Enxergando um ambiente econômico mais pressionado para famílias e empresas, grandes bancos brasileiros começaram a reforçar suas provisões (reservas), se preparando para uma onda de calotes — com o aumento da inadimplência — nos próximos meses.
Nos últimos 30 dias, Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3) perderam juntos cerca de R$ 70 bilhões em valor de mercado. A queda não representa saída de recursos, mas uma redução no preço das ações negociadas na B3, refletindo expectativas mais cautelosas dos investidores.
O movimento também atingiu bancos digitais. O Inter (INBR32) recuou mais de 20% na Bolsa no período, enquanto o Nubank (ROXO34) perdeu cerca de 5% em valor de mercado. Juntas, as duas instituições tiveram redução próxima de R$ 20 bilhões em valor de mercado.
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Apesar da reação negativa das ações, os balanços recentes mostraram crescimento de receita, expansão da carteira de crédito e, em alguns casos, lucro recorde.
No novo episódio do podcast Ligando os Pontos, Marcos de Vasconcellos, CEO do Monitor do Mercado, explica que o foco do mercado está menos nos resultados passados e mais nos sinais sobre o cenário futuro. Confira:
Juros altos aumentam risco de calote
Os balanços recentes mostraram deterioração na qualidade do crédito e aumento das provisões para perdas. No setor bancário, esse indicador também é chamado de “custo de risco”. Na prática, os bancos estão avaliando que emprestar dinheiro ficou mais arriscado.
Parte dessa preocupação está relacionada ao nível elevado da taxa Selic, atualmente em 14,5% ao ano. Mesmo após os cortes recentes de 0,25 ponto percentual (p.p.) promovidos pelo Comitê de Política Monetária (Copom), o juro básico continua em um dos maiores níveis reais do mundo.
As expectativas de redução da Selic esbarraram no cenário internacional, com as tensões envolvendo Estados Unidos e Irã e os impactos sobre o petróleo pressionando as expectativas inflacionárias. Esse movimento mantém o Banco Central (BC) cauteloso.
Vasconcellos, que também é colunista da Folha de S.Paulo, explica que juros elevados aumentam o custo do crédito e afetam financiamentos imobiliários, crédito para veículos, cartão de crédito e capital de giro das companhias, principalmente pequenas e médias empresas, que dependem mais diretamente de empréstimos bancários para manter as operações.
Recorde de inadimplência
O cenário ganhou ainda mais força após dados recentes da Serasa apontarem que o Brasil ultrapassou a marca de 81 milhões de inadimplentes em 2026.
Segundo a avaliação do mercado, o aumento no número de consumidores com pagamentos em atraso, dívidas negativadas ou restrições de crédito deixou de ser um problema isolado e passou a afetar diferentes setores da economia.
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Desenrola 2.0
Para reduzir a inadimplência e estimular o consumo, o governo ampliou o Desenrola 2.0. O objetivo do programa é permitir renegociação de dívidas com condições facilitadas, liberando espaço no orçamento das famílias.
Economistas também acompanham possíveis efeitos inflacionários indiretos, embora o Ministério da Fazenda afirme que o programa foi estruturado para não pressionar os preços.
Bancos brasileiros perdem força na B3
O aumento da cautela também aparece no desempenho da Bolsa brasileira. O Ibovespa, principal índice da B3, acumula alta de 15% no ano, impulsionado pela entrada de capital estrangeiro e pela expectativa de queda dos juros.
Já o IFNC, índice que reúne ações do setor financeiro, perdeu fôlego e diminuiu os ganhos diante da possibilidade de uma desaceleração mais intensa da economia. Hoje, o setor sobe cerca de 10%.











