Enquanto a aviação busca alternativas ao querosene fóssil, uma usina no deserto chileno usa captura direta de ar e energia solar para fabricar gasolina e querosene a partir de água e gás carbônico. A planta da HIF Global em Magallanes já produz combustível de aviação sintético em escala piloto, combinando hidrogênio verde com CO₂ retirado da atmosfera. O resultado é um e-fuel que abastece motores a combustão sem adicionar carbono fóssil ao ciclo.
O que é o combustível de aviação sintético e como ele é produzido?
O combustível de aviação sintético, ou e-SAF, é um hidrocarboneto líquido produzido a partir de hidrogênio verde e dióxido de carbono capturado do ar. O processo começa na Captura Direta de Ar (DAC), onde ventiladores gigantes sopram ar atmosférico por filtros químicos que retêm as moléculas de CO₂. Em paralelo, eletrolisadores quebram a água em hidrogênio e oxigênio usando eletricidade renovável.
Os dois gases são combinados em reatores de síntese que produzem metanol e, em etapas seguintes, gasolina, diesel e querosene, por meio do processo Fischer-Tropsch. A planta Haru Oni, operada pela HIF Global na Patagônia chilena, foi a primeira a demonstrar o ciclo completo em operação integrada. Segundo a IEA, a tecnologia ainda está em estágio de demonstração comercial: a produção atual é de 130 mil litros por ano, mas a expansão prevista para 750 mil litros anuais até 2026 aponta para uma trajetória de escala.

Quais são os pilares que sustentam a produção de SAF por DAC?
O e-SAF depende de três frentes tecnológicas que precisam operar em sintonia. A eficiência de cada etapa determina o custo final do litro de querosene e a viabilidade de competir com o combustível fóssil. A planta chilena mostrou que a integração é possível, mas o desafio de escala permanece.
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Os três pilares que sustentam essa tecnologia são:
Quais as vantagens do combustível sintético sobre outras alternativas de SAF?
O SAF pode ser produzido por várias rotas: óleos vegetais, resíduos agrícolas, etanol de cana e, agora, por captura direta de ar. O e-SAF tem uma vantagem crítica: não compete com a produção de alimentos nem depende de safras sazonais. Sua matéria-prima é o ar e a água, disponíveis em qualquer lugar com sol ou vento.
As principais características que colocam o e-SAF em destaque entre os combustíveis sustentáveis para aviação são:
- Não compete com terras agrícolas, ao contrário dos biocombustíveis de óleo de palma ou soja
- É quimicamente idêntico ao querosene Jet-A1, sem necessidade de adaptação de motores ou aeronaves
- Emissão de ciclo de vida até 90% menor que a do querosene fóssil
- Produção contínua, sem depender de colheitas ou condições sazonais
- Pode ser misturado ao querosene convencional em qualquer proporção
Por que o custo do e-SAF ainda é o maior desafio?
O litro do combustível sintético produzido em Haru Oni custa de três a cinco vezes mais que o querosene fóssil. Esse valor reflete o alto consumo de energia da captura direta de ar e o custo dos eletrolisadores. A DAC precisa de calor e eletricidade para regenerar os filtros, e cada tonelada de CO₂ capturada ainda custa centenas de dólares.
Mas a curva de aprendizado é íngreme. A HIF Global planeja expandir a planta para estágios comerciais no Chile, nos Estados Unidos e na Austrália. A 1PointFive, subsidiária da Occidental Petroleum, também está construindo a maior planta de DAC do mundo no Texas, com capacidade de capturar 500 mil toneladas de CO₂ por ano, parte das quais será destinada à produção de e-SAF. A expectativa do setor é que o custo caia abaixo de dois dólares por litro na próxima década, viabilizando contratos de fornecimento com grandes companhias aéreas.

Como o e-SAF da DAC se compara a outras rotas de combustível de aviação sustentável?
Existem várias formas de produzir SAF, e cada uma tem vantagens, limitações e estágios de maturidade diferentes. O e-SAF da DAC é a mais cara, mas também a mais escalável e a que menos compete com outros usos da terra e da água. A tabela abaixo mostra as principais rotas de produção.
Uma visão comparativa das tecnologias de SAF revela o cenário atual:
| Rota de produção de SAF | Estágio de maturidade | Vantagem principal | Desvantagem crítica |
|---|---|---|---|
| e-SAF via DAC CO₂ do ar mais H₂ verde | Piloto comercial | Escalável e não compete com alimentos | Custo ainda elevado |
| HEFA Óleos vegetais e gorduras | Comercial | Custo competitivo | Disputa com o setor alimentício |
| AtJ Etanol de cana ou milho | Comercial | Rota madura | Depende de safras |
O combustível de aviação sintético vai descarbonizar os céus?
O e-SAF produzido por captura direta de ar está saindo do laboratório e ganhando escala no deserto. A planta Haru Oni já entrega combustível para a Porsche e para companhias aéreas em testes, e a expansão para 750 mil litros anuais em 2026 é o primeiro degrau de uma escada que o setor de aviação precisa subir.
O desafio de custo é real, mas a rota tecnológica está comprovada. Com a multiplicação das plantas de DAC nos Estados Unidos, no Oriente Médio e na América do Sul, o querosene que sai dos ventiladores gigantes pode se tornar, em uma década, uma commodity tão comum quanto o petróleo, com a diferença de que seu carbono não veio do subsolo, e sim do ar que já respiramos.











