O corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, anunciado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira (5), pode melhorar gradualmente o ambiente para os criptoativos no Brasil, mas não deve provocar uma alta imediata do Bitcoin. A avaliação é de Lucas Veronezzi, sócio e especialista em investimentos em cripto da Blue3 Investimentos.
Segundo o especialista, a redução da taxa básica de juros para 14% ao ano diminui, aos poucos, a atratividade relativa da renda fixa, principal concorrente dos ativos digitais na disputa pelo capital dos investidores brasileiros.
“O ciclo de afrouxamento que se desenha não é gatilho imediato de alta para cripto, mas é o início da reconstrução do apetite por risco no portfólio do brasileiro”, afirma Veronezzi. Confira abaixo a evolução da taxa Selic desde jan/2021 e o bitcoin em reais.

Juros reais ainda favorecem renda fixa
Apesar do novo corte, o especialista destaca que o Brasil continua oferecendo uma das maiores taxas de juros reais do mundo, próximas de 9% ao ano.
Os juros reais representam o retorno obtido acima da inflação e são um dos principais fatores considerados pelos investidores na comparação entre aplicações de renda fixa e ativos de maior risco, como criptomoedas.
Na avaliação de Veronezzi, cada redução da Selic diminui essa vantagem da renda fixa, abrindo espaço para uma maior alocação em ativos digitais ao longo do ciclo de flexibilização monetária. Confira abaixo a relação
Mercado de cripto segue crescendo no Brasil
Mesmo durante um período de política monetária restritiva, o mercado brasileiro de criptoativos continuou registrando expansão. Segundo dados citados por Veronezzi, os investidores brasileiros movimentaram R$ 446,4 bilhões em criptoativos em 2025, conforme informações declaradas à Receita Federal.
Outro destaque foi o mercado de tokenização, processo que transforma ativos reais em representações digitais registradas em blockchain. Esse segmento movimentou R$ 4,84 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 122% em relação ao mesmo período anterior.
O especialista também cita o avanço da adoção institucional, destacando a integração da MYNT, plataforma de criptomoedas do BTG Pactual, ao aplicativo principal do banco.
Para Veronezzi, esse movimento indica que a demanda por ativos digitais no Brasil já não depende exclusivamente do ciclo de juros. A queda da Selic, segundo ele, tende a ampliar a escala desse processo.
Cenário internacional ainda limita recuperação do Bitcoin
No mercado internacional, Veronezzi avalia que fatores macroeconômicos seguem restringindo uma recuperação mais consistente das criptomoedas. Entre eles estão a postura mais rígida do Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, as tensões no Oriente Médio e a pressão sobre os preços do petróleo.
Nesse contexto, o Bitcoin permanece negociado entre US$ 60 mil e US$ 66 mil, enquanto o índice Fear & Greed, indicador que mede o sentimento dos investidores, está em 38 pontos, faixa considerada de medo.
O especialista também cita a avaliação de Samir Kerbage, CIO da Hashdex, que projeta a continuidade do mercado de baixa (“bear market”) até novembro deste ano, seguida por um novo ciclo de recuperação.
Banco Central amplia regulação do setor
Outro fator acompanhado pelo mercado é o avanço da regulamentação das criptomoedas no Brasil. Segundo o especialista, a Resolução BCB nº 580/2026 passou a enquadrar as prestadoras de serviços de ativos virtuais sob supervisão prudencial do Banco Central, aproximando as exigências regulatórias das aplicadas às instituições de pagamento e corretoras tradicionais.
Veronezzi acrescenta que a autoridade monetária também estuda mecanismos como a retenção preventiva de operações com stablecoins por até 24 horas.
Na avaliação da Blue3 Investimentos, a redução da Selic representa o início de um ambiente mais favorável aos criptoativos, mas ainda insuficiente para alterar a dinâmica de curto prazo do mercado.
Veronezzi complementa, afirmando que a demanda estrutural já existe, mesmo em um cenário de juros elevados. “A convergência que se desenha à frente, com ciclo de cortes em curso, fim do inverno cripto e marco regulatório do Banco Central consolidado, cria as condições para a próxima fase de adoção institucional”, disse.











