Sob a camada de gelo da Antártida, radares identificaram antigas superfícies moldadas por rios ao longo de cerca de 3.500 quilômetros. Essas planícies podem estar preservadas há mais de 30 milhões de anos e ajudam a explicar por que partes do relevo desaceleram o avanço das geleiras em direção ao oceano aberto.
Onde estão as planícies escondidas sob o gelo da Antártida?
As superfícies aparecem sob uma longa faixa da camada de gelo da Antártida Oriental, entre a Terra da Princesa Elizabeth e a Terra de George V. Elas não formam um único vale contínuo, mas blocos de terreno plano separados por canais profundos.
O conjunto se estende por aproximadamente 3.500 quilômetros perto da margem continental. Em vários pontos, o gelo encobre completamente o relevo, impedindo observação direta. A forma das superfícies só aparece quando os pesquisadores transformam sinais de radar em mapas da base congelada.

Como radares enxergam um relevo enterrado por quilômetros de gelo?
O British Antarctic Survey participou da coleta e interpretação dos dados. Antenas instaladas em aeronaves enviaram ondas capazes de atravessar o gelo e retornar ao encontrar a rocha, permitindo calcular profundidade, inclinação e formato do terreno subglacial.
Cada retorno funciona como uma medida de distância. Ao reunir milhares de linhas de voo, os cientistas reconstruíram superfícies planas e canais estreitos. O padrão se repetiu em áreas muito afastadas, indicando que o relevo preservado é uma característica regional, não apenas uma formação isolada.
Que sinais mostram que grandes rios moldaram essas superfícies?
Depois do mapeamento, a equipe comparou a geometria encontrada com paisagens expostas em outros continentes. A largura, a suavidade e a posição dos blocos apontam para erosão produzida por rios extensos, antes que uma camada de gelo continental cobrisse a Antártida Oriental.
Os indícios principais aparecem em quatro características:
- Planícies muito largas: as superfícies são grandes demais para terem sido niveladas apenas por pequenos cursos de água.
- Canais entre blocos: vales profundos seguem antigas fraquezas do terreno e cortam as áreas mais planas.
- Formas semelhantes: trechos separados por centenas de quilômetros preservam padrões compatíveis de relevo fluvial.
- Baixa erosão posterior: partes das planícies permaneceram quase intactas apesar de milhões de anos sob o gelo.

Por que esse relevo funciona como um freio para as geleiras?
As superfícies planas interrompem a passagem direta do gelo para os canais mais profundos. Essa organização pode reduzir a velocidade das geleiras, porque concentra o fluxo em corredores estreitos e mantém grandes blocos apoiados sobre terrenos relativamente elevados e estáveis.
O estudo publicado na Nature Geoscience indica que essas superfícies modulam a evolução da camada de gelo. Incorporar o relevo aos modelos pode melhorar previsões sobre quanto gelo alcançará o oceano durante períodos de aquecimento prolongado.
O que essas planícies revelam sobre a antiga Antártida?
Algumas superfícies podem ter começado a se formar há mais de 80 milhões de anos, quando a Antártida Oriental ainda estava ligada à Austrália. Grandes rios teriam suavizado o terreno antes da expansão do gelo continental, iniciada aproximadamente 34 milhões de anos atrás.
A preservação mostra que o gelo sobre essas áreas permaneceu frio na base por longos períodos, causando pouca erosão. Assim, as planícies fluviais enterradas guardam dois registros ao mesmo tempo: a paisagem de um continente antigo e os obstáculos que ainda controlam o caminho das geleiras atuais.











