A extração de terras raras no fundo do mar é uma das grandes apostas do Japão para reduzir a dependência da China, mas um obstáculo tecnológico ameaça o plano. Enquanto o navio de pesquisa Chikyu recolhia lama do leito marinho, a China acumulava patentes de mineração submarina. Este artigo analisa os avanços e os pontos cegos dessa corrida bilionária.
Como o Japão conseguiu extrair terras raras do fundo do mar?
Em fevereiro de 2026, o navio de pesquisa Chikyu, operado pela Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia da Terra e do Mar (JAMSTEC), fez história. A embarcação içou lama contendo terras raras de uma profundidade de aproximadamente 6.000 metros, nas águas ao redor da ilha de Minamitorishima, a cerca de 2.000 km de Tóquio.
A operação envolveu a conexão de 600 tubos de 10 metros cada, formando uma coluna de extração que alcançou o leito oceânico. Essa foi a primeira vez que se extraiu lama de terras raras diretamente do fundo do mar em águas profundas, um feito técnico que abre caminho para a autossuficiência do Japão.

Qual é a importância geopolítica das terras raras?
As terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos usados em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, telas de smartphones e sistemas de defesa. Atualmente, a China domina a cadeia de suprimentos global, com 60% da produção e cerca de 90% da capacidade de refino.
A dependência do Ocidente ficou evidente quando a China impôs restrições à exportação em 2025. O governo japonês vê na lama de Minamitorishima uma oportunidade única de diversificar suas fontes de abastecimento, reduzindo a vulnerabilidade a pressões geopolíticas.
Por que as patentes chinesas são um ponto cego para o Japão?
Enquanto o Japão concentra esforços na extração, a China tem construído um domínio na propriedade intelectual da mineração submarina. Nos últimos 10 anos, os pedidos de patentes chinesas relacionadas à mineração no fundo do mar dispararam, cobrindo desde sistemas de bombeamento até métodos de separação de minerais.
Esse acúmulo de patentes cria um obstáculo legal e tecnológico para o Japão e seus aliados. Mesmo que o país consiga extrair as terras raras, corre o risco de violar direitos de propriedade intelectual chineses, o que poderia gerar disputas judiciais internacionais e atrasos no cronograma do projeto.
A mineração em águas profundas é economicamente viável?
A pressão a 6.000 metros de profundidade chega a 600 atmosferas, o que encarece os equipamentos e os sistemas de içamento. Especialistas calculam que o custo final das terras raras extraídas do fundo do mar pode ser até 10 vezes maior do que o valor pago atualmente à China.
Para Tohru Okabe, professor da Universidade de Tóquio, o verdadeiro desafio não está na disponibilidade dos minerais, mas no custo de desenvolvimento e refino. Uma lama rica em terras raras não significa, automaticamente, um negócio rentável.
Como os Estados Unidos estão apoiando o projeto japonês?
Em março de 2026, Japão e Estados Unidos anunciaram um plano de ação conjunto para fortalecer a cadeia de fornecimento de minerais críticos. O acordo prevê investimentos em exploração, refino e reciclagem, com o objetivo de criar uma alternativa à hegemonia chinesa.
Na mesma esteira, a Mitsubishi Materials investiu em uma empresa americana de tecnologia de separação, a RE Element Technologies, que utiliza cromatografia para obter terras raras de alta pureza. O aporte, ainda que modesto, sinaliza o interesse da indústria japonesa em fechar a lacuna tecnológica.
O que está em jogo nos mares ao redor de Minamitorishima?
Navios de pesquisa chineses têm sido avistados com frequência nas imediações da zona econômica exclusiva japonesa ao redor de Minamitorishima. A movimentação sugere que a China monitora de perto os avanços japoneses e, ao mesmo tempo, coleta dados para suas próprias prospecções.
A região concentra uma quantidade estimada de 16 milhões de toneladas de terras raras, o suficiente para abastecer o Japão por séculos. O controle sobre esses recursos se tornou uma prioridade nacional, como comprovam as declarações oficiais e os investimentos do governo japonês.

O Japão conseguirá superar os desafios até o fim da década?
O projeto de Minamitorishima está na fase de testes e validação. A próxima etapa prevê a extração de 350 toneladas por dia, com demonstrações em escala piloto nos próximos dois anos. Se tudo correr como o planejado, a produção comercial começaria por volta de 2030.
Superar os desafios de custo, tecnologia e patentes exigirá uma combinação de investimento público, parcerias internacionais e inovação. O caminho é longo, mas a relevância estratégica das terras raras para a indústria e a defesa coloca o Japão sob pressão para entregar resultados.
Enquanto o Japão comemora o sucesso da extração, a China amplia seu domínio sobre as patentes que podem definir o futuro da mineração submarina. A corrida pelas terras raras de Minamitorishima está apenas começando.











