A onda global de aportes em tecnologia, puxada pela inteligência artificial (IA), acentuou a distância entre os mercados dos Estados Unidos e do Brasil. Enquanto o país norte-americano retoma volumes anuais de US$ 300 bilhões em venture capital (capital de risco investido em empresas de base tecnológica), o cenário brasileiro lida com o peso dos juros elevados.
Dados da National Venture Capital Association e da KPMG indicam que os EUA voltaram aos patamares recordes de 2021. Em contrapartida, o volume investido no Brasil segue significativamente abaixo do pico registrado na pandemia, segundo a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP).
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Diferença de investimentos em venture capital entre Brasil e EUA ultrapassa US$ 1 trilhão
Entre 2020 e 2025, os Estados Unidos concentraram US$ 1,46 trilhão em investimentos no setor tecnológico. No mesmo período, o Brasil movimentou cerca de US$ 21,7 bilhões. A cifra americana é mais de 60 vezes superior à brasileira.
Victor Mariz Taveira, CEO da Acrux Capital, explica que a economia americana vive um novo ciclo de otimismo com a IA. Já no Brasil, o volume investido atualmente gira em torno de apenas 40% do que foi visto no auge de 2021.
“Quando ampliamos a perspectiva, fica evidente que o Brasil ainda está muito aquém do que deveria apresentar, inclusive considerando seu potencial empreendedor”, afirma Mariz.
O peso dos juros e entraves estruturais
O ambiente de juros altos é apontado como o maior obstáculo para a indústria nacional. A taxa de juros elevada aumenta o chamado custo de capital, que é o retorno mínimo que um investidor espera para aceitar o risco de um negócio.
Fernando Silva, head de venture capital da Crescera Capital, ressalta que a volatilidade das taxas no Brasil cria choques constantes. “Quando você sai de uma taxa de 2% para mais de 12% em pouco tempo, o impacto é generalizado. Fica inviável financiar crescimento e inovação com custo de capital tão alto, o que acaba contaminando todo o ecossistema”, avalia.
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Quando os juros sobem de forma abrupta, os investidores tendem a retirar dinheiro de ativos de risco, como startups, para buscar segurança na renda fixa.
Além disso, o mercado brasileiro sofre com a baixa profundidade do mercado de capitais. Esse termo refere-se à falta de liquidez e de uma diversidade maior de investidores e empresas listadas na bolsa, o que dificulta a saída estratégica de investidores iniciais.
Foco em fundamentos e amadurecimento
Apesar da retração, o mercado passa por um processo de seleção técnica. João Braga, CEO da Booming, observa que o excesso de liquidez anterior deu lugar a rodadas de investimento mais criteriosas.
Agora, as decisões são baseadas em indicadores como o EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), que mostra a eficiência operacional de uma empresa — e no histórico real de receita. “Isso torna o investimento mais técnico e menos baseado em narrativa”, afirma Braga.
O executivo também destaca o crescimento de estruturas híbridas, que combinam o equity (participação societária) com o crédito, trazendo mais disciplina financeira para as empresas que buscam expansão. Para os especialistas, a limitação do setor no Brasil está ligada ao ambiente macroeconômico e não à falta de capacidade técnica ou de projetos inovadores.











