Com toneladas de cana esmagadas todos os dias, as biorrefinarias brasileiras transformam matéria-prima bruta em energia e alimento de forma integrada. O que antes era apenas um engenho simples, hoje se tornou uma indústria de alta tecnologia onde o aproveitamento é quase total. Atualmente, o Brasil lidera este setor mundial, utilizando processos avançados para garantir que cada talo de cana renda o máximo de eficiência possível.
Como funciona o início do processo de extração da garapa?
A jornada industrial começa na recepção, momento em que os caminhões descarregam a cana colhida no campo. Primeiramente, o sistema realiza uma limpeza a seco para retirar impurezas vegetais e terra, o que economiza grandes volumes de água. Em seguida, as máquinas picam e desfibram a planta para facilitar a etapa de moagem. Rolos gigantes de metal ou difusores modernos aplicam uma pressão colossal sobre a fibra para extrair o caldo, que é extremamente rico em sacarose.
Logo após a extração, ocorre a primeira grande separação: o caldo segue para o tratamento químico, enquanto a fibra sólida se transforma em bagaço. Esse líquido inicial contém impurezas e, por isso, passa por um rigoroso processo de clarificação e decantação. Assim, o líquido torna-se um xarope límpido e concentrado, ficando pronto para seguir as rotas de produção disponíveis na planta industrial.
Confira abaixo as etapas fundamentais deste tratamento inicial:
- Moagem e Difusão: As máquinas quebram as células da cana para liberar o açúcar.
- Tratamento do Caldo: O sistema remove as impurezas minerais e vegetais do líquido.
- Evaporação: O calor retira o excesso de água para concentrar os sólidos solúveis.
Qual a diferença entre fermentar ou cristalizar o produto?
Caso o foco da usina seja a produção de açúcar, o xarope concentrado segue para os cozedores. Nestes equipamentos, sob vácuo e temperatura controlada, inicia-se a etapa de cristalização, onde a sacarose se solidifica em pequenos grãos. Posteriormente, as centrífugas de alta velocidade separam os cristais do mel residual. O açúcar, então, passa por secagem e resfriamento antes de ser ensacado, variando desde o tipo bruto (VHP) até o refinado branco.
Por outro lado, para a fabricação de etanol, o processo torna-se puramente biológico. O caldo de cana entra em enormes tanques chamados dornas, onde recebe as leveduras. Estes microrganismos consomem o açúcar e liberam álcool e gás carbônico através da fermentação. O resultado dessa etapa é o vinho fermentado, que flui para as colunas de destilação. Lá, o calor separa o álcool da água, gerando finalmente o etanol hidratado ou o anidro.
A seguir, veja os dados da tabela para comparar as duas rotas produtivas:
| Característica | Produção de Açúcar | Produção de Etanol |
| Processo Chave | Físico (Cristalização) | Biológico (Fermentação) |
| Agente Principal | Calor e Vácuo | Leveduras (Fungos) |
| Produto Final | Sólido (Sacarose pura) | Líquido (Biocombustível) |
| Resíduo Líquido | Mel (reaproveitado) | Vinhaça (fertilizante) |
Como ocorre o ciclo sustentável de cogeração de energia?
O diferencial das usinas modernas reside na capacidade de cogeração de energia elétrica. A indústria não descarta o bagaço que sobra da moagem, mas o utiliza como combustível em caldeiras de alta pressão. Essa queima gera um vapor intenso que movimenta turbinas interligadas a geradores. Consequentemente, a usina produz eletricidade suficiente para seu próprio consumo e ainda exporta o excedente para a rede nacional, iluminando milhares de residências no Brasil.
Além da energia elétrica, o sistema reaproveita os resíduos líquidos da destilação, conhecidos como vinhaça. Esse subproduto, rico em potássio, retorna ao campo por meio de canais ou caminhões para servir como fertilizante natural nas lavouras. Essa prática reduz drasticamente a necessidade de adubos químicos. Dessa maneira, a indústria fecha um ciclo de economia circular, transformando a cana em combustível limpo, alimento e energia renovável.
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Por que a produção de cana-de-açúcar é tão relevante?
A relevância deste setor vai além da economia nacional, impactando diretamente a matriz energética sustentável do planeta. Atualmente, o setor sucroenergético gera milhões de empregos e coloca o Brasil na vanguarda da tecnologia de biocombustíveis. Além disso, a capacidade de alternar a produção entre açúcar e álcool conforme o mercado global garante estabilidade financeira para as usinas e segurança alimentar para o consumidor.
Ademais, novas tecnologias como o E2G (Etanol de Segunda Geração) prometem aumentar ainda mais a produtividade sem expandir a área de plantio. Ao utilizar a palha e o bagaço para criar mais combustível, a indústria eleva o conceito de eficiência energética. Assim, a planta da cana se consolida como uma das ferramentas mais poderosas para a descarbonização da economia global nos próximos anos.



