O forte romano de Vindolanda, no norte da Inglaterra, guarda uma das maiores coleções de ferramentas romanas fora do Museu Britânico. Mais de 300 peças de ferro catalogadas mostram, com rara precisão, como soldados e artesãos trabalhavam no cotidiano de um forte de fronteira.
Por que Vindolanda é tão importante para a arqueologia romana?
Vindolanda fica ao sul da Muralha de Adriano, na atual Northumberland. As condições anaeróbicas do solo preservaram objetos orgânicos e metálicos em estado quase intacto, algo raro em qualquer sítio romano no mundo.
O relatório de escavação produzido por Justin Blake em 1999, pela Vindolanda Trust, documenta peças de até nove períodos de ocupação, entre aproximadamente 85 d.C. e 400 d.C. Isso torna a coleção uma janela única para três séculos de vida militar e civil no noroeste romano.

Quais tipos de ferramentas foram encontrados no forte?
A coleção cobre praticamente todos os ofícios de um assentamento militar romano. Cada categoria de ferramenta aponta para uma atividade específica dentro ou ao redor do forte.
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Os principais grupos identificados no relatório são:
O que as facas e cutelos de Vindolanda dizem sobre o dia a dia romano?
As facas são o grupo mais numeroso da coleção. O relatório cataloga mais de 50 exemplares, classificados segundo os 24 tipos definidos pelo Professor W.H. Manning em seu catálogo de 1985 para o Museu Britânico.
Os tipos mais frequentes em Vindolanda são as facas do tipo Manning 11a, com dorso reto e gume levemente convexo, e as do tipo Manning 7, com cabo de osso decorado e lâmina em formato S. Alguns exemplares têm inscrições em crescentes no cabo, possivelmente marcas do fabricante.
Os principais dados sobre as facas encontradas incluem:
- Comprimentos que variam de 36 mm a 280 mm
- Materiais de cabo em ferro, osso, madeira e bronze
- Facas de cabo inteiramente em osso com acabamento em cruz cruzada e alça final
- Um exemplar com inscrição RITIA T., possivelmente uma marcação de proprietário
- Lâminas de bronze, mais raras que as de ferro

Como os romanos afiavam e conservavam suas facas?
O desgaste visível em muitas lâminas indica afiações repetidas ao longo de anos de uso. Algumas facas apresentam o gume côncavo, resultado de reafiações sucessivas, e o dorso com curva diferente do original. Isso mostra que os soldados e trabalhadores mantinham seus instrumentos em uso ativo por longos períodos antes de descartá-los.
Como os romanos de Vindolanda usavam ferramentas únicas que não existem em outros sítios?
Quatro objetos da coleção se destacam como peças únicas ou raríssimas no contexto da Britânia romana. Sua presença em Vindolanda muda o que se sabia sobre as capacidades produtivas de um forte de fronteira.
Veja uma comparação dessas ferramentas excepcionais:
| Ferramenta | Função | Raridade |
|---|---|---|
| Plano industrial 588 mm de comprimento | Aplainamento de grandes vigas de madeira para construção | Muito raro |
| Dispositivo de fabricação de arame Placa de ferro com furos côncavos | Produção de fios de metal para cota de malha ou uso geral | Único na Britânia |
| Ferramenta de cabeçamento de pregos Bloco de ferro com 5 furos escalonados | Formação de cabeças de pregos em diferentes tamanhos | Raríssima |
| Escova de cerdas rígidas Estrutura de carvalho com orifícios para cerdas | Esfregação de superfícies, provavelmente não para varrer | Único confirmado |
O que a ausência de certas ferramentas revela sobre Vindolanda?
Tão importante quanto o que foi encontrado é o que está ausente. O relatório de Justin Blake aponta que nenhuma bigorna de ferreiro, nenhuma foice e nenhum arado foram recuperados, apesar da longa ocupação do sítio.
A explicação mais provável está na localização das escavações: a maior parte foi feita na área central do forte pré-hadriano, que correspondia ao quartel-general e à residência do oficial comandante. Esse núcleo nunca seria o local de ferreiros ou depósitos agrícolas. À medida que as escavações avançam para outras zonas, a coleção tende a crescer e preencher essas lacunas.
Para quem quer ir além do resumo, o relatório original de Justin Blake reúne o catálogo completo com desenhos técnicos de cada peça:
Por que a coleção de ferramentas de Vindolanda ainda importa hoje?
A coleção de Vindolanda não é apenas um acervo de objetos antigos. Ela demonstra que os romanos na fronteira norte da Britânia mantinham uma produção artesanal diversificada e sofisticada, de carpintaria pesada à joalheria fina, tudo dentro dos limites de um único forte militar.
O trabalho cuidadoso de catalogação, publicado pela Vindolanda Trust, garante que essas peças possam ser estudadas por pesquisadores do mundo todo. Cada faca, cada punção e cada lima recuperada do solo anaeróbico de Northumberland conta um fragmento da vida de pessoas reais que viveram e trabalharam naquele lugar há quase 2.000 anos.











