O que acontece quando o Ocidente encontra, sob o gelo do Ártico, os minerais que sustentam carros elétricos, turbinas eólicas e telas de celular? A jazida de terras raras de Per Geijer, descoberta em Kiruna, no extremo norte da Suécia, guarda mais de 1 milhão de toneladas de óxidos de terras raras. É a maior reserva conhecida da Europa e uma peça crucial no tabuleiro geopolítico da transição energética.
O que torna a jazida de Per Geijer tão especial?
O depósito de Per Geijer está localizado a cerca de 500 metros de profundidade, nas proximidades das operações de mineração de ferro da estatal sueca LKAB. A jazida contém elementos como neodímio, praseodímio e disprósio, que são fundamentais para a produção de ímãs permanentes usados em motores elétricos e geradores eólicos.
O que impressiona não é apenas a quantidade, mas a qualidade do minério. O teor de óxidos de terras raras em Per Geijer é até dez vezes maior do que o encontrado nas minas de ferro convencionais de Kiruna. Essa concentração elevada torna a extração potencialmente mais viável do ponto de vista econômico, o que coloca a jazida em uma posição única no cenário europeu.

Por que a Europa precisa desesperadamente dessas terras raras?
A dependência europeia da China no fornecimento de terras raras é um dos pontos mais vulneráveis da economia do continente. Atualmente, a China controla cerca de 60% da produção mundial e aproximadamente 90% da capacidade de refino desses minerais. Em 2025, o país asiático chegou a impor restrições à exportação de certos elementos, acendendo o alerta em Bruxelas.
Na prática, isso significa que qualquer interrupção no fornecimento chinês pode paralisar fábricas de veículos elétricos na Alemanha ou atrasar a instalação de parques eólicos na Dinamarca. A jazida de Per Geijer surge como uma alternativa concreta para diversificar as cadeias de suprimento e reduzir essa vulnerabilidade estratégica.
Quanto a jazida realmente contém e qual o seu valor?
Segundo os relatórios da LKAB, as estimativas mais recentes apontam para um volume impressionante. O depósito de Per Geijer contém aproximadamente 1,3 bilhão de toneladas de minério de ferro, além de 2,2 milhões de toneladas de óxidos de terras raras in situ. Esses números cresceram quase 30% em relação às estimativas de 2023.
O valor de mercado da jazida foi estimado em aproximadamente 64 bilhões de euros, o equivalente a cerca de R$ 375,8 bilhões. A Confira os principais elementos identificados na jazida:
- Neodímio: usado em ímãs de alta potência para veículos elétricos
- Praseodímio: essencial para turbinas eólicas e motores elétricos
- Disprósio: aumenta a resistência térmica dos ímãs permanentes
- Fósforo: presente em altas concentrações no mineral apatita
Quando a mineração pode começar de fato?
Quem espera uma solução imediata pode se frustrar. A LKAB projeta que serão necessários entre 10 e 15 anos para que a mineração comercial se inicie. O principal gargalo não é a tecnologia de extração, mas o complexo processo de licenciamento ambiental sueco, que exige estudos detalhados sobre o impacto no ecossistema local e nos recursos hídricos da região.
No entanto, há um fator que pode acelerar o cronograma. Em março de 2025, a União Europeia concedeu ao projeto de Per Geijer o status de Projeto Estratégico no âmbito da Lei de Matérias-Primas Críticas (CRMA). Essa classificação permite que licenças de extração sejam emitidas em até 24 meses, em vez da década tradicional.
Como a União Europeia está se mobilizando para acelerar a exploração?
A CRMA estabelece metas ambiciosas: até 2030, a UE quer que pelo menos 10% do consumo anual de minerais críticos seja extraído dentro do bloco. Além disso, 40% do processamento e 15% da reciclagem devem ocorrer em território europeu. Per Geijer é uma peça central nessa estratégia.
Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia lançou o Plano de Ação RESourceEU, que mobiliza € 3 bilhões em financiamento para projetos de extração, refino e reciclagem de terras raras. O plano também inclui um centro europeu de matérias-primas para coordenar compras conjuntas e estoques estratégicos, reduzindo a exposição a choques de oferta.

A jazida sueca pode de fato quebrar o domínio da China?
Especialistas alertam que a descoberta é importante, mas não resolve todos os problemas. A China não domina apenas a extração, mas também a tecnologia de separação e refino, etapas nas quais a Europa ainda possui pouca capacidade industrial. O valor agregado está nesses processos posteriores à mineração.
A LKAB estima que, quando estiver em plena operação, Per Geijer poderá atender a até 18% da demanda europeia por terras raras. É um passo significativo, mas ainda insuficiente para eliminar completamente a dependência do continente. A diversificação das fontes de fornecimento continua sendo a única estratégia segura no curto prazo.
O que a descoberta significa para o futuro da tecnologia verde?
A jazida de Per Geijer representa mais do que um depósito mineral: ela é a materialização da esperança europeia de liderar a transição energética sem depender de rivais geopolíticos. Cada tonelada de terras raras extraída em Kiruna significa menos vulnerabilidade para a indústria automotiva alemã e para os parques eólicos do Mar do Norte.
A descoberta também revela o potencial inexplorado do subsolo europeu. Se a Suécia conseguir superar os obstáculos regulatórios e ambientais, abrirá um precedente para que outros países do continente invistam em prospecção e mineração sustentável. O gelo do Ártico guarda segredos que podem moldar o futuro da tecnologia global.











