O Grupo Toky (TOKY3), controlador das marcas Tok&Stok e Mobly, entrou com pedido de recuperação judicial nesta terça-feira (12) para reorganizar dívidas estimadas em cerca de R$ 1,1 bilhão. A solicitação será analisada pela Justiça.
De acordo com a companhia, a deterioração financeira foi causada pela combinação de juros elevados, crédito restrito e desaceleração do consumo de bens duráveis, categoria que inclui móveis e itens de decoração.
Desde o pedido, as ações da companhia vivem uma montanha-russa e mais de 15 leilões por oscilação máxima permitida já foram registrados desde o início do último pregão. Após despencar 41% ontem, os papéis TOKY3 sobem 23%, impulsionados pelo anúncio da saída dos fundadores Victor Pereira Noda, Marcelo Rodrigues Marques e Mário Fernandes Filho da diretoria. No lugar deles, entrarão:
- André Ferreira Peixoto, como diretor-presidente;
- Fabio Ferrante, como diretor financeiro e de Relações com Investidores;
- Daniel Passos de Melo, como diretor de Operações e Sistemas Logísticos.
Grupo já havia recorrido à recuperação extrajudicial
De acordo com Rodrigo Spinelli, sócio do BBMOV Advogados e especialista em recuperação e reestruturação de empresas, o caso chama atenção porque o grupo já havia utilizado anteriormente outro mecanismo de renegociação de dívidas.
“Tok&Stok e Mobly já haviam recorrido à recuperação extrajudicial, com plano homologado em 2024. Isso mostra que o grupo já vinha tentando alternativas de reestruturação antes da recuperação judicial”, afirmou o especialista em análise enviada ao Monitor do Mercado.
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A recuperação extrajudicial é um acordo negociado diretamente com credores e homologado pela Justiça, enquanto a recuperação judicial envolve supervisão judicial mais ampla e proteção temporária contra cobranças.
Segundo Spinelli, o pedido foi apresentado com consolidação processual, mecanismo que permite que diferentes empresas do mesmo grupo ingressem juntas na ação judicial, mas mantendo a separação patrimonial e individualização das dívidas.
O especialista afirma que isso difere da chamada consolidação substancial, modalidade em que as empresas passam a ser tratadas como uma única estrutura econômica.
Grupo Toky tenta proteger caixa e operação
Outro ponto citado pelos especialistas envolve o pedido cautelar apresentado pelo Grupo Toky para antecipar os efeitos protetivos da recuperação judicial, incluindo o chamado “stay period”, que estabelece um prazo de 180 dias no qual execuções e cobranças ficam suspensas para permitir a negociação com credores.
Segundo Spinelli, o grupo argumenta que enfrenta retenções e bloqueios de aproximadamente R$ 77 milhões em contas e recebíveis por parte da SRM, o que afetaria diretamente o capital de giro e a operação das empresas.
“Em recuperações judiciais de grandes varejistas, o caixa é um elemento central de sobrevivência. Sem liquidez imediata, mesmo empresas operacionalmente viáveis podem entrar em colapso rapidamente”, disse.
O grupo também pediu à Justiça a manutenção de contratos considerados essenciais, incluindo logística, transporte, sistemas digitais e serviços de computação em nuvem.
Varejo de móveis enfrenta mudança no consumo
Para Fernando Canutto, sócio do Godke Advogados e especialista em Direito Empresarial, o caso também reflete mudanças estruturais no setor de móveis após a pandemia.
Segundo ele, houve forte crescimento da demanda durante o período de home office, seguido por desaceleração após a normalização das atividades presenciais. “Depois do pico de consumo na pandemia, houve desaceleração da demanda, agravada pela inflação, pelo crédito caro e pelo endividamento das famílias”, afirmou.
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Canutto destacou que o setor depende diretamente de logística eficiente, controle de estoque e fluxo contínuo de entregas.
“Hoje, não basta apenas vender. O consumidor exige entrega rápida, rastreamento eficiente e previsibilidade”, explicou. Segundo o especialista, qualquer instabilidade financeira pode afetar fornecedores, operadores logísticos e a reputação das marcas.
Recuperações judiciais batem recorde no Brasil
O caso do Grupo Toky ocorre em meio ao aumento dos pedidos de recuperação judicial no país. Em 2025, o Brasil registrou 2.466 pedidos de recuperação judicial, maior número desde a criação da Lei de Recuperação Judicial e Falências, em 2005.
No primeiro trimestre deste ano, segundo dados do Monitor RGF de Recuperação Judicial, da consultoria RGF & Associados, o número já bateu um novo recorde, totalizando 5.931 companhias que estavam em processo de reestruturação até o fim de março, sendo que 319 pedidos foram deferidos.
O número de empresas em recuperação judicial no Brasil atingiu novo recorde no primeiro trimestre. Neste ano, ao todo, 5.931 companhias estavam em processo de reestruturação até o fim de março, marcando um avanço de 4,4% em relação ao trimestre anterior e de 22% na comparação com o mesmo período do ano passado.
Segundo Rafael Brasil, advogado especialista em recuperação judicial, o avanço dos pedidos reflete um cenário de pressão financeira prolongada sobre as empresas brasileiras.
“O que vemos no caso Tok&Stok e Mobly é o retrato de uma crise sistêmica. Juros elevados por anos seguidos, consumidor endividado e crédito difícil de conseguir formam uma combinação que pressiona o caixa das empresas”, afirmou.
Próximos passos da recuperação judicial
Agora, o Judiciário deverá analisar se o Grupo Toky cumpre os requisitos legais para o processamento da recuperação judicial.
Caso o pedido seja aceito, as cobranças e execuções contra as empresas poderão ser suspensas temporariamente, enquanto o grupo apresenta um plano de recuperação aos credores.
Na sequência, bancos, fornecedores e demais credores deverão avaliar propostas envolvendo prazos, descontos e renegociação das dívidas. Se aprovado, o plano permitirá a continuidade das operações sob supervisão judicial. Caso contrário, o processo poderá ser convertido em falência.











