras para pagar despesas presentes e frequentemente sacrificam planejamento em nome da próxima eleição interna.
Esse paradoxo não existe por acaso. Ele nasce de um modelo institucional que concentra enorme energia na disputa política e pouca energia na gestão.
É difícil encontrar, em qualquer grande empresa do mundo, estruturas decisórias semelhantes às existentes em muitos clubes brasileiros. Diversos clubes tradicionais possuem conselhos deliberativos compostos por mais de 200, 300 ou até 400 integrantes. Esses conselhos reúnem diferentes correntes políticas, grupos históricos, antigas administrações, movimentos de oposição, aliados circunstanciais e interesses frequentemente conflitantes.
Naturalmente, um órgão dessa dimensão dificilmente consegue atuar como um verdadeiro conselho estratégico. Em vez de definir diretrizes, cobrar resultados e supervisionar executivos, acaba funcionando como uma arena política permanente.
As discussões deixam de girar em torno de indicadores de desempenho, retorno sobre investimento, gestão de ativos, desenvolvimento das categorias de base, expansão internacional da marca ou geração de receitas.
Passam a girar em torno de eleições, alianças, disputas pessoais, heranças políticas e preservação de espaços de poder. Não por acaso, muitos presidentes chegam ao cargo pensando no próximo pleito interno antes mesmo de iniciar sua gestão. O horizonte deixa de ser o clube. Passa a ser o mandato.
Essa lógica produz incentivos perversos. Se um dirigente sabe que permanecerá poucos anos no cargo, é natural que privilegie decisões capazes de gerar popularidade imediata. Contratações de grande impacto costumam render mais votos do que investimentos silenciosos em governança. Uma contratação milionária gera manchetes.
Um programa de compliance, uma reorganização financeira ou um novo modelo de gestão dificilmente mobilizam arquibancadas. O resultado é conhecido: Receitas futuras são antecipadas; folhas salariais tornam-se insustentáveis; treinadores são substituídos continuamente; projetos esportivos nunca amadurecem.
Cada gestão inicia praticamente do zero, frequentemente desmontando o trabalho da anterior apenas porque pertence a outro grupo político. Nenhuma organização consegue construir excelência dessa maneira.
O mundo mudou! Enquanto isso, o futebol internacional passou por uma revolução silenciosa. Os maiores clubes europeus deixaram de ser administrados predominantemente por apaixonados e passaram a ser conduzidos por executivos especializados.
Hoje, departamentos de análise de desempenho trabalham lado a lado com economistas, cientistas de dados, especialistas em marketing global, gestores financeiros, médicos, fisiologistas e profissionais de governança.
A contratação de um jogador deixou de ser apenas uma decisão esportiva. Tornou-se uma decisão empresarial baseada em dados, projeções financeiras e criação de valor. O futebol moderno passou a ser administrado como aquilo que realmente é: uma indústria global bilionária.
A SAF como instrumento de transformação
É nesse cenário que surge a Lei da SAF. Muitos a enxergam apenas como um mecanismo para atrair investidores. Na verdade, seu maior mérito talvez seja outro. Ela altera profundamente os incentivos da gestão.
Quando existe um controlador claramente identificado, um conselho de administração reduzido, executivos profissionais, metas objetivas e responsabilidade patrimonial, muda completamente a lógica da tomada de decisão. A política deixa de ocupar o centro da gestão. Os resultados passam a ocupá-lo.
Naturalmente, nem toda SAF será bem administrada. Assim como nem toda empresa privada é eficiente. Mas existe uma diferença fundamental: no ambiente empresarial, decisões ruins têm consequências diretas para quem controla o negócio. O controlador perde patrimônio, o investimento perde valor.
Existe um poderoso incentivo econômico para acertar. No modelo associativo, ao contrário, frequentemente quem toma decisões desastrosas deixa o cargo, enquanto o clube permanece durante décadas pagando a conta. Os dirigentes passam, as dívidas ficam.
“O clube terá dono.” Esse talvez seja o argumento mais utilizado pelos críticos da SAF. Mas a questão não deveria ser quem é o dono. A questão deveria ser quem responde pelos resultados.
Hoje, muitos clubes pertencem formalmente aos seus associados. Na prática, porém, tornam-se reféns de grupos políticos que se alternam no poder sem assumir responsabilidades proporcionais pelos prejuízos causados.
A propriedade privada traz consigo algo essencial: responsabilidade. Quem investe seu próprio patrimônio tende a pensar no longo prazo. Valoriza a marca, protege ativos, investe na formação de atletas. moderniza infraestrutura, busca estabilidade financeira. Pensa a longo prazo.
Porque o sucesso do clube passa a ser também o seu próprio sucesso. É um alinhamento de interesses que raramente existe no ambiente político-associativo.
A reconstrução da identidade do futebol brasileiro
Muito se fala que o futebol brasileiro perdeu sua identidade. Talvez a afirmação esteja parcialmente equivocada. O Brasil não perdeu sua identidade técnica. Perdeu sua capacidade institucional de protegê-la.
Continuamos formando jogadores extraordinários. O que deixamos de formar, na mesma velocidade, foram clubes igualmente extraordinários em gestão. Nenhuma seleção nacional consegue permanecer no topo durante décadas se sua estrutura doméstica estiver fragilizada.
As grandes potências atuais construíram ambientes sólidos antes de colher resultados esportivos. O Brasil precisa fazer o mesmo. A reconstrução da Seleção começa muito antes da convocação, começa nos conselhos de administração dos clubes, na profissionalização da gestão, na adoção de mecanismos modernos de governança e na substituição do improviso pelo planejamento.
A SAF não representa a privatização da paixão, mas sim a profissionalização da administração dessa paixão. O torcedor continuará sendo o verdadeiro proprietário emocional de seu clube. O que muda é que, finalmente, alguém passará a responder economicamente por suas decisões.
Se quisermos voltar a levantar a Copa do Mundo, talvez seja hora de compreender que o caminho para o hexa não começa na concentração da Seleção. começa nas salas de reuniões dos clubes brasileiros. Perdemos a Copa do Mundo muito antes do jogo contra a Noruega. Perdemos fora de campo.
Guilherme Zugno é sócio da Zugnopeña Advogados











