A Raízen divulgou nesta quarta-feira (27) um documento com novos detalhes sobre as negociações com credores dentro do processo de recuperação extrajudicial e apresentou os principais caminhos que pretende usar para reduzir alavancagem e reforçar caixa nos próximos meses. O material, preparado para discussões com grupos de credores, mostra que a companhia entrou em uma etapa mais avançada da reestruturação financeira, com foco em venda de ativos, reorganização operacional e busca de liquidez.
Entre os principais temas tratados no documento estão:
- venda de ativos e usinas;
- possível entrada de investidores na Raízen Combustíveis;
- criação de comitê de credores;
- combate à informalidade no setor de combustíveis;
- contingências tributárias de R$ 28,7 bilhões;
- recuperação operacional da rede Shell;
- estratégia agrícola e aumento de produtividade na cana.
Venda de ativos vira principal caminho para desalavancagem
A principal frente da estratégia apresentada pela Raízen envolve venda de ativos. A companhia informou que já anunciou desinvestimentos próximos de R$ 4 bilhões, incluindo usinas como Leme, Santa Elisa, Passa Tempo, Rio Brilhante e Continental. O documento afirma ainda que a empresa negocia com interessados ativos que representam entre 10 milhões e 15 milhões de toneladas de capacidade de moagem, indicando que novos desinvestimentos podem ocorrer nos próximos meses.
Outro ponto destacado no material é a possibilidade de monetização da Raízen Combustíveis, considerada uma das operações mais relevantes do grupo. Segundo a companhia, o conselho da divisão deverá iniciar um processo competitivo para buscar investidores estratégicos ou realizar eventual venda de participação acionária, incluindo uma possível oferta secundária de ações (follow-on). O objetivo, de acordo com a empresa, seria acelerar a desalavancagem e ampliar liquidez durante as negociações com credores.
Comitê de credores e nova governança
Segundo o documento, a empresa pretende criar uma estrutura de governança mais rígida para acompanhar o processo de recuperação. O atual CFO da companhia, Lorival Luz, deverá assumir a função de Chief Restructuring Officer (CRO), enquanto um comitê formado por cinco credores terá poder de aprovação sobre etapas relevantes da recuperação extrajudicial. A medida busca aumentar previsibilidade e dar mais participação aos investidores detentores de dívida.
Informalidade no setor aparece como justificativa para pressão nas margens
Ao longo da apresentação, a Raízen também tenta sustentar a tese de que a pressão recente sobre margens decorreu principalmente do aumento da informalidade no setor de combustíveis. A companhia afirma que distribuidoras independentes ganharam participação de mercado nos últimos anos impulsionadas por práticas irregulares, como evasão tributária, não pagamento de créditos de carbono e descumprimento das regras de mistura de biodiesel. Com isso, a empresa estima um potencial de expansão de margem de até R$ 74 por metro cúbico no setor e possibilidade de recuperação de participação de mercado pelas grandes distribuidoras.
O documento cita ainda operações recentes da ANP, Receita Federal e PGFN contra fraudes no setor, além da aprovação do projeto do “Devedor Contumaz” pela Câmara dos Deputados, em março de 2026.
Shell, lubrificantes e Shell Box
O material também reforça a importância da operação Shell dentro da estratégia da companhia. A Raízen relata que os postos da bandeira possuem throughput médio superior ao dos principais concorrentes e destaca crescimento da divisão de lubrificantes, avanço do Shell Box e melhora recente de indicadores operacionais como sinais de recuperação de geração de caixa.
Segundo a companhia, a divisão de lubrificantes ganhou 6 pontos percentuais de participação de mercado em 24 meses, enquanto a plataforma Shell Box já movimentou R$ 10,8 bilhões em pagamentos.
Passivos tributários seguem no radar
A companhia também voltou a detalhar suas contingências tributárias, que somam R$ 28,7 bilhões. O principal tema envolve créditos de PIS/Cofins e compensações tributárias não reconhecidas. Segundo a empresa, aproximadamente R$ 7,2 bilhões dessas contingências poderiam ser reembolsados por Shell e Cosan, devido a acordos firmados na criação da Raízen, em 2011.
Cana e produtividade agrícola
Na área de energia, a Raízen afirmou que trabalha para recuperar produtividade agrícola e atingir potencial de 82 toneladas de cana por hectare. O plano inclui expansão de áreas plantadas, irrigação, melhorias genéticas e agricultura regenerativa. Segundo a companhia, essas práticas podem elevar a produção em até 4 pontos percentuais e reduzir custos operacionais.











