A renda do trabalho superou o crédito como principal motor do consumo no Brasil em meio a um cenário de juros altos, segundo a primeira edição do M&C Forecast, relatório de inteligência setorial lançado pela Mercado&Consumo.
As análises da Gouvêa Inteligência e da sócia da M&C Capital, Daniela Bretthauer, destacam que esse novo ciclo é sustentado por indicadores recordes do mercado de trabalho. A taxa de desemprego caiu para 5,6%, menor nível da série histórica, enquanto a massa salarial real atingiu R$ 377,7 bilhões e o rendimento médio dos trabalhadores chegou a R$ 3.726.
Além disso, com a taxa Selic acima de 14% ao ano, o consumidor passou a selecionar melhor seus gastos. O cenário se difere do observado entre 2009 e 2014, quando a expansão do varejo foi impulsionada principalmente pela oferta de crédito.
De acordo com o relatório, a mudança na dinâmica do crescimento impacta os segmentos da economia de forma diferente. Setores considerados essenciais continuam apresentando desempenho mais consistente, entre eles:
- supermercados;
- farmácias;
- produtos de higiene pessoal;
- alimentação.
Por outro lado, segmentos mais dependentes de financiamento permanecem pressionados. É o caso de bens duráveis, vestuário e materiais de construção, afetados pela combinação entre juros elevados e maior endividamento das famílias.
Outro destaque é o avanço do comércio eletrônico, que continua ampliando sua participação no varejo, impulsionado pela conveniência das compras digitais.
Copa do Mundo mudou o consumo no Brasil
O estudo também analisou os efeitos da Copa do Mundo de 2026 sobre o consumo durante o segundo trimestre. Segundo dados do Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), no dia 13 de junho, quando o Brasil estreou contra o Marrocos, as vendas no varejo físico recuaram 3,7%, enquanto o comércio eletrônico registrou crescimento de 15,5%. No resultado consolidado, houve queda de 1,3%.
A realização das partidas em horários próximos ao expediente comercial provocou uma mudança temporária nos hábitos de consumo. Bares, restaurantes, alimentos e bebidas concentraram parte da demanda, enquanto categorias consideradas discricionárias, como produtos de maior valor agregado, registraram desempenho mais fraco.
Antes da eliminação da seleção brasileira nas oitavas de final, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) projetava movimentação de R$ 2,42 bilhões em bares e restaurantes durante o torneio. Segundo o relatório, essa estimativa não deverá ser alcançada.
Apesar do impacto pontual, o relatório afirma que o evento não altera a tendência estrutural do consumo brasileiro, que continua sustentado pela renda do trabalho e pela demanda por produtos essenciais e compras digitais.
Perspectivas para o segundo semestre
O M&C Forecast projeta crescimento de 2% para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026. O relatório também considera uma inflação acumulada de 4,72%, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) até maio, e avalia que uma flexibilização da política monetária deverá ocorrer apenas a partir de 2027.
Na avaliação dos autores, o ambiente econômico dos próximos meses será marcado por maior disputa entre empresas por participação de mercado, em vez de uma expansão ampla do consumo das famílias.











