A inflação medida pelo índice de preços de Despesas de Consumo Pessoal (PCE) subiu 3,7% na comparação anual até julho, mantendo-se acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve (Fed). Na variação mensal, o indicador avançou 0,2%, segundo dados divulgados pelo Bureau of Economic Analysis (BEA) nesta quarta-feira (26).
O resultado de julho ocorre após dois meses de desaceleração da inflação, movimento que reforçou a posição da maioria dos integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) pela manutenção dos juros entre 3,5% e 3,75% em julho, faixa vigente desde dezembro.
No núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia para retirar do cálculo os componentes mais sujeitos a oscilações, a alta foi de 0,2% em julho. Em 12 meses, o núcleo avançou 3,3%.
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, chama atenção para o índice cheio, que ajuda a explicar a alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano. O de dois anos, por exemplo, subiu para 4,22%.
“É verdade que esse vencimento vinha de uma sequência de quedas desde o fim de julho, mas também observamos avanços nos títulos de dez e 30 anos, refletindo a percepção de que a inflação continua resiliente e ainda preocupa”, avalia.
Renda pessoal supera avanço de junho
Além da inflação, o relatório mostrou que a renda pessoal dos americanos aumentou US$ 115,1 bilhões em julho, equivalente a 0,4%, mantendo a trajetória de crescimento observada ao longo do ano.
O avanço foi puxado principalmente pela remuneração dos trabalhadores, pelos benefícios sociais pagos pelo governo e pelos rendimentos obtidos com ativos financeiros.
Dentro da remuneração, os salários e vencimentos do setor privado foram o principal componente de alta. Os cálculos incorporam dados do Bureau of Labor Statistics (BLS) sobre emprego, horas trabalhadas e rendimentos.
Entre os benefícios sociais, Medicaid e Medicare foram os programas que mais contribuíram para o crescimento, com base em informações do Tesouro americano e do orçamento federal. Nos rendimentos provenientes de ativos, o aumento foi liderado pelos dividendos recebidos pelas famílias.
A renda pessoal disponível, que corresponde à renda após o pagamento dos impostos correntes, cresceu US$ 125,9 bilhões, ou 0,5%, em julho. O ritmo ficou acima do avanço de 0,4% da renda pessoal e acelerou em relação a junho, quando registrou alta de 0,2%.
Consumo desacelera e muda composição
Os gastos pessoais com consumo cresceram US$ 36,3 bilhões em julho, alta de 0,2%, abaixo do avanço de 0,3% registrado em junho.
Mais do que a desaceleração, os dados mostram uma mudança na composição do consumo americano. As despesas com serviços aumentaram US$ 86,2 bilhões no mês, enquanto os gastos com bens diminuíram US$ 49,9 bilhões.
Entre os serviços, os gastos com serviços financeiros e seguros tiveram o maior aumento, de US$ 24,3 bilhões. Em seguida vieram saúde, com avanço de US$ 23,2 bilhões, e moradia e serviços públicos, que cresceram US$ 16,4 bilhões.
Do lado negativo, gasolina e outros produtos de energia registraram queda de US$ 14 bilhões. Os gastos com veículos recreativos diminuíram US$ 13,6 bilhões, enquanto as despesas com veículos automotores e peças recuaram US$ 9,4 bilhões.
Quando o efeito da inflação é retirado, o consumo pessoal fica praticamente estável. O chamado consumo real aumentou apenas US$ 1,3 bilhão em julho, menos de 0,1%, depois de crescer 0,4% em junho.
PCE reforça resiliência da economia americana
Quanto ao crescimento dos gastos e da renda acima do esperado, Alves avalia que, por um lado, o resultado do PCE é positivo, porque mostra a resiliência da economia americana, mas, por outro, reforça as preocupações com a inflação.
O especialista destaca ainda que os preços de energia continuam pressionados, com destaque para a inflação de serviços, que avançou 0,3% no mês. Alves pontua que esse componente tem menos relação com conflitos geopolíticos ou oscilações nos preços dos alimentos e está mais associado a uma inflação persistente e “pegajosa”.
De forma geral, ele avalia que o PCE de julho aponta para uma economia que segue dando sinais de resiliência, combinada com um dado de inflação mais forte, pode recolocar na mesa a possibilidade de alta dos juros em setembro.
O PMI preliminar divulgado na semana passada reforçou essa leitura, apontando para um ritmo de crescimento compatível com um PIB próximo de 3%. No entanto, o especialista lembra que ainda teremos uma nova atualização do GDPNow, do Fed de Atlanta, que ajudará a dar mais clareza sobre a atividade.
BEA fará atualização anual do PCE e dados de economia dos EUA
A próxima divulgação de renda e gastos pessoais está marcada para 30 de setembro. Na mesma data, o BEA iniciará, pela primeira vez de forma simultânea, a atualização anual das contas econômicas nacionais, industriais e regionais.
O processo incluirá revisões e atualizações de estatísticas do Produto Interno Bruto (PIB), da renda pessoal e de outros dados das Contas Nacionais de Renda e Produto. Na esfera regional, serão atualizadas informações sobre o PIB e a renda pessoal por estado e condado.
A divulgação de 30 de setembro também trará os dados referentes ao mês de agosto.











